Se você não sabe que o Amor anda por aí vestido de terno e balançando sua bengala favorita, provavelmente você precisa começar a leitura por aqui.
Sentado no ônibus, coisa rara na hora do rush, o Amor admirava a vista da cidade passando, sem se focar em nada em particular. Sua mente vagava pela lembrança das mais belas poesias em sua homenagem, que também eram as mais trágicas situações. Seu fluxo mental, a popular viagem na maionese (vide dicionário Xou da Xuxa), foi brutalmente interrompido quando sentiu um golpe seco, forte o suficiente para machucar o ego, mas fraco o suficiente para ser socialmente ignorado, no seu joelho. Continuou olhando pela janela, fingindo ignorância, não sem antes ajustar seu chapéu coco. Sentiu o mesmo golpe mais uma, duas e três vezes.
- Ei. - Disse o velhote que estava de pé no corredor do ônibus e empunhava uma bengala, a qual usou pra cutucar o Amor uma quarta vez, só pra ter certeza que seu ponto estava sendo claro. O velho, de mau-humor, apontou para o vidro do ônibus. O Amor, curioso, olhou para onde o velho havia apontado e viu a que ele se referia: um adesivo azul desbotado, com uma das bordas rasgada, que mostrava um desenho simples de um boneco de pauzinhos com a corcunda curvada e uma bengala e outro boneco com uma barriga de grávida, acima dos dois desenhos estilizados estava escrito “assento preferencial”.
O Amor olhou para o adesivo, olhou de novo para o velhinho, olhou uma segunda vez para o adesivo e depois para o velhote e deu de ombros, ignorando-o e desviando o olhar como que colocando um fone de ouvido imaginário.
- Ei! – o velhinho disse de novo, apontando sua bengala para o adesivo, desta vez com mais veemência.
O Amor apontou para a sua própria bengala, como que justificando sua preferência, e disse:
- Eu pareço novo toda vez que alguém se depara comigo, mas eu sou sempre o velho e bom Amor, que está aqui desde quase o início do Todo.
O velho incorporando o tradicional espírito de ficar puto, começou a proferir os melhores impropérios de dezenas de anos atrás, segundo os que testemunharam o evento, dentre eles, energúmeno, gatuno, troglodita, Pedro de Lara e advogado. O Amor, desconfiado, olhou por sobre o ombro do velho, que continuava chamando no mais alto do baixo calão, e viu uma de suas primas: a Raiva. Ela olhava ara ele e quando o Amor a percebeu, ela sorriu de volta o melhor que pode com seu batom mal colocado que era quase da mesma cor dos seus cabelos revoltos vermelho fogo. A Ira abanou para o Amor e, com maquiagem borrada em volta dos olhos, piscou.
- Ah, disputa de família. Sempre isso. – suspirou o Amor, desapontado. Ele balançou sua bengala suavemente e assoviou uma melodia doce. Em resposta, o velhinho começou a baixar a bola e o volume, meio que se perdendo nas palavras, enquanto acompanhava com os olhos uma dona bonita (vide dicionário Chaves do Oito) que apenas adentrara a condução. A dona bonita, espremendo-se um pouco para passar entre o velhinho e os bancos do ônibus, quase tocou-lhe a face contra seu decote. O velhinho ficou vermelho, sorriu, olhou para a dona bonita que lhe sorriu de volta e seu coração não agüentou (da pior forma que se pode imaginar) falhando-lhe no peito e fazendo com que o velhinho caísse estatelado no corredor do ônibus.
O Amor puxou a cordinha do ônibus e, antes de descer, sorriu para sua prima e disse:
- É por isso que dizem que o Amor sempre vence.
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setembro 08, 2010
fevereiro 10, 2008
De onde vêm as histórias?
“Comece pelo começo, siga até chegar ao fim e então, pare.”
- Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas
Não-contadores podem até achar que elas vêm da cabeça de quem as escreve, mas isso é absolutamente inverossímil. Este é um segredo guardado por escritores, narradores, roteiristas, vovôs e demais contadores de história. Não porque não queiram compartilhar o segredo, mas simplesmente porque ninguém acredita quando um contador de histórias começa a contar de onde elas vêm. E, pior ainda, ai de mim, ainda que saibamos de onde vêm, geralmente somos enganados para onde vão. Ninguém seria louco o suficiente de olhar pra um sujeito com uma caneta e um papel e dizer “a caneta está contando a história”. Mas nós olhamos para o escritor e temos essa estranha (falsa) impressão.
A verdade é que histórias se contam sozinhas. Elas apenas usam o escritor, assim como o escritor parece usar a caneta.
Faça o teste, abra o Word ou pegue um papel e uma caneta e escreva qualquer coisa. Ou melhor, escreva “E então o garoto que lia Shakespeare levantou-se da cama com uma idéia diferente. Era um desses garotos cheio de idéias diferentes. Onde havia um espantalho, ele enxergava um homem de palha. Mas deixemos disso, falemos das idéias do menino.” e a partir daí vá escrevendo sem rumo, não tente controlar nada. Enquanto escreve, com certeza você não sabe que história está escrevendo, mas a história sabe - e você até pode especular para onde ela vai, mas provavelmente você se surpreenderá com o rumo inesperado que as coisas vão tomar. Até que finalmente você acaba, simplesmente porque não há mais palavras a serem ditas. Ponto final e “fim”.
“A idéia do menino era simples, ainda que inconsistente, e se Shakespeare não fosse um homem, mas uma mulher? Miss Wilma Shakespeare. Mas este garoto, como já dito, era cheio de idéias e não tardou a mudá-la. Não, espere! Não uma mulher, e se Shakespeare fosse um caçador de histórias?” De onde veio isso? Escreva e surpreenda-se.
Escrever é como ser um leitor privilegiado de algo que não foi publicado. Você se sente como o primeiro leitor, não como um escritor deveria sentir-se. Não há controle. Eu mesmo achava que esta história seria bem diferente do que está sendo. E ainda não sei pra onde ela vai, como acaba ou porque está me forçando a escrevê-la assim - “O menino deixou ‘Sonho de uma Noite de Verão’ de lado, pegou um lápis com uma ponta meio quebrada, o qual prontamente afiou com seu canivete preto, e começou a rabiscar. Não sabia para onde estava indo, por isso começou com ‘William Shakespeare trabalhava em uma biblioteca. Mas não era uma biblioteca comum, onde os livros se comportam como tal, esperando para serem retirados, lidos e, eventualmente, devolvidos ou extraviados. Não, não. William trabalhava em uma biblioteca especial, onde histórias desvencilhavam-se das páginas, caiam da estante e interagiam umas com as outras, formando novas histórias, de modo que não era incomum o improvável Tom Bombadil cruzar com o malandro Tom Sawyer e aprontar muitas confusões. Will chamava aquilo de ‘O Teatro das Histórias’. Certo dia...” - disse antes “me forçando a escrevê-la assim”, porque não me deixou dormir de jeito nenhum. Ela estava lá, sentada, me olhando sem piscar os olhos. Precisei sair da cama às 2h da manhã e ligar o computador, só pra sentar na frente dele, escrever algumas poucas palavras sem nexo durante meia hora de constrangida página branca e desistir. E, claro, ao tentar dormir sem escrevê-la, lá estava a história de novo pulsando em preto e branco quando eu fechava os olhos, de modo que precisei voltar ao computador. Parece que está é uma das difíceis, que brinca com a gente até que esteja satisfeita, obrigando-nos a rearranjar coisas, reescrever trechos, adicionar, subtrair e até inverter a ordem das coisas.
Mas eu imploro, não as entenda mal, elas não o fazem por maldade. Nem por bondade tampouco. Histórias não são propriamente malignas ou benignas. Histórias não têm moral. Histórias não buscam a redenção. Histórias não estão nesse pela fama, dinheiro ou garotas bonitas - ainda que um bocado de histórias sejam sobre fama, dinheiro e garotas bonitas. Histórias são assim apenas porque é de sua natureza serem contadas, assim como é da nossa natureza escrevê-las. Histórias não pedem muito, apenas que as coloquemos no papel.
“Como acaba a história do menino? Eu não sei. Talvez algum dia a história se conte e ele consiga saber também.”
- Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas
Não-contadores podem até achar que elas vêm da cabeça de quem as escreve, mas isso é absolutamente inverossímil. Este é um segredo guardado por escritores, narradores, roteiristas, vovôs e demais contadores de história. Não porque não queiram compartilhar o segredo, mas simplesmente porque ninguém acredita quando um contador de histórias começa a contar de onde elas vêm. E, pior ainda, ai de mim, ainda que saibamos de onde vêm, geralmente somos enganados para onde vão. Ninguém seria louco o suficiente de olhar pra um sujeito com uma caneta e um papel e dizer “a caneta está contando a história”. Mas nós olhamos para o escritor e temos essa estranha (falsa) impressão.A verdade é que histórias se contam sozinhas. Elas apenas usam o escritor, assim como o escritor parece usar a caneta.
Faça o teste, abra o Word ou pegue um papel e uma caneta e escreva qualquer coisa. Ou melhor, escreva “E então o garoto que lia Shakespeare levantou-se da cama com uma idéia diferente. Era um desses garotos cheio de idéias diferentes. Onde havia um espantalho, ele enxergava um homem de palha. Mas deixemos disso, falemos das idéias do menino.” e a partir daí vá escrevendo sem rumo, não tente controlar nada. Enquanto escreve, com certeza você não sabe que história está escrevendo, mas a história sabe - e você até pode especular para onde ela vai, mas provavelmente você se surpreenderá com o rumo inesperado que as coisas vão tomar. Até que finalmente você acaba, simplesmente porque não há mais palavras a serem ditas. Ponto final e “fim”.
“A idéia do menino era simples, ainda que inconsistente, e se Shakespeare não fosse um homem, mas uma mulher? Miss Wilma Shakespeare. Mas este garoto, como já dito, era cheio de idéias e não tardou a mudá-la. Não, espere! Não uma mulher, e se Shakespeare fosse um caçador de histórias?” De onde veio isso? Escreva e surpreenda-se.
Escrever é como ser um leitor privilegiado de algo que não foi publicado. Você se sente como o primeiro leitor, não como um escritor deveria sentir-se. Não há controle. Eu mesmo achava que esta história seria bem diferente do que está sendo. E ainda não sei pra onde ela vai, como acaba ou porque está me forçando a escrevê-la assim - “O menino deixou ‘Sonho de uma Noite de Verão’ de lado, pegou um lápis com uma ponta meio quebrada, o qual prontamente afiou com seu canivete preto, e começou a rabiscar. Não sabia para onde estava indo, por isso começou com ‘William Shakespeare trabalhava em uma biblioteca. Mas não era uma biblioteca comum, onde os livros se comportam como tal, esperando para serem retirados, lidos e, eventualmente, devolvidos ou extraviados. Não, não. William trabalhava em uma biblioteca especial, onde histórias desvencilhavam-se das páginas, caiam da estante e interagiam umas com as outras, formando novas histórias, de modo que não era incomum o improvável Tom Bombadil cruzar com o malandro Tom Sawyer e aprontar muitas confusões. Will chamava aquilo de ‘O Teatro das Histórias’. Certo dia...” - disse antes “me forçando a escrevê-la assim”, porque não me deixou dormir de jeito nenhum. Ela estava lá, sentada, me olhando sem piscar os olhos. Precisei sair da cama às 2h da manhã e ligar o computador, só pra sentar na frente dele, escrever algumas poucas palavras sem nexo durante meia hora de constrangida página branca e desistir. E, claro, ao tentar dormir sem escrevê-la, lá estava a história de novo pulsando em preto e branco quando eu fechava os olhos, de modo que precisei voltar ao computador. Parece que está é uma das difíceis, que brinca com a gente até que esteja satisfeita, obrigando-nos a rearranjar coisas, reescrever trechos, adicionar, subtrair e até inverter a ordem das coisas.
Mas eu imploro, não as entenda mal, elas não o fazem por maldade. Nem por bondade tampouco. Histórias não são propriamente malignas ou benignas. Histórias não têm moral. Histórias não buscam a redenção. Histórias não estão nesse pela fama, dinheiro ou garotas bonitas - ainda que um bocado de histórias sejam sobre fama, dinheiro e garotas bonitas. Histórias são assim apenas porque é de sua natureza serem contadas, assim como é da nossa natureza escrevê-las. Histórias não pedem muito, apenas que as coloquemos no papel.
“Como acaba a história do menino? Eu não sei. Talvez algum dia a história se conte e ele consiga saber também.”
maio 03, 2007
O que é a felicidade?
De todas as formas obscuras e extravagantes que tentei alcançar a felicidade, nenhuma foi mais estranha e esclarecedora do que esta que lhes narrarei adiante (salvo a história do mamão sem sementes, que não conta):
Quando eu era um monge coringuista (sim, pois na minha juventude fui monge coringuista, o que deixei de ser no exato momento em que meu bastão de orações deu a primeira estocada no Buda que há entre as pernas de cada mulher), queria estudar no Tibet. Como não tinha dinheiro para a viagem, comuniquei que iria nadar até lá. Consegui chegar no Tibet. Óbvio que não fui nadando, graças a esse matreiro estratagema, minha família vendeu um rim do meu pai e eu consegui a tão sonhada viagem ao encontro do meu destino - a felicidade do templo grão-coringuista.
O templo ficava no alto de uma montanha, tão alto, mas tão alto, que não dava pra a base da montanha quando se estava lá em cima, já que o templo ficava acima das nuvens. Eu estava tendo minhas aulas na base, que era o lugar para quem sabia que nada durava, tudo passava, etc, etc, mas não sabia pitiba de dharma e o cacete.
Numa das minhas aulas, perguntei ao chinês zarolho “o que é felicidade?”, ele me deu na cabeça com um cabo de vassoura, foi aí que eu disse “o que é felicidade, MESTRE?”. O china doido e muito vesgo me disse:
- Him Zá Xê Môu Cuá Má Má Ma Mâ Mã Mah. - apontando para o topo da montanha.
Meu chinês não era muito bom, desta forma interpretei o sinal dele como “suba até a montanha, pequeno gafanhoto, e lá descobrirá o que é a felicidade zen-coringuista”.
Acontece que o que eu jamais mencionei - confesso, para efeitos dramáticos - é que a montanha era conhecida como “Trituradora de Turistas”, pois muitos tentavam chegar ao seu cume, mas muito poucos sequer conseguiam chegar perto dele e manter a vida, tantos eram os obstáculos tenebrosos, armadilhas extravagantes e azar tremendo dos incautos que se aventuravam na longa subida.
Passei nove dias escalando a montanha, comendo escorpiões, tirando leite de pedra e dormindo de ponta-cabeça (sem nenhum motivo). Acabado, esfarrapado, escangalhado, triturado, sangrando, babando, revirando os olhos, vendo coisas, fedendo, suando, perdendo cabelos, congelando, finalmente cheguei nas portas do meu destino: o grande portão branco dos grão-coringuistas.
Juntei o máximo que pude das forças que me sobraram, podendo no máximo arranhar a porta para que alguém a abrisse. O grande portão branco, medindo cerca de 80 metros de madeira talhada vermelha (não sei porque o chamam de “portão branco”, ainda que “grande” seja um adjetivo que o descreve parcialmente), começou a ranger, abrindo-se lentamente. Rastejei para dentro do templo, faltava pouco para cumprir o desafio e encontrar o grão-mestre coringuista. Olhei adiante e ainda faltavam uns 100 metros para o trono do mestre, com os antebraços esfolados, fui arrastando-me pela areia fina e grudenta do chão do templo. Cada centímetro que avançava parecia dilacerar algum músculo que eu não fazia idéia da existência até escalar aquela maldita montanha.
Entre eu e o mestre, uma eternidade se passou até que eu rastejasse de A até B, ou talvez eu tenha desmaiado algumas vezes, o que explicaria porque às vezes estava chovendo, outras tinha sol e outras ainda eu podia ver a lua. Mas, uma hora ou outra, uma semana ou outra, acabei chegando aos pés do mestre. Olhei pra ele com cara de quem havia sido pisoteado por uma manada de búfalos (o que realmente havia acontecido na subida da montanha, o que é um lugar deveras estranho para uma manada de búfalos selvagem). Consegui esticar minha mão hesitante, tremendo, até o “lençol engraçado” que o mestre-zen usava, pela primeira vez olhei pra cima e pude ver seu rosto, tinha uma longa barba branca, sobrancelhas grossas, igualmente brancas, e sorria bondosamente para mim. Naquele momento tive certeza que um raio de sol iluminava-o particularmente. Ele disse, sua voz soava como algodão doce:
- O que deseja, meu filho?
- Mes...tre... eu.... quero saber.. saber... o que é a... felicidade?
Primeiro ele parou de sorrir, me olhou sério, depois sua boca se abriu levemente, começou a sorrir, o sorriso virou risada e a risada logo se transformou numa gargalhada que ecoava por todo o tempo. Após uns 5 minutos, suas gargalhadas foram diminuindo, até que conseguiu dizer, sem esconder o sorriso de quem estava prestes a explodir de risos novamente:
- Vocês ocidentais são uma piada, atravessam meio mundo, escalam uma montanha especialmente projetada para não ser escalada, só para descobrir que a felicidade não está em nenhum lugar, mas sim dentro de si próprio.
E continuou a gargalhar.
-
Este texto faz parte de ABSOLUTAMENTE NADA, mas a conversa foi puxada pelo Cabala 1001. Confira outros pensamentos ali mesmo.
Quando eu era um monge coringuista (sim, pois na minha juventude fui monge coringuista, o que deixei de ser no exato momento em que meu bastão de orações deu a primeira estocada no Buda que há entre as pernas de cada mulher), queria estudar no Tibet. Como não tinha dinheiro para a viagem, comuniquei que iria nadar até lá. Consegui chegar no Tibet. Óbvio que não fui nadando, graças a esse matreiro estratagema, minha família vendeu um rim do meu pai e eu consegui a tão sonhada viagem ao encontro do meu destino - a felicidade do templo grão-coringuista.
O templo ficava no alto de uma montanha, tão alto, mas tão alto, que não dava pra a base da montanha quando se estava lá em cima, já que o templo ficava acima das nuvens. Eu estava tendo minhas aulas na base, que era o lugar para quem sabia que nada durava, tudo passava, etc, etc, mas não sabia pitiba de dharma e o cacete.
Numa das minhas aulas, perguntei ao chinês zarolho “o que é felicidade?”, ele me deu na cabeça com um cabo de vassoura, foi aí que eu disse “o que é felicidade, MESTRE?”. O china doido e muito vesgo me disse:
- Him Zá Xê Môu Cuá Má Má Ma Mâ Mã Mah. - apontando para o topo da montanha.
Meu chinês não era muito bom, desta forma interpretei o sinal dele como “suba até a montanha, pequeno gafanhoto, e lá descobrirá o que é a felicidade zen-coringuista”.
Acontece que o que eu jamais mencionei - confesso, para efeitos dramáticos - é que a montanha era conhecida como “Trituradora de Turistas”, pois muitos tentavam chegar ao seu cume, mas muito poucos sequer conseguiam chegar perto dele e manter a vida, tantos eram os obstáculos tenebrosos, armadilhas extravagantes e azar tremendo dos incautos que se aventuravam na longa subida.
Passei nove dias escalando a montanha, comendo escorpiões, tirando leite de pedra e dormindo de ponta-cabeça (sem nenhum motivo). Acabado, esfarrapado, escangalhado, triturado, sangrando, babando, revirando os olhos, vendo coisas, fedendo, suando, perdendo cabelos, congelando, finalmente cheguei nas portas do meu destino: o grande portão branco dos grão-coringuistas.
Juntei o máximo que pude das forças que me sobraram, podendo no máximo arranhar a porta para que alguém a abrisse. O grande portão branco, medindo cerca de 80 metros de madeira talhada vermelha (não sei porque o chamam de “portão branco”, ainda que “grande” seja um adjetivo que o descreve parcialmente), começou a ranger, abrindo-se lentamente. Rastejei para dentro do templo, faltava pouco para cumprir o desafio e encontrar o grão-mestre coringuista. Olhei adiante e ainda faltavam uns 100 metros para o trono do mestre, com os antebraços esfolados, fui arrastando-me pela areia fina e grudenta do chão do templo. Cada centímetro que avançava parecia dilacerar algum músculo que eu não fazia idéia da existência até escalar aquela maldita montanha.
Entre eu e o mestre, uma eternidade se passou até que eu rastejasse de A até B, ou talvez eu tenha desmaiado algumas vezes, o que explicaria porque às vezes estava chovendo, outras tinha sol e outras ainda eu podia ver a lua. Mas, uma hora ou outra, uma semana ou outra, acabei chegando aos pés do mestre. Olhei pra ele com cara de quem havia sido pisoteado por uma manada de búfalos (o que realmente havia acontecido na subida da montanha, o que é um lugar deveras estranho para uma manada de búfalos selvagem). Consegui esticar minha mão hesitante, tremendo, até o “lençol engraçado” que o mestre-zen usava, pela primeira vez olhei pra cima e pude ver seu rosto, tinha uma longa barba branca, sobrancelhas grossas, igualmente brancas, e sorria bondosamente para mim. Naquele momento tive certeza que um raio de sol iluminava-o particularmente. Ele disse, sua voz soava como algodão doce:
- O que deseja, meu filho?
- Mes...tre... eu.... quero saber.. saber... o que é a... felicidade?
Primeiro ele parou de sorrir, me olhou sério, depois sua boca se abriu levemente, começou a sorrir, o sorriso virou risada e a risada logo se transformou numa gargalhada que ecoava por todo o tempo. Após uns 5 minutos, suas gargalhadas foram diminuindo, até que conseguiu dizer, sem esconder o sorriso de quem estava prestes a explodir de risos novamente:
- Vocês ocidentais são uma piada, atravessam meio mundo, escalam uma montanha especialmente projetada para não ser escalada, só para descobrir que a felicidade não está em nenhum lugar, mas sim dentro de si próprio.
E continuou a gargalhar.
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Este texto faz parte de ABSOLUTAMENTE NADA, mas a conversa foi puxada pelo Cabala 1001. Confira outros pensamentos ali mesmo.
abril 01, 2007
O que é o Amor?
Amor é uma idéia. E como todas as idéias, anda por aí vestindo sua beca favorita. Você pode encontrá-lo em diversos lugares, sacudindo sua bengala pra lá e pra cá enquanto assovia as melodias feitas por outrem em homenagem a ele. O Amor veste-se geralmente com um terno cinza, usa chapéu coco combinando, tem um óculos escuro que lhe cobre totalmente os olhos e, como já dito, ostenta uma divertida bengala com um coração na ponta que sacode pra lá e pra cá.Alguns dizem que ele é fofo, outros que é cruel, outros que é afetado, outros que é invenção da mídia, outros que é tarado, outros que é injusto. Há ainda aqueles que acreditam piamente que ele não existe e que tudo não passa de outra coisa. Mas, no fundo no fundo, todo mundo conhece o Amor uma hora ou outra. E o mais incrível é que mesmo todo mundo conhecendo-o, cada hora se tem uma opinião diversa do sujeito.
De repente você está lá, comprando frutas na feira, e ele passa, assoviando “what a beautiful world”. Quando você vê, aquele melão esperto que você estava apalpando é automaticamente transformado nos melões daquela gostosa ali do lado e, paff, você conhece o Amor e está louco pra trepar com aquela melãozuda. Mas, apesar do terno simpático, Amor pode ser realmente encontrado em tudo quanto é canto, até em lugares potencialmente não-amistosos para um sujeito de terno, como o necrotério - por certo tu nunca ouviu algo sobre um sujeitinho que chamou na necrofilia ao olhar aquela beldade pálida esticada sobre a mesa com um buraco de bala no peito?
Culpa do Amor.
O amor está por tudo. Love’s in the air. Ou até mesmo na ausência de ar. Tá ligado aquela astronauta malucona que cruzou os Estaites sem parar, dirigindo seu conversível usando uma frauda geriátrica, pra meter bala na mulher de seu amante? O amor faz isso com as pessoas. A astronauta, por exemplo, viu estrelas, com o perdão do trocadilho infame.
Uns dizem que o Amor é grande, quase um gigante, outros que é pequeno, mas jamais houve alguém que dissesse que não era nem grande, nem pequeno, mas sim médio. Se não parecer nem uma coisa tampouco outra, com certeza é o irmão mais velho do Amor quem você está vendo. Ele veste-se de forma muito parecida, mas se comporta de maneira ligeiramente diversa, chama-se Amizade e é um tremendo dum parceria kid, ainda que seja bem menos wild que seu irmão do meio, afinal, a idade lhe trouxe serenidade. Também não podemos confundir o Amor com a irmã mais nova da família, a Paixão, uma jovenzinha rebelde, cheia de vivacidade e que não mede as conseqüências de coisa alguma. Natural a pequena e intensa Paixão ser assim, além da idade que lhe falta, sente muito ciúme de seus irmãos mais velhos e tenta de toda forma se parecer com eles, usando inclusive um terno masculino muito parecido com o de seu irmão do meio, porém todo rasgado a moda punk e customizado a la emo. Aquela vez em que você estava pela primeira vez com a melãozuda pulando sobre o seu pau e sentiu que Amor de repente adentrara o quarto, bem deves saber que muito provavelmente você se confundiu, afinal estava meio bêbado, pois devia ser a irmã mais nova, com seu traje maluco, que assoviara “love hurts” no seu ouvido enquanto o gemido da melãozuda vinha em um crescente absurdo até silenciar por completo.
Por essas é outras que não se pode ter uma opinião apenas do Amor. Ele se veste sempre igual, assovia amistosamente, mas nunca se sabe quando sua bengala sacolejante vai lhe atingir os ovos em cheio, te fazendo beber litros de cerveja e vomitar por quilômetros a fio em busca da mulher amada. É, parceiro, aquela melãozuda nem sempre é o que parece quando o Amor está na área. De repente, como todo repente, o Amor dá o fora depois do jantar, no melhor estilo cachorro magro, e tudo vai pelos ares: a Melãozuda te conta que o problema não é você, é ela. É aí que você recebe a visita da turma que às vezes acompanha o Amor: a Raiva (uma ruiva fenomenal, diga-se), a Tristeza (malditos emos), o Pé-na-Jaca (um deus menor que por aqui é conhecido como Jeremias do YouTube), o Ciúme (uma criança birrenta que sempre pede por atenção), entre outros tantos - como se pode ver, o Amor não conhece aquela velha máxima “antes só que mal acompanhado”, pra falar bem a verdade, o Amor ignora totalmente qualquer outra coisa que não ele próprio. Tente dizer pra um crente que ama a seu deus que o pastor usa a grana que ele doa para comprar veículos de comunicação e carros esporte, o crente vai usar um dos acessórios mais quentes do Amor, seu óculos escuro que nada vê que não o que está na própria mente. Amor é um sujeitinho muito matreiro, cheio de truques, não se pode falar mal (a sério) do Amor. Desista.
Apenas esteja preparado para dar aquela gingadinha esperta quando ouvir o doce assovio.
-
Este texto faz parte de um Carnival que tenta definir o que é o amor.
Veja o que os outros acham visitando este link.
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