Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

maio 30, 2010

1984, George Orwell

Nineteen Eighty-Four Acredite ou não, nunca tinha lido 1984 até algumas semanas atrás quando comprei o livro no aeroporto de Estocolmo. Eu gostei pra caramba, mais do que A Revolução dos Bichos, ainda que seja bem claro o link anti-comunas-fedidos dos dois livros.

Acho que todo mundo sabe, mesmo quem não tenha lido 1984, que se passa em um possível futuro totalitário onde o Partido domina tudo. Inclusive é de onde o nome “Big Brother” se origina – acho que a essa altura do campeonato todo mundo também sabe disso, então, dá-lhe inutilidade! Eu realmente gostei da ambientação, especialmente o conceito dos ministérios, como o “Ministério da Paz” que na real era responsável pela guerra e os “telescreens” que são nada mais do que televisões (com capacidade de filmar e ouvir também) que nunca podem ser desligadas. Dá pra ver onde Alan Moore buscou inspiração pra escrever seu V de Vingança.

Ainda que eu tenha gostado mais de 1984 do que do Admirável Mundo Novo do Huxley, acho que quem “venceu” a batalha em prever o futuro foi o Huxley. Enquanto Orwell previu o totalitarismo absoluto através da privação, controle, dor, sofrimento, medo, guerra e, principalmente, poder absoluto de um Partido central, Huxley em contrapartida imaginou a humanidade escravizada por prazer, hedonismo, drogas, excesso de informação irrelevante, enfim, algo bem anos 2000 se tu olhar para Big Brother (o programa de TV), revistas de fofocas, Twitter, Youtube, fast food, cigarrinho do diabo, álcool, etc.

Métodos diferentes, efeitos semelhantes (e nisso tanto Huxley quanto Orwell acertaram): uma minoria privilegiada comanda, uns 20% estão na camada um pouco mais baixa, mas ainda assim bem legal e a massa tá mesmo e se ferrando, completamente alienada e imóvel.
Boa leitura, meio deprê no fim, mas uma ótima reflexão.

dezembro 23, 2008

Como ser um grande escritor, por Charles Bukowski

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil -
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada -

um gosto precoce de morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente -
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela
bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque

e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.


(Charles Bukowski, in O amor é um cão dos diabos) - mas nem li o livro, só roubei d'O de Sempre Nunca, ou seja lá qual é o nome desse blog patrocinado pela Bavaria.

abril 22, 2008

Dueto

Há um tempo atrás, em algum desses portais de literatura cujo nome sinceramente não me recordo, havia uma promoção: fazer um parágrafo continuando um trecho de um livro do Luís Fernando Veríssimo. Acho que o prêmio era ganhar o próprio livro do LFV, não estou certo também. Esses dias achei o arquivo com minha contribuição, então ei-la (a parte em itálico é do próprio LFV, se não ficou óbvio):

Contam os antigos que há muitos anos, antes mesmo do Eskibon e do Jajá, quando Copacabana ainda era uma praia e não um deserto que acabava no mar, quando ainda havia os postos pintados de branco e calçadão era um sapato grande, um rapaz, um dia, encontrou uma concha à beira-mar. Era no tempo em que ainda havia conchas, e não bisnagas de plástico, à beira-mar.

Conchas têm uma função óbvia: colocar na orelha e ouvir o som do mar. Talvez servir como ornamento em uma geladeira, ao lado de um pingüim. Mas não essa concha. Acontece que essa era uma concha especial, pois nele se podia ouvir o futuro. Por exemplo, se Pero Vaz de Caminha a tivesse colocado junto ao ouvido, poderia ter alterado a famosa frase em sua carta para: “Nela em se elegendo, tudo dá!” Mas deixemos de especulação. Digo especulação, porque não podemos saber ao certo o que o rapaz do primeiro parágrafo ouviu ao posicionar a concha perto do ouvido. Mas não deve ter sido algo lá muito importante, já que largou a concha casualmente na areia e disse decepcionado:

- Essa está com defeito.

fevereiro 15, 2008

Harlequin Valentine (Neil Gaiman)

Lindo! Neil Gaiman disponibilizou ontem (Valentine's Day) o conto Harlequin Valentine em formato de áudio - com ele mesmo narrando. Valem a pena os 23 minutos. Aproveite que, segundo ele, só ficará pra download grátis por algum tempo. Eis o link:

Harlequin Valentine (Neil Gaiman) áudio

Nota: impressionante algumas semelhanças com o personagem de "O que é o Amor?" que eu escrevi, como a bengala, o assovio, o chapéu... a personificação do amor realmente é algo que está no inconsciente coletivo. Ou seria tudo verdade?

fevereiro 14, 2008

Smoke and Mirrors (Neil Gaiman)

Smoke and Mirrors (também lançado em português, sob o título "Fumaça e Espelhos") é uma coletânea de contos do mestre Neil Gaiman. A grande maioria deles tem um "quê" de terror, suspense, mistério ou bizarrice, mas isso não descreve bem a coisa toda.

Criatividade e imaginação talvez sejam o que fazem dele um ótimo livro. Gaiman transforma situações cotidianas em fantásticas em seus contos (tudo com um ar perfeitamente normal). Exemplos: um sujeito encontrando um bêbado em Los Angeles que é um anjo caído que lhe conta como Lúcifer começou sua revolução, um spin-off onde a Branca de Neve é uma espécie de vampira, uma senhora que vai a um antiquário e acaba comprando o Graal, um rapaz que acha uma agência de assassinos de aluguel na lista telefônica sob o título "controle de pestes", um guri que acha um Troll embaixo de uma ponte, um outro guri que perde sua avó após um desaparecimento em um show de mágica, enfim, as situações mais estranhas e as histórias mais criativas.

Provavelmente Neil Gaiman deve ver o mundo com olhos muito muito estranhos - que bom que ele não é egoísta e compartilha sua visão conosco, pobres mortais.

fevereiro 03, 2008

A Luz Fantástica (Terry Pratchett)

Esse livro é a continuação do primeiro da série Discworld, A Cor da Magia, e é tão engraçado quanto. Finalmente mostra o que aconteceu com Rincewind e Duasflor depois que caíram da borda do mundo. Há pouco a dizer, Terry Pratchett é foda. Em vez de tentar dizer o quão legal é ler este que é o escritor britânico vivo mais vendido, vou mostrar um pequeno trecho que mostra como o desgraçado escreve:

“(...)mas principalmente porque esse herói em particular era uma heroína. De cabelos ruivos.

Pois bem, nessas horas, existe uma tendência de olharmos a garota da capa de alguma revista e nos entregarmos a detalhes sobre couro, botas que chegam à altura da coxa e facas afiadas.

Palavras como “farta”, “roliça” e mesmo “ousada” se infiltram na narrativa, até o escritor ter que ir tomar um banho frio e se deitar.

O que é uma grande besteira, porque nenhuma mulher que se proponha a ganhar a vida com a espada vai andar por aí parecendo a capa do mais avançado catálogo de lingerie para especialistas.

Ah, tudo bem. O importante a dizer aqui é que, embora Herrena, a Megera de cabelos com Hena, pudesse ficar deslumbrante – depois de tomar um bom banho, submeter-se a um tratamento intensivo de manicure e escolher os devidos artefatos de couro na Loja de Suplementos Marciais e Produtos Exóticos Orientais de Woo Hun Ling, na rua dos Heróis -, agora estava vestida de modo bastante discreto, com uma leve cota de malha, botas macias e uma espada curta.

Tudo bem, talvez as botas fossem de couro. Mas não pretas.

Cavalgando com ela, havia inúmeros homens morenos que certamente não tardarão a morrer, de modo que uma descrição mais apurada não nos parece essencial. Não havia nada de ousado em nenhum deles.

De acordo com o gosto do leitor, eles podem ou não vestir roupas de couro.”


Compare preços no Buscapé: A Luz Fantástica, A Cor da Magia, Terry Pratchett.

janeiro 25, 2008

Neuromancer (Willian Gibson)

“Nossa, então dá pra fazer isso com um livro?” - foi uma das primeiras coisas que eu pensei ao entrar na trama desse livro.

Neuromancer é um livro que te suga para o mundo bizarro dele. O livro se passa em um futuro não tão distante, onde uma tecnologia muito mais avançada está disponível e o limite entre homens e máquinas não é mais tão claro, por exemplo, é muito comum encontrar pessoas com implantes cibernéticos ou chips malucos que lhe dão conhecimentos ou habilidades diversas.

Neuromancer é um livro icônico do gênero cyberpunk, uma espécie de ficção científica hardcore. Enquanto os gêneros de ficção científica “pré-cyberpunk” focavam muito mais em como a tecnologia iria comandar / melhorar / organizar / etc a vida das pessoas, em Neuromancer a relação é totalmente oposta: qual seria a interação das pessoas com essa tecnologia. Muito mais humano. E muito mais provável. O que você pensa que seria mais provável:

a) a sociedade ser organizada em perfeita vigilância e dentro da lei por supercomputadores inteligentes; ou
b) a sociedade ser dominada por grandes corporações que vendem tecnologia para deixar as pessoas com poderes especiais, mais bonitas, com drogas mais loucas e experiências sexuais ampliadas?

O mundo de Neuromancer é isso aí, é um emaranhado caótico de redes, fios, chips, máquinas e a velha e boa capacidade humana de transformar tudo que toca em violência, desequilíbrio social, prazer e lixo.

O livro conta a história de Case, uma espécie de hacker freelancer que é contratado para realizar uma invasão dita “impossível” por um misterioso homem cujas alianças são desconhecidas. O próprio “herói”, Case, é um anti-herói total: marginalizado, drogado e que só entra na aventura porque não tem outra escolha, ou é isso ou ele morre. A aventura em si é desconhecida, ninguém sabe ao certo pra que as coisas estão sendo feitas e qual serão as conseqüências disto - mas com certeza ninguém quer salvar a humanidade ou qualquer coisa maravilhosa do gênero, cada um quer livrar o próprio rabo e só, se possível lucrando alguma coisa.

Gibson é tão importante que cunhou o termo “ciberespaço”, que hoje é usado como sinônimo de internet, e foi o cara que popularizou o termo “matrix”. Isso mesmo, “matrix”, aliás, a influência para o filme é gigantesca, há inclusive uma cidade espacial chamada “Zion” habitada por rastafaris.

Pessoas que morrem e têm a personalidade gravada em um computador, chips que se conectam a cabeça, inteligências artificiais tentando agir sobre a humanidade, uma rede que une todos os computadores do mundo em uma massa de dados malucos, hackers que se conectam por computadores pela cabeça, implantes cibernéticos sobre-humanos, clones assassinos, está tudo lá em Neuromancer. E tudo isso escrito nos anos 80.

Claro, justamente por ter sido escrito nos 80 há alguns “problemas” tecnológicos, como pessoas usando “disquetes”, memórias RAM extremamente baixas, computadores portáteis nem tão portáteis assim, enfim. Mas isso é irrelevante, o que importa é que Gibson redefiniu a ficção científica e influenciou uma porrada de coisas, inclusive obviamente “Matrix”.

Não sou muito de dizer que algo “precisa” ser feito, mas definitivamente Neuromancer é um livro que qualquer fã de ficção científica precisa ler.

Compare preços no Buscapé: Neuromancer, Willian Gibson

outubro 28, 2007

Lugar Nenhum (Neverwhere)

“O tipo de livro que Terry Pratchett escreveria, se passasse um mês trancado em um porão com Franz Kafka.” - Wired

Richard era um desses empregados de escritório londrino: trabalhava em um emprego que não era ruim, mas não era bom, tinha uma noiva meio mala, mas que era bonita, um amigo, mas que também não era lá grandes coisas. Tinha uma vida normal, até que uma desconhecida moradora de rua atravessa seu caminho sangrando. Depois de socorrê-la, tornou-se como que invisível para as outras pessoas e os poucos que podiam vê-lo não se lembravam mais dele. Não tinha nem pra onde ir, pois seu apartamento fora alugado para um casal e no seu antigo emprego ninguém tinha ouvida falar de Richard. Sem identidade, Richard não existia mais.

Pelo menos na superfície.

Porque na Londres-de-baixo, a Londres construída como um labirinto entre esgotos, galerias subterrâneas e estações de metrô desativadas ou não, todos podiam vê-lo, ainda que em geral o ignorassem. Essa outra Londres de pessoas que podiam falar com ratos, de reinos e baronatos subterrâneos, de povos estranhos, de monstros repulsivos ou vestidos em seda, de caçadores, de pessoas com poderes especiais, tudo longe dos olhos dos habitantes da Londres-de-cima, é onde ele precisa se virar, se adaptar a maluquice e estranheza (muito mais do que a da Londres que conhecemos).

Pra sobreviver nesse outro mundo, Richard precisa reencontrar Door, a mendiga que ele socorreu e que parece ter desencadeado todo o problema. Porém, achar Door não seria o maior dos seus problemas, na verdade eles ficariam realmente maiores depois de encontrar a jovem, pertencente a uma importante família da Londres-de-baixo que fora recentemente assassinada por dois psicóticos que ainda estão no encalço dela.

Não é a toa que Neil Gaiman é considerado um dos escritores vivos mais influentes e imaginativos.

Lugar Nenhum é o primeiro livro dele, mas na minha opinião não tem nada de “primeiro livro” nele, até porque Gaiman já tinha escrito Sandman que, apesar de ser em quadrinhos, ganhou inúmeros prêmios de literatura. Bom, pra falar bem a verdade, Neverwhere, antes de ser um livro, foi uma série de TV que ele escreveu pra BBC.

Resumindo: achei melhor que “Os Filhos de Anansi” e “Belas Maldições”. Neil Gaiman é foda e ponto final.

Procure preços no Buscapé: Lugar Nenhum, Neil Gaiman

agosto 31, 2007

A Cor da Magia

A Cor da Magia é o primeiro livro da série Discworld, uma das mais engraçadas fantasias mezzo-medievais mezzo-mucho-loucas de Terry Pratchett, provavelmente o melhor escritor de humor vivo (ao menos é pra mim). Não ouviu falar em Discworld? A coisa toda é simples:

no lugar de um mundo oval, Discworld é, surpresa, um disco. Mas não apenas isso, é um disco sustentado por quatro grandes elefantes que, por sua vez, se sustentam sobre o casco de uma tartaruga gigante, a Grande A'Tuin, que nada tranquilamente pelo espaço para sabe-se lá onde as grandes tartarugas vão.

Como isso funciona? O próprio Terry Pratchett explica:

"Aqui talvez valha a pena fazer algumas observações sobre a forma e a cosmologia do sistema do Discworld.

Existem, é claro, dois sentidos principais no disco: o centro e a borda. Mas como o próprio disco gira à velocidade de uma vez a cada oitocentos dias (de acordo com o Reforgule de Krull, com o objetivo de distribuir o peso de maneira justa entre os paquidermes que o sustentam), também há dois sentidos secundários, que são o horário e o anti-horário.

Como o pequenino sol do Discworld mantém uma órbita fixa enquanto o imponente disco gira lentamente abaixo dele, podemos deduzir que o ano no Discworld consiste não em quatro, mas em oito estações. Verão é quando o sol nasce e se põe perto da Borda. Inverno, a época em que nasce ou se põe num ponto cerca de 90 graus ao longo da circunferência.

Assim, nas regiões ao redor do Mar Círculo, o ano começa no Réveillon dos Porcos, passa pela Primavera em Flor até o primeiro verão (Véspera dos Pequenos Deuses), seguido por Auge do Outono e - atravessando o meio exato do ano, Cruelmaré - Inverno Secundus (também conhecido por Rocainverno, já que, nessa época, o sol nasce no sentido da rotação). Então vem a Primavera Secundus, com o Verão II no encalço, e o marco dos três quartos do ano é a noite de Inatividade Geral - de acordo com as lendas, única noite do ano em que bruxas e feiticeiros não saem da cama. Depois, folhas trazidas pelo vento e noites frias se arrastam para Rocainverno de Efeito e um novo Réveillon dos Porcos se aconchega como uma jóia gelada em seu coração.

Como o Centro nunca é aquecido de perto pelo sol fraco, a região está sempre gelada. A Borda, por sua vez, é um local de ilhas ensolaradas e dias deliciosos. Existem, é claro, oito dias na semana do Discworld e oito cores em seu aspecto visível. Oito é um número de grandes significados ocultos no disco e jamais deve ser dito por um mago.

O motivo exato do que foi dito acima ser dessa forma não está claro, mas explica um pouco por quê, no Discworld, os Deuses são mais criticados do que venerados."


A Cor da Magia mostra um protagonista recorrente, o mago Rincewind, que na verdade foi expulso da escola de magia e só sabe um feitiço - o problema é que ele não sabe o que esse feitiço faz, além de Duasflor, um turista perigosamente ingênuo com traquitanas como uma caixa com um demônio dentro que faz retratos instantâneos e uma bagagem com uma centena de pequenas pernas e muito mau humor. Eles se vêem as voltas com uma série de bizarrices, como dragões que só existem se você acreditar neles, uma cidade inteira em chamas, A Morte (ou melhor, O Morte), um bárbaro burro e deuses sem noção. Eu adorei o livro, é o segundo da série que eu leio e pretendo ler muito mais. Terry Pratchett é o cara.

Compare preços: Terry Pratchett
Compare preços: A Cor da Magia

julho 26, 2007

Praticamente Inofensiva

Terminei o último livro da série "O Guia do Mochileiro das Galáxias", a famosa "trilogia" de 5 livros que nos ensinou o segredo da vida, do universo e tudo mais, além da importância de uma boa toalha de rosto para todo e qualquer mochileiro. Como sempre, Douglas Adams se puxa em ser engraçado e absurdo ao extremo. Achei este livro bem melhor que o "Até Mais e Obrigado Pelos Peixes", mas ainda não há nenhum que supere "O Restaurante no Fim do Universo" - veja um pequeno trecho deste aqui.

Neste livro os protagonistas são Trillian (e Trícia), Arthur Dent e o sempre ótimo Ford Prefect, infelizmente Marvin e Zaphod estão de fora, em compensação há Colin (um robô eternamente feliz) e a filha de um nos nossos protagonistas. Pra quem leu O Guia do Mochileiro das Galáxias sabe que a única coisa que consta no verbete da Terra no Guia é "Praticamente Inofensiva", logo o nome do livro, onde nossos heróis (?) se vêem novamente às voltas com a demolição do planeta pelos vogons ("de novo?" você pergunta, "é, de novo", respondo, você nem sabe o quão confusa pode ser a vida de um viajante da improbabilidade), além de terem transformado a editora do Guia em um lugar muito chato, para desespero de Ford Prefect, que jura vingança de posse do cartão de crédito da empresa.

Recomendo A+.

E lembre-se, NÃO ENTRE EM PÂNICO, tudo o que você precisará quando o universo acabar é de uma toalha.

Compare preços: Praticamente Inofensiva

julho 06, 2007

Hannibal

Hannibal (estamos falando aqui do livro, não do filme) é meio bobo. Violento pra caramba, mas bobo. Talvez seja porque "O Silêncio dos Inocentes" é muito melhor, talvez seja só porque "Hannibal" não faz nenhum sentido no fim das contas.

No mínimo broxante o final de Clarice Starling, totalmente não condizente com seu status de "a policial caipira certinha que só age dentro da lei". Aliás, se não me engano, o final do filme é bem melhor que o do livro.

É um livro estilo O Código Da Vinci ou TV a cabo, leia sem esperar grande coisa e se divirta.

junho 30, 2007

Sobre cidades

Cidades não são pessoas. Mas, assim como pessoas, as cidades têm suas próprias personalidades: em alguns casos, uma cidade possui muitas personalidades diferentes - há uma dezena de Londres, uma multidão de diferentes de Nova Iorques. Uma cidade é uma coleção de vidas e construções, e ela tem identidade e personalidade. Cidades existem em sua localização, e no tempo.

Existem as cidades boas - aquelas que lhe recepcionam, que parecem se importar com você, que parecem felizes de que você esteja nela. Existem as cidades indiferentes - aquelas que honestamente não se importam se você está nelas ou não; cidades com suas próprias agendas, aquelas que ignoram as pessoas. Existem as cidades que foram pelo caminho errado, e existem lugares em cidades sadias que estão tão podres e cheias de vermes quanto uma maçã caída da macieira. Existem até cidades que parecem estar perdidas - algumas, sem um eixo central, sentem-se como se pudessem ser mais felizes em outro lugar, algum lugar menor, algum lugar mais fácil de compreender.

Algumas cidades se alastram como um câncer ou um monstro de gosma de algum filme B, devorando tudo em seu caminho, absorvendo municípios e vilas, engolindo povoados e aldeias, transmutando-se em uma conturbação sem fronteiras.

Outras cidades encolhem - áreas uma vez prósperas esvaziam e entram em falência: prédios são abandonados, janelas são seladas, as pessoas se mudam e, algumas vezes, nem elas sabem dizer por quê.

Ocasionalmente paro e penso como as cidades pareceriam, caso fossem pessoas. Manhattam é, em minha cabeça, de fala rápida, nada confiável, bem-vestida, mas com barba mal-feita. Londres é grande e confusa. Paris é elegante e atraente, mais velha do que parece. São Francisco é maluca, mas inofensiva e muito amigável.

É um jogo ridículo: cidades não são pessoas.

As cidades existem em sua localização, e no tempo. As cidades acumulam suas personalidades enquanto o tempo passa. Manhattam se lembra quando era apenas um descampado brega. Atenas se lembra dos dias onde havia aqueles que se consideravam atenienses. Existem cidades que se lembram de quando eram vilarejos. Outras cidades - no momento insossas, desprovidas de personalidade - estão preparadas à esperar até que tenham história. Poucas cidades são orgulhosas: elas sabem que é normalmente um feliz acidente, uma simples coincidência geográfica que elas sequer existam - um grande porto, uma passagem pelas montanhas, a confluência de dois rios.

Neste momento, as cidades ficam onde estão.

Pois agora, as cidades dormem.

Mas há rumores. As coisas mudam. E se, amanhã, as cidades acordassem e começassem a andar? Se Tóquio engolisse sua cidade? Se Viena viesse subindo a colina atrás de você? Se a cidade que você habita hoje simplesmente se erguesse e fosse embora, e você acordasse amanhã enrolado em um fino cobertor em uma planície vazia onde uma vez esteve Detroit, ou Sidnei, ou Moscou?

Nunca subestime uma cidade.

Afinal de contas, ela é maior que você; ela é mais velha; e ela aprendeu a esperar.

- Neil Gaiman

Eu gostaria de escrever como Neil Gaiman, acredito que não possa, não é apenas questão de talento, eu não sou ele e ponto final, assim como São Paulo não pode ser Nova Iorque, eu não posso ser Neil Gaiman. Mas gostaria, assim como São Paulo, na minha cabeça, quer ser Nova Iorque. Ainda que não possa igualá-lo, sempre quis escrever sobre o tema, pois desde que li esse texto, passo um bom bocado de tempo imaginando como seriam as cidades que conheço. É de fato um jogo estúpido, mas extremamente divertido.

Canoas, para quem não sabe, fica bem do ladinho de Porto Alegre, e é a cidade onde moro desde que nasci (ainda que não tenha nascido nela). No início da minha vida, quando ainda freqüentava as primeiras séries e tudo era novidade, gostava muito de Canoas. Casas com pequenas cercas, alguns terrenos vazios, paralelepípedo nas ruas. Era tranqüila e pacífica, com aquele ar de vizinhança estadunidense de Hollywood anos 80.

Talvez por que estivéssemos nos anos 80.

O caso é que eu cresci e aos poucos Canoas foi mudando aos meus olhos. Eu passei a vê-la como um sujeito mediano, totalmente mediano. E eu não sou nem um pouco atraído pela média. Não se destacava em particularmente nada. Era mais velho que eu, mas não era, como Paris, um velhote interessante, sagaz e falastrão, mas era apenas um desses velhotes desinteressantes que trabalharam uma vida inteira em um pequeno escritório de contabilidade e quando se aposentam vão jogar dominó ou bocha. Sem história ou conteúdo algum. Assim a adolescência foi dando lugar a vida adulta e cada vez mais me distanciei, mesmo morando nela. Canoas era esse sujeito que é seu vizinho, você acorda todo dia por perto, mas simplesmente ignora por não ter nada em comum.

Esse desinteresse com certeza nasceu e foi crescendo quando passei a conhecer Porto Alegre, definitivamente uma jovenzinha mucho loca, cabelos que mudam de cor de acordo com o humor e apenas um pouco mais velha que eu, transitando entre o mainstream e o underground da boemia, tomando porres homéricos à noite e chimarrão no parque à tarde. Porto Alegre é o tipo de pessoa cheia de coisas novas e experiências interessantes que te faz pensar “puxa, onde eu estive esse tempo todo?”

Por algum motivo, este sábado estive um pouco nostálgico, então decidi que era uma boa idéia revisitar este velho amigo, Canoas. Obviamente saí a pé, porque não se conhece uma cidade andando de carro. Só se pode verdadeiramente conhecer uma cidade andando por ela, a pé. Conhecer uma cidade de carro é mais ou menos como conhecer alguém em um bar barulhento, você pode até tentar, mas não consegue conhecer tão bem assim uma pessoa desta forma.

Decidi ir até o parque que fica há 4 quadras da minha casa. Acredite ou não, fazia mais ou menos 10 anos que não ia até lá, mesmo ficando ridiculamente perto de casa. Isto se deve ao fato de eu realmente ter cortado relações com Canoas. Porém, agora que também estou trabalhando nesta cidade, diretamente da minha casa, não posso evitá-la mais. Fui. O caminho cortado pelo vento frio do inverno e o sol gostoso que se apresentava foi extremamente agradável. A cidade definitivamente não era mais a mesma. Ambos crescemos e mudamos. Havia mais prédios, a maioria bastante novos e bem conservados, as casas estavam ligeiramente maiores e pintadas com cores mais vivas. Este sujeito estava se vestindo muito melhor, é isso que posso dizer.
Por outro lado, as cercas também estavam maiores, muitas com eletricidade. Todo mundo tinha mudado, ficado mais fechado, mais violento, Canoas acompanhou a mudança.

Chegando no parque, não me lembrava que era tão grande, nem que era bastante bonito. Dei umas duas voltas pela grande pista principal que circunda um lago e tem a volta uma vegetação bastante agradável. O sol continuava me aquecendo e aquilo era ótimo. O parque era um lugar extremamente calmo, apesar de haver outras pessoas se exercitando como eu. Todos vestiam seus abrigos esportivos, eu era o único de calça jeans. Mas isso não me importava, eu me sentia a vontade. Canoas era um amigo de velha data, você não sente vergonha do que está vestindo em frente de um amigo verdadeiro, posso receber meus amigos na sala vestindo um pijama, quem se importa?

Esta reconciliação, que me fez pensar em uma série de coisas, pessoas, momentos e histórias de diversas fases da minha vida foi bastante importante. Acho que me reconciliei com a cidade. Talvez jamais seja meu melhor amigo, mas é definitivamente alguém que tenho algum apreço. Se não por ser louca e interessante como Porto Alegre, por ser acolhedora e saber ouvir. Canoas, para mim, continua usando óculos, é um pouco plano e simplório, mas definitivamente um bom amigo. Um amigo que cresci junto e que sei que em breve me separarei, mas sempre um amigo.

Cidades não são pessoas, mas bem que poderiam ser.

maio 12, 2007

Pequeno EXCERTO da página 200 d´O Restaurante no Fim do Universo (Douglas Adams):

"- Foi o que eu sempre pensei sobre aquela história do Jardim do Éden - disse Ford.
- O quê?
- O Jardim do Éden. A árvore. A maçã. Essa parte, lembra?
- Lembro, claro que eu lembro.
- O tal de Deus põe uma macieira no meio de um jardim e diz ´vocês dois podem fazer o que vocês quiserem, mas não comam essa maçã´. Obviamente eles comem a maçã, então Deus pula de trás de uma moita gritando: ´Peguei vocês, peguei vocês!´ Não faria a menor diferença se eles não tivessem comido a maçã.
- Por que não?
- Olha, quando você está lidando com alguém que tem esse tipo de mentalidade - mais ou menos a mesma das pessoas que deixam um chapéu na calçada com um tijolo embaixo para os outros chutarem -, pode ter certeza de que ele não vai desistir. Ele vai acabar te pegando.

abril 26, 2007

5 livros

O carinha do Cabala 1001 Gatos de Schrödinger abriu o convite para fazer uma listinha com os 5 livros essenciais para mim. Como ele mesmo disse, listas são sempre limitadas e invariavelmente deixamos algo de fora, mas são irresistíveis de fazer. Ele mesmo fez a dele. Na real mesmo a minha lista nem são os únicos livros essenciais pra mim, mas são quase como “must reads” para entender de onde diabos eu venho, para onde vou e do que me alimento. Eu sei que a lista que apresento não é nem um pouco erudita, e com razão, eu não sou nem um pouco. Sou baita consumidor raso. Eis a minha (clique na imagem para comprar na Livraria Cultura):

Os Irmãos Karamazov - Fiodor Dostoievski


Depois de ler Crime e Castigo eu tinha ficado com uma impressão ruim de Dostoievski. Depois de ler os Irmãos Karamazov fiquei maravilhado. É impressionante como esse tiozão barbudo e bebedor de vodca consegue entrar dentro da cabeça das pessoas. Os personagens são maravilhosos, muitas coisas eu descobri sobre mim lendo este livro (mas absolutamente nunca tive nada a ver com parricídio). Eu recomendo o dramalhão russo, mas é pesadinho (provavelmente o único da lista).

Belas Maldições - Neil Gaiman & Terry Pratchett


Assim como na Cabala 1001, cito Belas Maldições para homenagear com um título apenas dois grandes: Neil Gaiman e Terry Partchett, ainda que este livro não seja o que eu mais gostei dos dois autores. Neil Gaiman é simplesmente a mente mais criativa de todos os tempos, ele escreve fantasia como ninguém. Terry Pratchett é o mais sádico e sarcástico escritor de humor, além de ter uma criatividade estupenda no setor fantástico. Esses dois caras juntos mataram a pau com um Apocalipse muito diferente e engraçado (releituras bíblicas? Só agora me dei conta de onde saiu essa história de “Bíblia Anos 2000”).

As Brumas de Avalon - Marion Zimmer Bradley


As Brumas de Avalon foi uma das primeiras coisas (boas) de literaturua fantástica que me caiu nas mãos, por isso esta aqui. Este livro narra uma das versões da lenda de Arthur, porém do ponto de vista das mulheres - que na idade média não tinham lá grandes liberdades. Bruxaria da grossa, fantasia da boa. Graças a ele eu também cheguei em O Senhor dos Anéis, então é merecido estar aqui.

A Revolução dos Bichos - George Orwell


Esse vai em homenagem ao “estilo”: A Revolução dos Bichos, Admirável Mundo Novo, Laranja Mecânica (posso citar “1984” mesmo não tendo lido ainda?)... A Revolução dos Bichos é uma fábula de como são as coisas na vida real (agora você sabe de onde vem essa história de “fábulas modernas”), crítica profunda ao modelo comunista e, claro, a toda sociedade. Provavelmente tu já ouviu “todos são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”. Pois é, vem deste livro.

Hollywood - Bukowski


Não podia faltar na minha lista. Nem me influencia mais tanto assim, mas comecei pesado pelo velho safado, além de já homenagear junto Fante. Esse não foi o primeiro que li, mas foi o que me fez me apaixonar total pelo jeito Bukowski de escrever. Nesse livro (que não é de contos, é uma história apenas) Henry Chinaski (o melhor alterego do Buk) vive lá vida louca para escrever um roteiro para o bizarro mundo hollywoodiano. Crasse A para os chinelos. Mas o melhor livro que eu li dele é o Misto Quente, também protagonizado por Chinaski.

Tá, eu vi que citei uns 52 livros nas entrelinhas e trapaceei na lista. Mas se eu estou me divertindo, quem se importa?

abril 14, 2007

Maus

O pai de Art Spiegelman, Vladek, foi um judeu polonês que sobreviveu à II Guerra, o famoso e cruel campo de Auschwitz incluso no pacote. Desde quando apenas eram sentidos sinais da guerra que viria até o fim dela, Art narra em Maus a história contada por seu próprio pai em mais de 20 horas de gravação que ele transformou em quadrinhos. Você provavelmente já viu bastante sobre o holocausto por aí para torcer o nariz, além de certamente já ter visto o bastante de quadrinhos para não levar a sério. Mas não se engane, você não viu nada disso.

Art retrata os judeus como ratos ("maus" em alemão), alemães como gatos, judeus como porcos, estadunidenses como cães, além de mostrar também suecos (alces), franceses (sapos), ciganos (mariposas?) e suíços (linces). Pode soar meio Orwell, e de fato soa, mas o caso é que Maus é um relato impressionante do horror que foi a 2a guerra para os judeus. Em uma passagem do livro, enquanto o próprio autor conversa com seu psicólogo, ele finalmente entende que seu pai não era um vencedor por ter vivido, pois aqueles que morreram não eram perdedores. Era aleatório, e isso era o mais aterrador. Qualquer um podia ter morrido, qualquer um podia ter sobrevivido - o único problema é que as chances de morrer eram catastroficamente superiores as de viver.

Outra coisa interessante é que o livro narra com uma quantidade riquíssima de detalhes, possível só utilizando como relato a memória de quem esteve lá, até o funcionamento dos campos de concentração, os subornos, quantos cigarros valiam um pão (3) ou uma garrafa de vodca (200), o mapa político durante a guerra, onde ficavam as cidades, como era a distribuição dos uniformes de prisioneiro, como era a escolha de quem vivia e quem morria, como escapara da morte por absoluta sorte algumas vezes e como chegara perigosamente perto também, enfim, narra o absurdo do holocausto em detalhes, sem perder o ritmo em nenhum momento.

Não me recordo de ter chorado lendo nenhum livro. Com Maus duas ou três vezes senti uma lágrima correndo. Não era o caso de chorar apenas pelo sofrimento daquelas pessoas, impossível de compreender mesmo com um relato tão próximo quanto do pai do autor, mas sim chorar de vergonha de que algum dia alguém tinha feito aquilo com outras pessoas. Certamente eu e tu poderíamos estar de um lado ou de outro, e isso é o mais assustador - o quão desumano pode-se chegar. E isso faz pouco mais de 60 anos.

Mas nem tudo são lágrimas, há momentos que chegam a ser cômicos, mesmo que um pouco trágicos, quando Art retrata a relação que tinha com seu pai, de como ele ia contando as histórias, da mesquinhez com o dinheiro e da cabeça-dura que todos temos como estereótipo do típico judeu de Nova Iorque.

Vale muito a pena. Eu recomendo que você leia agora mesmo. Compre Maus aqui.

Caso minha opinião não valha nada, saiba ao menos isso: foi o primeiro e único quadrinho a ganhar um Prêmio Pulitzer (deram o prêmio especial, porque não sabiam se enquadravam como ficção ou biografia).

abril 11, 2007

A Guerra Suja

A Guerra Suja conta a história de Walter Mosca, um estado-unidense que participou da segunda guerra mundial. Não se engane, esse não é um livro sobre a guerra, mas sim sobre algumas das conseqüências dela. O período retratado no livro já é quando o governo de ocupação dos States está com a Alemanha dominada, Hitler já foi pra banha e o exército da Águia Americana vive com boas regalias numa Alemanha devastada, não só fisicamente como espiritualmente. Uma relação entre vencedores e vencidos. Quem era do exército dos EUA conseguia comida, Coca-Cola, chocolate, remédios, essas coisas, quem não estava no exército, alemães e demais sujeitos perdidos na Alemanha, estavam ferrados.

Óbvio que as coisas não são mil maravilhas nem para o pessoal dos Estados Unidos. A maioria vivia, clandestinamente, com uma mulher alemã, tinha até filhos e tudo mais. Tudo tinha seu preço em cigarros e o mercado negro era o que mais bombava. Walter não era exceção e, mesmo depois de uma breve volta aos States para rever sua noiva e família, joga tudo pro alto e volta pra Alemanha - aquela mulher que o esperava não era mais sua noiva, nem sua mãe era sua mãe, nem seu irmão, mutilado de guerra, era seu irmão. Não é que eles haviam mudado. De maneira nenhuma. Na verdade quem mudara era ele. Walter Mosca não era mais aquele menino que partiu vestindo o uniforme de soldado. Ele reencontra a alemã que foi sua amante durante o período e passam a morar juntos. A partir daí, você vai ter que ler por conta.

Não é um típico Mario Puzo. “A Guerra Suja” é o primeiro livro do Puzo, por isso temos de convir que ainda é bastante diferente do que ele escreveu, principalmente se formos considerar O Poderoso Chefão. Não estou dizendo de nenhuma forma que é ruim, já podemos enxergar aí algumas características clássicas do Puzo: lidar com personagens que muitas vezes agem à margem da sociedade, alguma jogatina (principalmente dados), o zelo com a família e a relação entre pessoas de diferentes países. Mas não é o típico Mario Puzo. Ainda que o livro esteja esgotado em português, pode ser encontrado em inglês. Eu recomendo se você é fã de Puzo, se não, vá procurar outros livros dele e depois volte aqui só pra se divertir.

Compre A Guerra Suja (inglês)
Compre O Poderoso Chefão

março 30, 2007

Histórias Extraordinárias

Essa coletânea de contos do Edgar Allan Poe é bem interessante, ainda que bastante caótica. Dá pra ver um movimento muito claro do início dos contos, onde claramente o terror e o sobrenatural dominam e a parte do meio pro fim, onde ele distribui uma tonelada de cientologia dos anos mil-oitocentos-e-sabe-se-lá. Se não todos os contos, pelo menos a maioria são narrados em primeira pessoa, de modo que geralmente há duplas na ação do texto.

Na primeira parte, nos contos de terror, geralmente há o narrador (pelo que me lembro nunca o próprio Poe declaradamente) e um sujeito geralmente perturbado por alguma enfermidade mental, excitação cerebral e uma pá de eufemismos para “veadinho cheio de manias extravagantes que pode ou não ser totalmente pirado”. Nos contos de terror, Poe não faz muita questão de explicar nada e deixa tudo nas mãos do sobrenatural.

Já na segunda parte, onde ele vira um nerd dos dados científicos de antigamente, impera a lógica e a dedução. Realmente, Poe foi o precursor total do Sherlock Holmer, inclusive no formato “narrador que é ajudante do detetive” e “detetive ultralógico que desvenda a cor do sapato de alguém olhando para as estrelas”. Segundo entendi, uma das histórias é inclusive meio real, onde o sujeito desvendou o crime só olhando as matérias dos jornais. Sabe-se lá.

Aí um desdobramento da segunda parte é praticamente ficção científica, com toda restrição orçamentária e tecnológica dos anos mil-e-oitocentos-e-sabe-se-lá-quando, tipo um sujeito que alega ter viajado até a Lua em um balão, um robô que joga xadrez e essa coisa toda. Essa parte é sem dúvida a mais chata do livro, já que são explicações e mais explicações lógicas de como isso poderia ou não poderia existir. Quer dizer, na época de Poe, era realmente muito útil um nerd maluco que sabia usar a cabeça para desmascarar um tapado que dizia ter ido à Lua com um balão ou um outro espertalhão que colocava um sujeito dentro do seu “robô de jogar xadrez”, mas ler isso nos dias de hoje é como ouvir um cientista falando sobre uma teoria cheia de embasamentos e cálculos: um saco.

No overall, o Histórias Extraordinárias é bem legal, mas agora preciso pegar um livro contemporâneo pra contrabalançar.

Se estiver nas pilhas de comprar, aqui é bem baratinho (uns 10 pilinhas)

março 15, 2007

So you wanna be a player?

Andava por onde escritores costumam andar, não por presunção, mas porque gostaria de encontrar algum. Foi aí que deu de cara com um sujeito de robe segurando uma xícara de chá. Quando nos chocamos, quase deixou cair o chá, mas felizmente conseguiu conter o vasilhame.

- Eu não te conheço. - me disse ele.
- Claro que não, sou um desconhecido.
- Ah, então? O que é que você quer aqui? - disse arrumando os óculos com o indicador, já que estes caiam para a ponta do nariz.
- Eu quero saber qual o segredo para escrever.
- Ah, sempre isso. Malditos jovenzinhos com seus processadores de texto...
- Ei, você não está sendo muito legal.
- Não, eu sei, é o meu papel. Você saberia que é um escritor se fosse mal humorado com algumas pessoas aleatoriamente, enquanto com outras fosse um sujeito legal. Mas seria realmente um grande escritor se fosse mal humorado às vezes e bem humorado às vezes, com as mesmas pessoas. Seria um gênio da literatura se fosse absurdamente grosseiro e totalmente galanteador na mesma conversa, com a mesma pessoa, num espaço de poucos minutos.
- Esse é o segredo então?
- Não, o segredo é outro.
- E qual o segredo para escrever bem?
- Beber.
- Beber?
- É, beber.
- Chá? - perguntei-lhe, já que ele mesmo segurava uma xícara fumegante.
- Não.
- Café?
- Não.
- Cerveja?
- Não.
- Beber o que então, pô?
- De todas as fontes.

E continuou seu caminho para onde quer que os escritores vão de robe e chinelos.

fevereiro 25, 2007

O Segundo Círculo do Poder

Não sei o quanto tu conhece do que Carlos Castaneda escreveu, mas muito provavelmente deve orbitar entre fumetagem da braba e indiaria shamanística. Bom, pode até ter um quê de verdade nisso, mas não é nem de perto como eu vejo a obra de Castaneda. Dizer que os vários livros que ele escreveu sobre sua experiência com o feiticeiro Dom Juan é sobre “plantas do poder” (entenda aí por "alucinógenas") é mais ou menos como dizer que Clube da Luta é um filme sobre caras que lutam entre si.

No Segundo Círculo do Poder, se não me engano o 5o livro da série que começou com “Os Ensinamentos de Dom Juan” (traduzido aqui no Brasil, provavelmente por um maconheiro das letras, como “A Erva do Diabo”), continua a tendência de deixar as plantas do poder totalmente de lado e entrar numa viagem muito mais mística. Ainda que o peiote seja mencionado, é apenas no passado, para contextualizar o leitor, agora Castaneda está muito mais próximo de conseguir controlar sua 2a atenção, de modo que não precisa mais das plantas. Este é o primeiro livro depois que Castaneda completou seu treinamento com Dom Juan Matus, pulando do abismo do tonal para o nagual.

A mim parece que a cada livro ele evolui, não como escritor, mas sim como guerreiro, por isso pode haver coisas contraditórias ou percebidas de maneiras diversas a medida que foi escrevendo suas experiências. Portanto, nos dois primeiros livros parecia ser sobre o uso do viagem de peiote, depois sobre os aliados e agora sobre como ser um guerreiro impecável para ver no lugar de apenas olhar. Parece sensato, nem Castaneda sabia o caminho que estava trilhando, por isso a confusão. Castaneda estava deixando de ser o estúpido pesquisador racional e começando a entender de verdade as coisas, não colocando-as em sistemas de regras próprias do tonal (o mundo ordinário), mas sim da maneira do nagual (o mundo não-ordinário).

Alguns consideram essa série como 100% fábula, outros como um relato de alguém que realmente estava trilhando o caminho do guerreiro para tornar-se impecável, se é lá ou cá, não posso saber, assim como ninguém sabe ao certo onde nasceu Castaneda, cujos registros apontam para o Peru, enquanto ele mesmo falou que foi no Brasil. Nem mesmo há um consenso sobre o nome dele, que podia ser tanto Castañeda, como Castaneda ou nada disso, já que ele mesmo disse que havia inventado o nome. Acredito que estas coisas sejam indícios de que ele realmente estava tentando apagar sua história pessoal, portato tendo passado pelo que descreveu nos livros, inserindo obviamente momentos de ficção para tornar a narrativa mais interessante, trocando nomes, fundindo diversas pessoas em um único personagem, etc, mas em suma, acredito mesmo que o sujeito passou pela experiência de se tornar um guerreiro, procurando perder sua forma humana para tornar-se apenas nagual.

Eu gosto dos livros dele, mas também não preciso levá-los ao pé da letra (ainda que, no passado, confesso ter sido bem sucedido na experiência de olhar para as mãos no sonho e controlá-lo). Recomendo, mas só se você não tiver muitos julgamentos a fazer. Sobre certas coisas, não adianta “racionalizar”, elas não têm explicação, apenas “são”, como parece que Castaneda finalmente descobriu ao final d’O Segundo Círculo do Poder.

fevereiro 18, 2007

Os Filhos de Anansi

“Esta história começa, assim como a maioria das coisas, com uma música.

Afinal de contas, no começo havia as palavras, e elas vinham acompanhadas de uma melodia. Foi assim que o mundo foi feito, que o vazio foi dividido e que a aterra, as estrelas, os sonhos, os pequenos deuses e os animais vieram ao mundo.

Eles foram cantados.

Os grandes animais foram cantados para a existência depois que o Cantor já havia criado os planetas, as colinas, as árvores, os oceanos e os pequenos animais. Os penhascos que cercam a existência foram cantados, assim como o campo de caça e a escuridão.

As canções permanecem. Elas perduram. A canção certa pode fazer um imperador tornar-se motivo de chacota, pode arruinar toda uma dinastia. Uma canção pode permanecer depois de os acontecimentos e pessoas nela descritos terem se transformado em pó, em sonhos e morrido. Esse é o seu poder.

Há outras coisas que podemos fazer com as músicas. Elas não apenas criam mundos ou recriam a existência. O pai de Fat Charlie Nancy, por exemplo, utilizou-as apenas para ter aquilo que esperava ser uma noitada maravilhosa”.


Assim começa a história de “Os Filhos de Anansi”, escrito por Neil Gaiman. O livro conta a história de Charles Nancy, conhecido por todo mundo como Fat Charlie (ainda que nem fosse gordo), um contador que leva uma vida monótona em Londres com sua noiva que deseja casar virgem. Fat Charlie, como todo mundo, não se dava lá muito bem com seu pai, quer dizer, o velho vivia pregando peças e o fazendo ficar embaraçado sempre que podia. Pra começo de conversa, ele é que havia apelidado Charles de “Fat Charlie”.

E como todos os nomes que seu pai dava, ele pegava profundamente. Por mais que tentasse se livrar daquilo, “Fat Charlie” de uma forma ou de outra se infiltrava no seu círculo de amizades e grudava nele. Acontece que isso acontecia porque o pai de Fat Charlie era o sr. Nancy - ou o deus africano da trapaça, Anansi, a aranha.

Mas Fat Charlie não sabia disso, ele descobre - ou melhor, começa a descobrir, já que no início como qualquer pessoa sensata não levou aquilo a sério - no funeral de seu pai. E esta não é a única informação nova que tem sobre a família, Fat Charlie também descobre que tem um irmão chamado Spider, que pra piorar o assunto foi quem herdou os poderes de deus do pai. Não demora muito pra Spider se infiltrar na vida de Charles, roubar a noiva, metê-lo em problemas com a polícia e acabar desencadeando uma série de eventos e interações perigosas com outros deuses.

Os Filhos de Anansi é uma história fantástica como muitas que estamos acostumados a esperar de Neil Gaiman, que é disparado o sujeito que mais invejo e que desejaria muito ter sua imaginação e poder de escrita. Os Filhos de Anansi é uma leitura leve, série e, sem querer parecer contraditório, muito engraçada - britanicamente engraçada, diga-se de passagem. Não li o livro que precede esse, Deuses Americanos, onde Anansi tem uma pequena participação, mas desde já é um must read pra mim.

Quando terminei de ler o livro, um sentimento de otimismo me inundou. Quer dizer, tudo está contido na atitude que temos perante a vida. Você pode ser um deus ou um fracassado, pode ser um ganhador ou perdedor, pode ser um mago ou um idiota, apenas mudando sua atitude. De certa forma isso é um pouco do princípio de magia do caos - se você realmente acredita que fazendo determinada coisa conseguirá determinado efeito, você consegue de fato. Isso é quebrar paradigma. Alguns paradigmas são mais fáceis de quebrar que outros, mas todos podem ser subvertidos. Se todos acreditassem piamente que as coisas caíssem para cima, acredite, elas cairiam. Você acredita que cientistas podem descobrir a cura da AIDS, então eles podem. Mas garanto que tu nunca pensou o quão MÁGICO podem ser sujeitos cheio de cálculos malucos, substâncias improváveis e equipamentos extravagantes tentando descobrir “cientificamente” a cura da AIDS. Ciência é um tipo de magia muito estruturada e cheia de regras - é apenas um paradigma - não que esse paradigma seja verdadeiro no meio da Amazônia onde um pajé malucão te fura a pele para passar baba de sapo para curar igualmente.

Marketing também é magia. O que é um tênis Nike ou uma bolsa Louis Vuitton se não objetos de poder que conferem ao portador certas características, como status, parecer mais cool, etc? O que poderia haver num pedaço de pano em forma de tênis ou bolsa que concederia atitude a alguém? Magia, só pode ser magia.

O mundo é mágico, e sujeitos como Neil Gaiman fazem nossa imaginação fazer parte dessa magia, entrando nesse mundo colorido e fantástico onde deuses, animais e humanos conversam calmamente enquanto arrumam seus chapéus panamá sobre a cabeça.

Simplesmente incrível.

Aliás, se tu quer ser mágico também, dê-me de presente isso.

Compare preços: Os Filhos de Anansi