março 20, 2013

Aposta Alta


No jogo ou no amor, às vezes é preciso perder para ganhar.

Passei as costas da mão na testa pra enxugar o suor. Como fazia calor naquela sala. Ou seria nervosismo? Os dois, concluí. Olhei para os outros três jogadores, tentando controlar a respiração. Controlar a respiração era útil para não dar na cara que eu estava nervoso e também porque o cheiro de enxofre era de doer. Peguei um punhado de fichas na mão e comecei a contar.

Chamávamos está modalidade de pôquer de inferno-mega-hold’em, uma variante bizarra de texas hold’em. Ao invés de duas cartas na mão e 5 na mesa, começávamos com 5 cartas na mão, 2 na manga (que só poderíamos usar se ninguém notasse quando trocássemos as cartas) e as tradicionais 5 cartas na mesa.

Todas as cartas já estavam na mesa. Ao fundo tocava uma dessas versões clássicas de “Can’t Take  My Eyes Off You”. Eu estava confiante, mas aqui não dava pra facilitar. Parece que nesse baralho tinha uns 15 ases, nenhum deles comigo.

- Vai jogar ou não vai? - Disse Kim Jong-un antes de tomar mais um gole do seu suco de tomate bem vermelho. Quer dizer, acho que era tomate.

Pastor Marco Feliciano, que usava um terno com um crucifixo para o lado de fora da camisa, aproveitou a distração causada pelo norte-coreano que estava ao meu lado esquerdo e a sua frente e esticou a mão pra pegar algumas fichas de Lúcifer. O diabo bateu na mão do pastor Feliciano sem tirar os olhos dos meus olhos, mesmo eu estando de óculos escuros. Lúcifer parecia calmo. Fumava um charuto pela metade no canto da boca e soltava a fumaça pelo nariz.

Jogar pôquer no inferno tinha sido uma péssima decisão, eu sabia, mas agora era tarde.

“All-in”, eu disse empurrando todas as fichas para o meio da mesa.

Kim Jong-un saiu. Lúcifer sorriu e disse “pago e aumento 1 milhão”. Marco Feliciano já estava fora - o desgraçado jogava com as cartas mais perto do peito do que uma mãe amamentando um bebê faminto.

Olhei para o diabo: - Como assim aumenta? Já coloquei tudo que eu tenho.

- Isso é verdade, ô Lúcifer. Nem a minha igreja consegue tirar o que as pessoas não têm. – Disse o pastor.

- Pois vocês ainda tem muito o que aprender, caro pastor. - Lúcifer disse tirando o charuto da boca. - Meu caro amigo, que tal se eu lhe emprestar a quantia pra apostar?

Minha cabeça quase que fisicamente vibrou, era a isca perfeita, agora só uma pitada de ganância. - Não, eu nunca iria conseguir te pagar 1 milhão se eu perdesse. E ninguém gosta de dever favores pro diabo ou pra máfia.

Lúcifer coçou o queixo, pareceu cheirar algo estranho no ar, maldito suor, enxuguei a testa de novo. Ele disse: - Ok, sem problemas, se você perder, sua alma é minha.

Eu fingi pensar e disse: - Hmmmm, um preço meio alto a pagar pela minha alma. Você tem certeza, Lúcifer? Eu achei que você preferia ser como Deus...

Ele estreitou os olhos e eu continuei: - ...você não quer ser como Deus? Com a minha alma você só confirma ser o diabo, mas... por que você não quer ser como Deus?

- Do que você está falando, muleque? - Disse o tinhoso. O norte-coreano e o pastor se afastaram um pouquinho da mesa de forma discreta.

- Deus não quer almas, quer devoção, adoração, amor verdadeiro por Ele. O amigo Feliciano aqui pode confirmar.

Lúcifer olhou para o pastor que deu de ombros. Antes que ele pudesse pensar direito no assunto, eu continuei falando: - Vamos fazer assim, você me dá 2 milhões se eu ganhar, fora o que está na mesa, mas se eu perder, eu te dou meu coração, meu amor, hm? Você vai ter o mesmo que Deus.

- Aceito a possibilidade de ser amado como teu deus. Boa ideia! - Lúcifer cuspiu na própria mão e me faz apertá-la para selar o pacto.

Botei minhas cartas na mesa. Lúcifer riu e colocou suas cartas na mesa. O meu jogo era bom, mas o dele era melhor. Às vezes perder faz parte do jogo.

- Aqui está, meu coração, tome.

- Ei! Que merda é essa? Este coração está quebrado!

Eu sorri e fui embora. Imagino que o diabo literalmente estava soltando fumaça pelas ventas quando ele entendeu o que eu fiz.

Quando estava saindo do inferno, fechei a porta atrás de mim com um sonoro estrondo e quando me virei, dei de cara com alguém. Era uma menina que usava óculos de nerd, os livros que ela carregava caíram no chão com o nosso impacto. “Este foi meu acidente mais feliz”, eu disse pra ela enquanto a ajudava a recolher os livros. Ela sorriu, agradeceu a ajuda com os livros e em troca me ajudou me dando parte do coração dela.

No jogo ou no amor, às vezes é preciso perder para ganhar. Graças a deus o diabo não entende nada do amor.

fevereiro 27, 2013

The Walking Dead


Este é Rui.

Rui é um dos mortos-vivos.

Rui está perto dos 50 anos. Aqui no trabalho os outros mortos-vivos não gostam do Rui. Bom, aqui no trabalho ninguém gosta de ninguém, mas o Rui é um caso especial. A única coisa que as pessoas do escritório gostam menos do que o Rui, é o trabalho em si.

Ninguém gosta do Rui porque ele é dedicado. Porém, dedicado do jeito errado. Faz quase 30 anos que o Rui busca ser promovido. Ele é o tipo de cara ambicioso, que apunhala os outros pelas costas e reclama pro chefe quando ninguém o ajuda. O chefe não se importa com o Rui. Bom, ninguém se importa com o Rui.

Por incontáveis vezes funcionários mais novos foram promovidos na frente dele. O Rui não entendeu a mensagem. Ele continua trabalhando duro, umas doze horas por dia. Finais de semana inclusos. Sem contar às 2h de ida e 2h de volta da sua casa ao escritório. Tudo porque o chefe continua dizendo que ele deve se dedicar mais, que só assim será promovido. O Rui é o mais experiente de todo o departamento, porém a impressão que eu tenho é que ele seria o primeiro a esfregar o urinol com a língua se o chefe mandasse. O Rui tem um medo danado de ser demitido, de nunca mais arranjar um emprego por achar que não é útil pra nada. O chefe sabe disso, todo mundo sabe disso, e se aproveita. É fácil chutar um homem que está no chão.

O Rui mal vê a casa no longínquo subúrbio que ele tanto trabalha pra pagar, tão pouco a mulher e os filhos. A mulher do Rui é dona de casa e está no 3º amante. Os amantes são sempre mais novos e sugam o dinheiro que o Rui dá pra ela. Rui dá quase todo o dinheiro para a mulher, já que não tem tempo de gastar o que ganha.

Rui chora com frequência no banheiro. Ele olha para trás e lembra como o mundo era quando tinha seus dezoito, vinte anos. Um mundo cheio de oportunidades. Lá pelos 25, algumas das escolhas que ele fez começaram a mostrar resultados que ele não esperava ou queria. Aos 28 portas começaram a se fechar baseado nas coisas que ele fez ou deixou de fazer. Depois dos 30 ele sentia-se sem opções. Tivera a grande chance: nasceu em uma família de classe média, formou-se na faculdade, não se drogou. Mas ele jogou fora suas chances. Agora estava preso no subúrbio, com uma mulher a quem não amava, filhos com quem não se comunicava e um trabalho que havia lhe sugado quase toda sua alma. Rui priorizou as coisas erradas. Hoje ele não tem nenhum amigo. Rui estava perdido.

É difícil imaginar Rui no passado, quando ele achava que seria feliz. Como será que Rui era quando estava apaixonado? E quando se casou? Como ele era quando se formou na faculdade? É difícil imaginar Rui sendo feliz. Porém, para acentuar sua dor, Rui lembrava de uma vez em que fora feliz como nunca.

A única parte da sua alma que ainda restara, ninguém sabia, era um amor do passado. Ela e Rui amaram-se intensamente. Ela era artista, pintora. Rui escrevia. Juntos, os dois se divertiam e amaram como poucos. Passavam de bar em bar até chegar em casa, quando transavam enfurecidamente tirando o menor número possível de roupas. Ela então deitava a cabeça no peito dele. Rui a abraçava forte. Conversavam às vezes, às vezes ficavam se admirando em silêncio. Até o tesão bater novamente.

Ele gostava de olhar ela pintando. Ela gostava de ler o que ele escrevia. Ela era artista e isso o fascinava. Sua arte, ela fazia muitas vezes na rua. Pintava muros à luz dos postes, olhando por cima do ombro para ver se a polícia não vinha. Era excitante! E as pinturas dela eram tão diferentes do que os outros grafiteiros faziam. Ela tinha um estilo tão peculiar que qualquer pessoa que visse uma das suas obras, identificaria o pintor de todas as outras.

Rui tinha um jogo secreto, quando estava andando pela rua, ele gostava de prestar muito atenção aos muros e paredes da cidade. Cada vez que ele encontrava uma das pinturas da sua antiga amada, ele sorria. Então ele começa a chorar. Por que eles não ficaram juntos? Ele não lembrava mais, mas sabia que nunca perdoaria a si mesmo por deixá-la escapar por entre os dedos. Caminhando pela cidade, ele encontrou um novo desenho dela. Era o rosto de uma mulher (ela mesma, todas as mulheres que ela pintava eram autorretratos). O desenho estava solitário bem no centro da cidade, olhando para a avenida cheia de carros e o trem que passavam por ali. Rui sorriu e, como de costume, chorou. Era tarde demais. Havia perdido a artista, a mulher que lhe acendeu a alma. Era tarde demais. Precisava ir pra casa.

Foi então que ele viu um outdoor que dizia “Nunca é tarde para mudar...”

Rui ficou excitado. Ele comprou o carro anunciado no outdoor, que na verdade dizia “Nunca é tarde para mudar de carro. Parcelas fixas a partir de R$ 489,00 sem entrada.” Com o carro, ele aumentou o tempo que levava para chegar ao trabalho por conta do engarrafamento. Mesmo motorizado, ele continuava procurando pelas pinturas da sua amada. Até que um dia bateu o carro por estar olhando para os muros e não para a rua. Rui morreu ali mesmo, feliz que aquilo tinha finalmente acabado.

fevereiro 25, 2013

Sobre a vida

Em que meu filho pergunta sobre a vida e eu me viro para explicar.

Meu filho e eu estávamos tomando uma daquelas gororobas de cores berrantes, geladas e açucaradas que se encontram em postos de gasolina de beira de estrada e certos parques de diversão. Sofia, minha esposa, abastecia o carro. Era um daqueles postos onde self-service (porque autosserviço parece o trabalho feito em uma oficina mecânica) era a regra. A nossa volta, além do posto e da loja de conveniência, não havia nada além da autoestrada, terra vermelha e um que outro arbusto seco. O céu estava avermelhado por conta do sol chegando ao horizonte. Um caminhão solitário estava parado embaixo da única árvore do posto.

Entre um gole e outro da gororoba colorida, eis que meu filho me perguntou: - Pai, quem inventou a vida?

Sorri. Crianças... sempre com as perguntas certas. – Filho, eu não sei quem inventou a vida. Uns dizem que foi deus, outros que foi ala, outros dizem que não sabem, outros ainda dizem que foi uma reação química. Tem até quem diga que fomos trazidos por habitantes de outros planetas.
- Como pode ser tantas respostas diferentes?
- Filho, não é porque alguém diz que sabe algo que aquilo é verdade.
- Então eles mentem que sabem?
- Não, não, pelo contrário. Eles acreditam que sabem. Mas ninguém tem realmente certeza. E você devia desconfiar de quem tem muita certeza.

Ele pareceu refletir sobre o assunto, mas não se deu por vencido: - Se ninguém sabe mesmo, então pra que serve a vida?

Agora foi a minha vez de pensar. – Sabe filho, a vida é como esta estrada aqui. A gente pode parar para abastecer ou tomar uma gororoba destas...
- Slurpies. - interrompeu ele.
- O quê?
- Slurpies é o nome do que estamos tomando.
- ...certo, podemos parar para abastecer, beber... slurpies... checar os pneus, trocar o óleo, porém não se pode ficar parado o tempo todo.
- Por que não?
- Ora, você quer viver aqui neste posto de gasolina?

Ele balançou a cabeça em negação.

- Pois então. Na vida, a gente tem que continuar pra frente. Também é preciso saber para onde você vai. Porém, mesmo sabendo qual é o seu destino e o caminho pra chegar lá, é importante que se aproveite a viagem.
- Eu estou cansado de viajar.
- Por isso paramos para tomar esta goror... slurpie.

Ele assentiu entre um gole e outro.

- É importante aproveitar a viagem, olhar bem à volta o que pode haver de interessante, porque às vezes quando chegamos ao destino, ele já nem é tão interessante quanto você pensou que fosse. No fim, o destino é só uma desculpa para a viagem. A vida é uma estrada. E a estrada é a vida.

Ele pareceu confuso.

- O que eu quero dizer é que você deve aproveitar o momento, mas sempre andar para frente. É necessário parar para abastecer, mas você não pode ficar parado o tempo todo. Nem por muito tempo.
- Mas você não respondeu pra que serve a vida.

Garoto esperto.

- Pois a vida serve pra isso. - abri os braços sinalizando a nossa volta - para viver. Aproveite a viagem, pois a viagem é o objetivo da vida.
- Hmmmm. E quem não viaja não vive? Zumbis viajam em hordas de zumbis e são mortos-vivos.
Eu tive que rir. - Viagem é modo de dizer. Você não precisa viajar para viver, mas você tem que viver a sua vida como se fosse uma viagem. Você deve avançar e evoluir, não deve ficar muito tempo parado no mesmo lugar e, acima de tudo, deve saber que tudo passa, como a paisagem pelo vidro do carro.

Ele pensou um pouco e eu continuei:

- Lembra como você chorou quando a nossa gatinha não voltou mais pra casa?

Ele concordou com a cabeça.

- Pois bem, você está chorando agora?
- Não. Mas eu gostaria que ela não tivesse sumido.
- Eu também, filho, eu também. Eu gostava da Diná também... bom, menos quando ela me acordava miando às 5 da manhã. Mas o que eu quero dizer é que a tristeza é temporária. A felicidade também. As pessoas passam na sua vida, como outros viajantes que param nesse posto. Algumas vão com você até certos lugares, como aquele mochileiro que deixamos pra trás. Mas no fim, tudo é passageiro. Você deve aproveitar o máximo da vida, porque o que é agora muda a todo momento.
- Mas e as pessoas que a gente gosta? Eu não quero que você e a mãe se vão.

Abracei meu filho puxando ele pra perto de mim, enquanto meus olhos cruzaram com os olhos da Sofia, que olhava para nós com as mãos na cintura e um sorriso no rosto. - Filho, nós tentamos manter as pessoas que a gente ama por perto, nem que precisemos desviar um pouco do caminho para que continuemos companheiros de viagem.

Levantei pegando meu filho pela mão. Estava na hora de continuar a viagem.

fevereiro 07, 2013

Na Estrada (de Novo)

- Eu não sabia que ela significava tanto pra mim.
- Tudo bem, eu entendo. Eu sei como é. – Ela me respondeu cabisbaixa, deitada no meu colo, fungando lágrimas recém-choradas. Ela aproximou o rosto do meu, nossas lágrimas se misturaram. Elas tinham o gosto amargo de uma vida não-vivida.

Nós nos conhecemos há pouco mais de um mês. Ou seria há pouco menos? Não sei, só sei que desde o primeiro momento parecia que tínhamos esperado a vida toda um pelo outro. Não estou falando sobre paixonite adolescente de fim de semana. Ambos já tínhamos passado dos 30 e a paixão já não visitava com frequência. Tínhamos algo verdadeiramente especial. Algo que é, digo com certeza, raro. Muito raro.

Estávamos sempre grudados um no outro (muita vezes literalmente). Quando não estávamos juntos, estávamos pensando em estar juntos e falando pelo Facebook. Foi um troço meio louco, no primeiro dia eu já estava preocupado se eu ia me entrosar com os amigos loucos dela. Porque ela era artista, pintora, e andava com toda sorte de pessoas esquisitíssimas. Ela era social, eu era... menos. No décimo quinto dia porém, eu já não me importava mais, eu tinha certeza que iria fazer qualquer coisa pra ficar com ela. Até ser o melhor amigo dos amigos loucos dela.

Porém, uma história de amor não precisa ser escrita por Shakespeare para acabar mal.

Acontece que ela, assim como outras mulheres que marcaram minha vida, não resistiram a minha paixão mais antiga. Aquela que acabou com todos meus relacionamentos, inclusive com meu casamento, voltara para me atormentar. Eu tinha que voltar para os braços da outra. Mesmo que eu soubesse que nunca encontraria ninguém como a mulher que eu tinha nos meus braços neste momento. Mas a outra paixão, desde os tempos de adolescente, não me deixaria ser feliz com esta mulher.

- Tudo bem, eu sei como é, eu entendo que você tem que ir. - Ela repetiu, com uma voz de quem sabe que perdeu. Com o coração apertado, limpei um pouquinho do ranho do nariz choroso dela, beijei as sobrancelhas grossas dela e coloquei sua cabeça no travesseiro para que eu pudesse levantar. Ela soluçou alto. Meus olhos arderam e meu rosto voltou a ficar molhado. Triste, porém necessário. Eu estava deixando mais uma mulher maravilhosa, talvez a mais maravilhosa, pela paixão mais antiga, conturbada e egoísta. Eu estava partindo mais um coração, incluindo o meu, por minha velha puta companheira:

a estrada.

dezembro 26, 2010

Metrópoles Pub & Restaurante

Andavam rápido, por conta do frio que os fazia enfiar as mãos dentro do bolso e as meninas se aconchegarem perto do peito dos rapazes.

- Grant Morrison é completamente pirado. Que porra é essa de Barbelith? Sem contar aquele universo fragmentado da DC, como é mesmo?
- Final Crisis?
- É, isso aí. Muitas drogas. O cara toma ácido e senta na frente dum computador e a galera publica isso.

Uma terceira voz, pertencente a Luíza, se meteu: - Que tal mudar de assunto e ser um pouco menos nerd?

Os dois rapazes, contrariados, se entreolharam. De toda forma já estavam chegando ao bar a que se dirigiam. Não era nenhuma ocasião especial, apenas uma velha e boa quinta-feira à noite com os amigos, uma boa cerveja e, se a Srta. Sorte lhes sorrisse, uma noite quente na companhia de uma emoção fria.

Um dos rapazes abriu a porta para que os outros integrantes do grupo entrassem. O bar chamava-se Metrópoles e, dizia a lenda, era também um restaurante, mas o grupo de amigos nunca havia visto ninguém comer nada por lá, exceto por aperitivos e salgadinhos. Não era um bar particularmente charmoso, o Metrópoles. As paredes tinham uma cor estranha e a decoração estava mais para loja turca na Azenha, mas a cerveja era boa e barata, a barwoman (o feminino de “barman”, certo?) era educada, o lugar nunca estava muito cheio e, o melhor de tudo, era perto de onde moravam todos nesse grupo de amigos.

Havia alguns tradicionais alcoólatras que estavam sempre por lá, mas nunca causavam incomodo, no máximo proporcionavam alguma diversão quando caiam ou algo assim. Mas em geral eram calmos, focando no resultado: beber. Não que só esse tipo caidaço freqüentasse o lugar, a prova viva era esse grupo de amigos.

Depois de algumas cervejas, as línguas começam a se soltar:

- Lembra daquela vez que o Marcos foi desafiar a menina que estava jogando sinuca e tomou o maior couro de todos os tempos?
- Mas ela jogou sujo! – retrucou o loiroso e baixinho Marcos.
- Deixa de ser maricon, tu perdeu limpo.
- Não, ela jogou sujo, tava sóbria a desgraçada!

Os amigos riram na mesa, papo vai, papo vem, mais e mais cerveja desce pelo gargalo e os primeiros do grupo já estão indo a sua terceira ida ao banheiro. O pessoal começa a perder a noção e, num grupo de 20 e tantos anos cheio de solteiros, é hora de procurar por sexo macio. As apostas de “duvido que tu chegue naquela gostosa, te pago uma cerveja” são inevitáveis, mas hoje, alguém decidiu ir longe demais:

- Luíza, duvido que tu tenha peito suficiente pra sentar na mesa de um dos tiozões que estão sempre aqui bebendo.

Luíza, com o tanque cheio, mas a carteira vazia, olhou de revesgueio em volta e disse: - Olha, depende, se eu puder escolher o tiozão alcoólatra, até aceito teu desafio.

Surpresos, o pessoal sentado na mesa soltou um “oooohhhbaaaaahiiiiiiihhhh” ou coisa assim.

- Quem tu escolheria? – Disse a amiga curiosa.
- Aquele lá, que tá sempre na última mesa, no canto. – Disse Luíza apontando com a boca. Depois que os amigos olharam, achando-se discretos, ela continuou: - parece que tem um corpo bem decente, um queixo quadrado, grisalho... me parece até meio que estilo George Clooney. E aí, sem esperar resposta, pegou sua cerveja e se dirigiu à última mesa, onde aquele homem que aparentava estar por volta dos 50 sempre ficava, toda noite, bebendo sem parar.

- Posso me sentar?

O homem que olhava para dentro do copo meio vazio disse, sem erguer os olhos: - se você quiser.

- Oi, me chamo Luíza. Luíza Lane.

O homem pela primeira vez desviou os olhos do copo e olhou para Luíza. - Clark.

Luíza olhou incrédula. Aquele era Clark Kent, o Super-Homem. Que diabos ele fazia naquele bar? Porque havia sumido sem nenhuma explicação? Certamente ele já teria passado dos 100 anos, mas ainda estava muito bem, aparentando pelo menos metade disso.

- Meu Deus, mas o que houve? Por que você desapareceu?
- O equivalente a ser demitido. A humanidade não precisa mais de super-heróis. Nenhum super-herói, sozinho ou em conjunto, vai conseguir salvar a humanidade. – bebeu mais um gole da cerveja que começava a esquentar.
- Eu... eu... eu sempre li sobre você e eu sempre pensei que só o Batman diria isso, mas não você. Você acreditava e conseguia enxergar o bem em cada pessoa.
- Eu ainda consigo.
- Mas como você diz que a humanidade não precisa de super-heróis então? Depois de todos esses ataques terroristas, guerras, doenças, pobreza... nunca foi tão necessário ter um guardião da justiça como você!
- Não, você está enganada.
- Ah, é? E como é que tem tanta gente no mundo trabalhando para o bem? Doutores que vão pra lugares com guerra civil na África, ativistas do Wikileaks que revelam documentos secretos que mostram que o governo está nos fodendo, gente que trabalha de graça para educar crianças carentes, enfim, o mundo está cheio de gente tentando fazer o bem!
- Exatamente. Esses são os super-heróis de hoje em dia. Só a humanidade pode salvar a humanidade. - virou o copo com o restinho de cerveja que tinha, levantou-se, botou o casaco e foi embora, voando, Luíza imaginou.

setembro 08, 2010

Mais uma sobre o Amor

Se você não sabe que o Amor anda por aí vestido de terno e balançando sua bengala favorita, provavelmente você precisa começar a leitura por aqui.

Sentado no ônibus, coisa rara na hora do rush, o Amor admirava a vista da cidade passando, sem se focar em nada em particular. Sua mente vagava pela lembrança das mais belas poesias em sua homenagem, que também eram as mais trágicas situações. Seu fluxo mental, a popular viagem na maionese (vide dicionário Xou da Xuxa), foi brutalmente interrompido quando sentiu um golpe seco, forte o suficiente para machucar o ego, mas fraco o suficiente para ser socialmente ignorado, no seu joelho. Continuou olhando pela janela, fingindo ignorância, não sem antes ajustar seu chapéu coco. Sentiu o mesmo golpe mais uma, duas e três vezes.

- Ei. - Disse o velhote que estava de pé no corredor do ônibus e empunhava uma bengala, a qual usou pra cutucar o Amor uma quarta vez, só pra ter certeza que seu ponto estava sendo claro. O velho, de mau-humor, apontou para o vidro do ônibus. O Amor, curioso, olhou para onde o velho havia apontado e viu a que ele se referia: um adesivo azul desbotado, com uma das bordas rasgada, que mostrava um desenho simples de um boneco de pauzinhos com a corcunda curvada e uma bengala e outro boneco com uma barriga de grávida, acima dos dois desenhos estilizados estava escrito “assento preferencial”.

O Amor olhou para o adesivo, olhou de novo para o velhinho, olhou uma segunda vez para o adesivo e depois para o velhote e deu de ombros, ignorando-o e desviando o olhar como que colocando um fone de ouvido imaginário.

- Ei! – o velhinho disse de novo, apontando sua bengala para o adesivo, desta vez com mais veemência.

O Amor apontou para a sua própria bengala, como que justificando sua preferência, e disse:

- Eu pareço novo toda vez que alguém se depara comigo, mas eu sou sempre o velho e bom Amor, que está aqui desde quase o início do Todo.

O velho incorporando o tradicional espírito de ficar puto, começou a proferir os melhores impropérios de dezenas de anos atrás, segundo os que testemunharam o evento, dentre eles, energúmeno, gatuno, troglodita, Pedro de Lara e advogado. O Amor, desconfiado, olhou por sobre o ombro do velho, que continuava chamando no mais alto do baixo calão, e viu uma de suas primas: a Raiva. Ela olhava ara ele e quando o Amor a percebeu, ela sorriu de volta o melhor que pode com seu batom mal colocado que era quase da mesma cor dos seus cabelos revoltos vermelho fogo. A Ira abanou para o Amor e, com maquiagem borrada em volta dos olhos, piscou.

- Ah, disputa de família. Sempre isso. – suspirou o Amor, desapontado. Ele balançou sua bengala suavemente e assoviou uma melodia doce. Em resposta, o velhinho começou a baixar a bola e o volume, meio que se perdendo nas palavras, enquanto acompanhava com os olhos uma dona bonita (vide dicionário Chaves do Oito) que apenas adentrara a condução. A dona bonita, espremendo-se um pouco para passar entre o velhinho e os bancos do ônibus, quase tocou-lhe a face contra seu decote. O velhinho ficou vermelho, sorriu, olhou para a dona bonita que lhe sorriu de volta e seu coração não agüentou (da pior forma que se pode imaginar) falhando-lhe no peito e fazendo com que o velhinho caísse estatelado no corredor do ônibus.

O Amor puxou a cordinha do ônibus e, antes de descer, sorriu para sua prima e disse:

- É por isso que dizem que o Amor sempre vence.

maio 30, 2010

1984, George Orwell

Nineteen Eighty-Four Acredite ou não, nunca tinha lido 1984 até algumas semanas atrás quando comprei o livro no aeroporto de Estocolmo. Eu gostei pra caramba, mais do que A Revolução dos Bichos, ainda que seja bem claro o link anti-comunas-fedidos dos dois livros.

Acho que todo mundo sabe, mesmo quem não tenha lido 1984, que se passa em um possível futuro totalitário onde o Partido domina tudo. Inclusive é de onde o nome “Big Brother” se origina – acho que a essa altura do campeonato todo mundo também sabe disso, então, dá-lhe inutilidade! Eu realmente gostei da ambientação, especialmente o conceito dos ministérios, como o “Ministério da Paz” que na real era responsável pela guerra e os “telescreens” que são nada mais do que televisões (com capacidade de filmar e ouvir também) que nunca podem ser desligadas. Dá pra ver onde Alan Moore buscou inspiração pra escrever seu V de Vingança.

Ainda que eu tenha gostado mais de 1984 do que do Admirável Mundo Novo do Huxley, acho que quem “venceu” a batalha em prever o futuro foi o Huxley. Enquanto Orwell previu o totalitarismo absoluto através da privação, controle, dor, sofrimento, medo, guerra e, principalmente, poder absoluto de um Partido central, Huxley em contrapartida imaginou a humanidade escravizada por prazer, hedonismo, drogas, excesso de informação irrelevante, enfim, algo bem anos 2000 se tu olhar para Big Brother (o programa de TV), revistas de fofocas, Twitter, Youtube, fast food, cigarrinho do diabo, álcool, etc.

Métodos diferentes, efeitos semelhantes (e nisso tanto Huxley quanto Orwell acertaram): uma minoria privilegiada comanda, uns 20% estão na camada um pouco mais baixa, mas ainda assim bem legal e a massa tá mesmo e se ferrando, completamente alienada e imóvel.
Boa leitura, meio deprê no fim, mas uma ótima reflexão.

outubro 10, 2009

maio 19, 2009

Mulheres Fantásticas em livro com papel e tudo

Pois é, demorou, mas rolou.



Os contos da série Mulheres Fantásticas podem finalmente ser adquirido em formato livro bonitaço pra caralho. Dá uma olhada no naipe: Mulheres Fantásticas - o livro. Clicando no link você pode ver um preview do livro com a capa e contra-capa, sumário e um dos contos.

Publicado usando o Lulu.com, um parceiraite que publica livros de graça.

dezembro 30, 2008

Dossiê Fraude sobre as profissões que você não quer escolher

O homem moderno (bem como sua contra-parte feminina) passa a maior parte do dia na labuta do ganha-pão e da noite descansando o esqueleto para o novo dia no batente. O budismo bunda-mole do “um dia após o outro” unido com a moral protestante de que “o trabalho enobrece” pode até ser verdade se você for um rockstar comedor de guriazinhas de 18 anos ou o príncipe herdeiro da Noruega. Mas, meu amigo, todos nós sabemos que 99% da força de trabalho não pertence ao showbizz ou a realeza e estão mesmo é se fudendo para ganhar aquele trocado esperto pra cachacinha. Para você adolescente pensando no vestibular ou tiozão desempregado é que existe o DOSSIÊ FRAUDE SOBRE AS PROFISSÕES QUE VOCÊ NÃO QUER ESCOLHER.

A
- Advogado – Hollywood glamorizou diversos deles, sendo que todo pai militar sonhou para seu rebento a toga de “dotô” para que vencesse os malfeitores a la Perry Mason. Porém, hoje a realidade é outra. Expelidos aos borbotões das faculdade de direito mais beverly hills college, o recém formado deve considerar-se sortudo se passar no exame da OAB apenas com 1 ano extra de estudos DEPOIS da faculdade. E, mesmo assim, vai ter de contentar-se com anos preenchendo formulários e indo e vindo do fórum até seu primeiro caso de importância: briga de vizinhos termina em ofensas verbais. E tudo isso usando terno e gravata nesse tropical Brasilzão. Veredito: nem fodendo.

B
- Bolsista de mestrado – receber dinheiro para estudar pode até parecer tentador, mas acorde, parceiro. Se tudo der certo, serão 2 anos da sua vida que você vai desejar não ter vivido - porque, de fato, você não viverá. Você viverá dentro da faculdade, de modo que seus amigos e familiares vão pensar que você entrou pra uma ordem religiosa secreta. Você só vai falar sobre a maldita tese, então ninguém vai querer conversar com você mesmo. Você ganhará uma mixaria, portanto não vai ter dinheiro pra fazer nada além de pagar seu muquifo estudantil. As únicas viagens que você fará serão para apresentar artigos em congressos obscuros (pagando do seu próprio bolso, é claro). E, pra finalizar, seu orientador muito provavelmente descontará todas as frustrações do fabuloso mundo acadêmico sobre seu pobre e ignorante lombo. Tem vocação pra sofrer por períodos prolongados e tem vergonha de se admitir sadomasoquista? Vai que é tua!

C
- Coiote - Se arrastar por dias pelo deserto mexicano pra tentar entrar nos Estados Unidos não pode ser atraente pra ninguém, ainda mais quando um dos riscos da profissão é acabar tomando bala de alguém.

D
- Dentista - Falemos sério, porque ao invés de agradar os pais e virar um médico de verdade, alguém escolheria passar o dia futricando a boca de pessoas que ou o odeiam ou o temem ou ou dois? Ser dentista está mais para uma forma grotesca de sadismo do que qualquer outra coisa. Sem contar que piadas de dentista são piores que dor de dente.

E
- Enólogo - Passar o dia bochechando e cuspindo vinho pode até não parecer tão mau, mas aquela loira gostosa ou aquele policial que te parou na blitz não vão saber diferenciar teu bafo de bebum com o de um bebum de verdade. Quando perceberes isso, aí é o primeiro passo para começar a entornar o caneco de verdade, porque ninguém pega esse tipo de emprego sem gostar de um goró.

F
- Flanelinha – Temido por alguns, odiado por todos, o flanelinha é a espécie mais asquerosa de achacador, porque ele sugere que tem o poder de fazer alguma coisa com teu carro, ainda que em geral não faça nada (nem cuidar, porque quando tu voltar ele já foi embora). Quem quer ser flanelinha?

G
- Goleiro - Ah, o glamour de ser um jogador de futebol, quem nunca sonhou? Pois se você embarcar nessa, saiba onde está se metendo: goleiros são a escória do futebol, apenas acima do juíz e dos bandeirinhas. Goleiro só é lembrado quando erra, porque quando faz o trabalho direito só faz sua obrigação. Além disso, o goleiro é o principal antagonista da estrela do time: o goleador. Se o seu sonho é ser chamado de filho da puta pela torcida adversária por ter defendido e filho da puta pela torcida do seu time por não ter defendido, vai que é tua, Tafarel!

H
- Hoteleiro - seu trabalho é estar em serviço enquanto aquele casal em lua de mel está aproveitando a viagem tropical e aqueles rockeiros ali estão promovendo uma suruba na piscina. Precisa dizer mais?

I
- Índio - A opção naturalista funciona que é uma beleza se você nasceu índio. Mas se você é o típico cagalhão da cidade, com certeza não sabe a diferença entre urtiga e babosa. Uma hora ou outra você vai acabar comendo uma plantinha que na melhor das hipóteses vai te dar uma caganeira fodida (e lembre-se que tu vai estar com a bunda de fora o tempo todo). Fora isso, toda índia tem uns peitos caídos muito fodidos. E, se não tem, certo que elas são protegidas por algum índio fortão que vai te dar um cacete se tu chegar muito perto. Ser índio é um troço que ninguém escolhe. Ou é, ou não eras.

J
- Jogador de pôquer - Você pode até sonhar com torneios estelares em Las Vegas, rodeado de bebidas doces, fichas coloridas e mulheres de decote generoso. Mas dando bem a real, o mais provável lugar que você vai conhece é o hospital, com sua comida sem sal, pílulas coloridas e enfermeiras de 200kg, depois de não conseguir pagar aquele agiota que lhe emprestou dinheiro em uma das suas “marés de sorte”.

K
- Karateca - Baita trabalho esse de dar pau nas pessoas, heim? Porém, lembre-se daquele velho ditado: sempre haverá alguém melhor que você. E se tem alguém melhor, logo você vai tomar um cacete sem precedentes.

L
- Lixeiro - Sei que são necessários e tudo mais, mas, porra, quem aí sonha mesmo em passar o dia (ou noite) correndo atrás de um caminhão que fede a Cubatão, com ênfase no “cu”?

M
- Militar - Foi-se o tempo em que milicos eram glamourizados e ganhavam bem. Hoje ser militar significa passar a vida rodeado de machos, recebendo ordens aos berros de um sujeito que vai torturar-lhe físico e mentalmente para te preparar pra uma guerra que, no caso do Brasil, se chegar, vai ser perdida. No fim, a única coisa que você vai fazer com seu treinamento é ajudar na resconstrução de locais alagados. E se você subir na hierarquia depois de pagar muito penico, sua filha gostosa vai lá e se casa com um hippie maloqueiro só pra te contrariar. Nenhum sentido.

N
- Nazista - Até entendo que em alguma mente doentia na Alemanha ou Escandinávia o nazismo tenha sido uma opção, visto o componente racial predominante local. Mas no Brasil? Vai te criar, guri!

O
- Otorrinolaringologista - Você quer mesmo sofrer a sina de toda vez que você responder a pergunta “e aí, o que tu faz?” pra alguma gata quente a resposta dela seja “ahn?” ou dar risada, afirmar que você é muito divertido e perguntar de novo o que tu faz?

P
- Publicitário - tomar champanhe todo dia e ganhar prêmios é no mínimo uma visão equivocada da profissão mais descolada de todos os tempos (a exceção do designer). Primeiro de tudo, tu vai começar por baixo trabalhando 12h por dia. Se crescer na hierarquia, vai trabalhar mais, muito mais, sem receber hora extra. Publicitário que se presa tá sempre trabalhando, até fora da agência, porque sempre pode vir uma “idéia genial” em qualquer lugar. Não é a toa que há pouquíssimos publicitários velhos. Todos eles debandam em busca de uma vida melhor no sanatório.

- Padre - O pior de todos os mundos: passar anos estudando em uma língua morta qualquer, ganhar pouco e ainda por cima vestir um uniforme muito medonho que, ao contrário dos outros uniformes, quase ninguém acha excitante (e, mesmo que achasse, você não poderia fazer nada porque é proibido de transar). Mas que merda de profissão é essa, por Deus?

- Palhaço - Quem você quer impressionar quando a sua profissão é na verdade um xingamento muito comum?

Q
- Quermeceiro – Acho que até nem é uma profissão propriamente dita, mas tem algo menos anos 2000 do que uma QUERMECE?

- Quiroprático - Quiroprático é só um jeito sutil de dizer “massagista”. E tu, bagaceiro que é, sabe que “massagista” é só um jeito sutil de dizer... bem, tu sabe.

R
- Relojoeiro - Foram-se os idos em que o mestre relojoeiro suíço era considerado um respeitável artesão. Com a invasão dos relógios digitais chineses a preço de banana, quem é que precisa mandar arrumar um relógio analógico hoje em dia? Só velhinhas cafonas - o que invalida inclusive a possibilidade de conhecer qualquer gostosa enquanto trabalha.

S
- Salsicheiro - Sabe aquela frase em que diz que não devemos saber como são feitas as leis e as salsichas? Bem, há um bom motivo pra isso.

T
- Torneiro mecânico - Não se iluda com o conto de fada do Presidente, esse aí é um em um zilhão. O resto dos torneiros mecânicos estão por aí, suando adoidado, comendo marmita, ganhando pouco e, pra não ficar tão longe do Presidente, tomando pinga e perdendo dedos.

U
- Urologista - Teu sonho é passer o dia tateando o rabo de homens com mais de 40 anos que, em geral, não estão a fim dessa experiência? Mesmo?

V
- Veterinário - O sonho de toda menininha que quer ter um pônei, cuidar de gatinhos perdidos e curar o au-au fofinho. A realidade é bem mais dura que isso: vai ter que meter a mão em xota de vaca pra fazer inseminação artificial, analisar bosta de elefante doente e correr o risco de tomar patada de mula. Não tem nada de fofinho no cruel mundo animal.

W
- Walter Mercado, discípulo de - Você vai ter que ouvir o cara dizendo “djá” e descontar em ti toda aquela bizarreira astrológica com um sotaque muito medonho e ainda vai ficar com todo o teu dinheiro. Se está escrito nas estrelas que essa é a sua função no mundo, trate de tornar-se analfabeto.

X
- Xamã - Sonho muito doido de alguns psiconautas que se aventuram no misterioso mundo das drogas naturais, como peyote, jurema, salvia divinorum e argyreia nervosa, ser xamã não é barbada. Tomar essas drogas uma vez que outra é uma coisa, mas imagina viver fugindo do mescalito todo dia? Sem contar que as plantas visionárias são só parte do trabalho do xamã, outra parte concentra-se em cura dos enfermos. E aí, tenta curar o câncer da filha do chefe só com babosa pra tu ver se ele não pega o teu escalpo. Se ser xamã fosse bom, cada tribo não teria apenas um.

Y
- Yogue - Ser um mestre de yoga pode até parecer interessante à primeira vista, já que geralmente só mulheres freqüentam as aulas. Agora me diga a verdade, você já foi a uma aula de yoga? Nem eu. E nem as gostosas que tu quer comer.

Z
- Zoólogo - Vale a fórmula do médico veterinário: animais fofinhos são a minoria no reino animal, o resto ou é feio pra caralho ou venenoso pra capacete ou fedido demais mesmo ou tudo isso ao mesmo tempo.


-x-x-x-


Esse texto precisa de uma cerca contextualização. A série "Dossiê Fraude" foi na verdade inaugurada pelo Cardoso, aquele mesmo do Cardoso Online (ele jamais escapará dessa alcunha), um sujeito que sempre foi uma grande influência ("cópia" alguém grita da platéia) pra mim, inclusive até hoje tenho uns maneirismos do inferno (sic) que não perdi, tudo por influência do que ele escrevia. O Cardoso escreveu Dossiê Fraude Para O Suicídio Nos Anos 2000, Dossiê Fraude Sobre As Mulheres Das Quais Devemos Manter Distância (pra mim o melhor!), Dossiê Fraude Sobre As Drogas Esquisitíssimas (genial!) e Dossiê Fraude Sobre Animais Que Parecem Comestíveis A Primeira Vista Mas Na Real Tem Gosto De Cu. Claro que esse dossiê não chega aos pés dos que escreveu o Cardoso, mas mesmo assim, decidi que seria legal tê-lo por aqui. Se tu quer ver os dossiês nesse blog, clique na tag dossiê fraude

dezembro 27, 2008

V.v.V. - Vovô viu a Verdade

- Ah, que isso, Spooky, não me venha com essa que ele é FBI. – disse com désdem o jovem Willy Lenhador. Wily não era nenhum Tomé, mas era surpreendentemente cético para um guri de 8 anos que vivia em uma cidade do interior. Tinha o apelido de “Lenhador”não porque tivesse alguma conexão com o machado, mas sim porque era um tremendo de um futebolista e, quando no campo, diziam, “só sabia descer lenha” (seja lá o que isso significa).

- Claro que ele não é! Agora ele tá aposentado, mas ele era do FBI sim. – retrucou do alto dos seus 8 anos e meio, Spooky, que era curioso, observador e criativo, como todo bom menino criado no interior. Spooky, bom entendendor de como Willy Lenhador funcionava, continuou: - Se duvida então vamos lá e nós dois perguntamos pra ele.

- Essa eu quero ver, vamos mesmo!

- O último a chegar é um clone de padre!

E sairam correndo escada abaixo atrás do seu alvo.


Vovô estava sentado em uma cadeira de balanço de madeira pintada branca, estava na varanda de casa e admirava, entre um e outro suave balançar, o céu azul com um sorriso tranqüilo no rosto. O rosto sereno que só a paz da idade pode trazer logo se desfez ao ouvir a barulheira que seu neto, Spooky, e seu amiguinho Willy fizeram ao vir correndo de encontro a sua cadeira, esbaforidas.

Vovô riu alto e abraçou o neto, dizendo: - Por que esses dois aventureiros estão correndo? Estão perseguindo algum bandido?

- Vovô, vovô, não é verdade que você foi do FBI quando era mais novo?

- Ah, é, com distintivo e tudo.

- Palavra? Não é lorota de velho? Meu pai disse que o senhor é cheio de idéias malucas. – disse Willy Lenhador, frase que só poderia vir da inocência e honestidade de uma criança.

Vovô apertou com força a extremidade da banguela que segurava na mão direita - Há! Pois diga pro seu pai que eu tenho um monte de histórias porque já vivi e vi muita coisa, oras!

- Bom, e como o senhor decidiu sair do FBI?

- Decidiu? Ahn... deixemos isso pra lá, essas coisas da burocracia eu sei que meninos de 8 anos nao querem saber.

- Oito anos e meio! – retrucou Spooky.

Vovô sorriu. – Ah, perdão, oito anos e meio. Veja só isso, agora querem ser mais velhos. Já eu, na minha idade, gostaria é de ser novo de novo. Mas, tangiverso, sei que vocês são cavalheiros muito ocupados, porém, garanto que gostariam de saber do segredo.

- Um segredo? – Os dois meninos arregalaram os olhos de interesse.

- Não, não, eu não disse “um segredo”, eu disse “o segredo”. Mas sei que vocês estão ocupados correndo pra lá e pra cá, então não querem saber, certo? É a mais pura verdade...

- Queremos sim! – disse Willy, seguido por outra afirmativa de Spooky.

Vovô riu satisfeito na cadeira e fez força para inclinar-se em direção aos dois meninos, como se quisesse falar-lhes em particular, sem que ninguém ouvisse. Ele disse baixinho: - Mas vocês não podem contar a ninguém, heim?

- Nem pra vovó?

- Muito menos pra vovó! – O velho sacudiu-se na sua cadeira e olhou por sobre os ombros para certificar-se de que ela não estava por perto.

- Tá bom!

- Olha lá, palavra de escoteiro. Então vou contar-lhes o segredo. – disse vovô, botando cada menino sobre uma de suas pernas. – Em 2012, quando vocês nem eram nascidos, aconteceram diversas coisas muito interessantes que acabariam por mudar todo o mundo. Apenas, claro, se elas fossem públicas. Mas o que houve é que o governo escondeu esses fatos de todos nós. Porém, alguns de nós conseguiram acessar a verdade. Eu estava em busca de um E.B.E...

- Hebe? – interrompeu Willy Lenhador. – aquela anciã que se mantém viva no corpo de um andróide?

- Não! Eu não disse Hebe, eu disse E.B.E, ê-bê-ê, sigla para “entidade biológica extra-terrestre”.

- O que é esse negocio aí?

- Um alienígena!

- Óóó. – os dois meninos dispararam em uníssono.

- Pois então, lá estava eu procurando por um E.B.E., depois de diversos relatos de aparições de ovnis na mesma área, quando topei com essa super conspiração governamental, algo tão secreto que nem o Presidente tinha conhecimento...

- Hora dos biscoitos! – gritou de dentro de casa vovó, saindo pela porta carregando uma bandeja cheia de biscoitos quentinhos recém saídos do forno. Ao ver como vovô tinha os dois meninos calados e com olhos brilhando no colo, ela disse: - Opa! Não vai me dizer que está contando histórias de extra-terrestres pras crianças!

- Não, eu? Eu não, só estou aqui batendo um papo com meus camaradinhas. – disse vovô.

- Nem de chupa-cabra? Diabo de Jersey? O Projeto Lych?

- Não, nem sei o que é isso. Sou só um velho.

- Olha lá, estou de olho em você! Depois as crianças têm pesadelo à noite e eu é que tenho que ir lá acalmá-las. Crianças, vão brincar lá fora, tem um monte de árvores pra vocês subirem aí na volta. Vão, vão.

As crianças sairam correndo pra brincar, com as mãos carregadas e as bocas preenchidas de biscoitos.

- Isso crianças, vão brincar lá fora. Porque a verdade está lá fora. – sussurou vovô Fox Mulder, que disse para sua companheira, com a bandeja de biscoitos semi-vazia em mãos: - Scully, você adorava meu objeto voador não-identificado.

- É, Mulder, mas esse negócio aí além de bem identificado, já não levanta mais vôo há anos. – Ela sorriu ao alfinetar seu amor e voltou para dentro de casa.

dezembro 23, 2008

Como ser um grande escritor, por Charles Bukowski

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil -
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada -

um gosto precoce de morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente -
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela
bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque

e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.


(Charles Bukowski, in O amor é um cão dos diabos) - mas nem li o livro, só roubei d'O de Sempre Nunca, ou seja lá qual é o nome desse blog patrocinado pela Bavaria.

abril 22, 2008

Dueto

Há um tempo atrás, em algum desses portais de literatura cujo nome sinceramente não me recordo, havia uma promoção: fazer um parágrafo continuando um trecho de um livro do Luís Fernando Veríssimo. Acho que o prêmio era ganhar o próprio livro do LFV, não estou certo também. Esses dias achei o arquivo com minha contribuição, então ei-la (a parte em itálico é do próprio LFV, se não ficou óbvio):

Contam os antigos que há muitos anos, antes mesmo do Eskibon e do Jajá, quando Copacabana ainda era uma praia e não um deserto que acabava no mar, quando ainda havia os postos pintados de branco e calçadão era um sapato grande, um rapaz, um dia, encontrou uma concha à beira-mar. Era no tempo em que ainda havia conchas, e não bisnagas de plástico, à beira-mar.

Conchas têm uma função óbvia: colocar na orelha e ouvir o som do mar. Talvez servir como ornamento em uma geladeira, ao lado de um pingüim. Mas não essa concha. Acontece que essa era uma concha especial, pois nele se podia ouvir o futuro. Por exemplo, se Pero Vaz de Caminha a tivesse colocado junto ao ouvido, poderia ter alterado a famosa frase em sua carta para: “Nela em se elegendo, tudo dá!” Mas deixemos de especulação. Digo especulação, porque não podemos saber ao certo o que o rapaz do primeiro parágrafo ouviu ao posicionar a concha perto do ouvido. Mas não deve ter sido algo lá muito importante, já que largou a concha casualmente na areia e disse decepcionado:

- Essa está com defeito.

fevereiro 23, 2008

Quero ser Neil Gaiman

Neil Gaiman é um mago. Não no sentido de fazer coisas voarem, de tirar coelhos da cartola ou de atirar relâmpagos num estalar de dedos - ainda que ele possa fazer você acreditar que ele conseguiria tudo isso. Não, Neil Gaiman é um mago das palavras. Ele dá vida a simples letrinhas, de modo que cidades saem do papel e começam a andar, deuses entram no seu quarto e magia é uma coisa tão normal (e assustadora) quanto um assalto à mão armada. Ele cria mundos fantásticos, e críveis, com simples palavras - em uma página você está ali no parque, em outra você descobriu um portal para o mundo das fadas. Simples palavras? Nem tanto, afinal, você não sabe que o mundo foi criado pela Palavra?

Neil Gaiman sabe e nos contou.

Eu gostaria de usar apenas palavras para moldar a realidade igualzinho a Neil Gaiman, mas, serei sincero, nunca cheguei nem perto. O máximo que consegui foi imitá-lo um pouco, de maneira tosca. Comparar a minha criação e a de Neil Gaiman, é mais ou menos como comparar a criação do universo com a criação do Dr. Frankenstein - não tem nem graça. Na busca de me igualar ao mestre, fiz de tudo: li os livros dele, das pessoas que o influenciaram, escrevi sobre o que ele escrevia e até me vesti do mesmo modo, não importando o quão quente jaquetas de couro são no verão do Brasil.

Nada adiantou.

Desconsolado pelo meu fracasso retumbante, dei-me conta de que não tinha a criatividade dele, nem o talento com as palavras, nem sequer um mero sotaque inglês. Mas isso não significa que eu seja desprovido de criatividade. Em última desesperada tentativa de tornar-me Neil Gaiman, criei um plano - ou melhor, vários. Para executar algum deles, eu precisava de uma arma, o e-mail de Deus ou o chirrin-chirrion do diabo. Como não consegui nenhum deles, nem mesmo a arma, me contentei em seguir outra linha de raciocínio: ter acesso ao caderno de Gaiman com seus escritos inéditos. A idéia era bem simples: roubar o caderno dele, colocar meu nome embaixo e fazer fama com o nome de New Gaymann.

Apesar de simples, não era tão fácil chegar perto do caderno de Neil Gaiman. Sabe como é, qualquer pessoa que guarde os segredos da sua profissão em um caderno, não deve ser tão descuidada com ele, principalmente se você estiver no fim da primeira vez do seu mais novo livro. Até tentei que ele me entregasse na boa, depois de uma carta emocionada. Mas nunca recebi uma resposta. Eu teria de tirar o maldito caderno a força - e não tendo arma, nem tampouco sendo fluente na linguagem corporal dos caratecas, só me restava a matreirice.

Consegui o cargo de carregador do hotel onde ele ficaria e onde ocorreria uma conferência em que Gaiman era o palestrante principal. “Moleza”, pensei. Ele sai do quarto pra palestra, eu entro, localizo o caderno, o pego e vou em direção à fama. Fácil.

Chegado o dia, ele já estava no quarto, estava tudo certo. Quando ele saiu do quarto, coisa que vi porque estava de tocaia por ali, decepção total. Ele estava levando o caderno. Bastante sorridente o rapaz, mas concentrado. Ele foi para o pátio, fechado só pra ele, onde sentou-se em um banco perto da fonte, abriu o caderno, pegou uma caneta e começou a escrever algo.

- Isso mesmo, quanto mais você der pra mim, melhor. - eu sorri.

Depois de umas 2 horas, ele voltou pro quarto. Mais um tempo depois, saiu. Outras roupas, cabelo molhado. Desta vez estava sem o caderno. Acho que ele foi jantar, aproveitando o restaurante antes que a muvuca se instalasse durante a conferência. Imediatamente peguei a chave-mestra - que havia conseguido graças a um pequeno agrado sexual com uma curvilínea latina que era camareira no hotel - e entrei no quarto, rapidamente, sempre cuidando pra ver se não estava sendo observado. O caderno estava do lado da cama. Aquilo seria como tirar doce de criança.

Me aproximei da cama, peguei o caderno na mão, o abri e comecei a ler o que estava ali com lágrimas nos olhos. Eu havia conseguido!

- Eu não faria isso se fosse você.

Virei-me rápido, assustado, em direção a voz quase sintética, que veio de trás de mim. Era um sujeito alto, magro e branco (era mais que pálido, era branco papel). Seu cabelo era preto e desgrenhado, lembrando um pouco o cara do The Cure.

- L-L-Lorde Morfeus? - eu perguntei.
- Em pessoa. Ou o mais próximo disse que eu posso ser no mundo acordado.
- Você vai me matar?
- Minha irmã não está aqui. - Ele não parecia ter emoção alguma.
- É, mas se você não se mandar, talvez ela seja convocada. E, acredite, não será pra mim, muito menos pelo Sonho. - disse uma outra voz, vinda de dentro do banheiro. Quando o dono da voz saiu, eu o reconheci de imediato com seus óculos redondos e a curuja sobre o ombro. Atrás dele, outra figura, um homem de capote amarelo. “Ih, me fodi”, pensei. E dei o fora dali.

Mas não sem antes pegar o autógrafo de cada um.