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fevereiro 25, 2013

Sobre a vida

Em que meu filho pergunta sobre a vida e eu me viro para explicar.

Meu filho e eu estávamos tomando uma daquelas gororobas de cores berrantes, geladas e açucaradas que se encontram em postos de gasolina de beira de estrada e certos parques de diversão. Sofia, minha esposa, abastecia o carro. Era um daqueles postos onde self-service (porque autosserviço parece o trabalho feito em uma oficina mecânica) era a regra. A nossa volta, além do posto e da loja de conveniência, não havia nada além da autoestrada, terra vermelha e um que outro arbusto seco. O céu estava avermelhado por conta do sol chegando ao horizonte. Um caminhão solitário estava parado embaixo da única árvore do posto.

Entre um gole e outro da gororoba colorida, eis que meu filho me perguntou: - Pai, quem inventou a vida?

Sorri. Crianças... sempre com as perguntas certas. – Filho, eu não sei quem inventou a vida. Uns dizem que foi deus, outros que foi ala, outros dizem que não sabem, outros ainda dizem que foi uma reação química. Tem até quem diga que fomos trazidos por habitantes de outros planetas.
- Como pode ser tantas respostas diferentes?
- Filho, não é porque alguém diz que sabe algo que aquilo é verdade.
- Então eles mentem que sabem?
- Não, não, pelo contrário. Eles acreditam que sabem. Mas ninguém tem realmente certeza. E você devia desconfiar de quem tem muita certeza.

Ele pareceu refletir sobre o assunto, mas não se deu por vencido: - Se ninguém sabe mesmo, então pra que serve a vida?

Agora foi a minha vez de pensar. – Sabe filho, a vida é como esta estrada aqui. A gente pode parar para abastecer ou tomar uma gororoba destas...
- Slurpies. - interrompeu ele.
- O quê?
- Slurpies é o nome do que estamos tomando.
- ...certo, podemos parar para abastecer, beber... slurpies... checar os pneus, trocar o óleo, porém não se pode ficar parado o tempo todo.
- Por que não?
- Ora, você quer viver aqui neste posto de gasolina?

Ele balançou a cabeça em negação.

- Pois então. Na vida, a gente tem que continuar pra frente. Também é preciso saber para onde você vai. Porém, mesmo sabendo qual é o seu destino e o caminho pra chegar lá, é importante que se aproveite a viagem.
- Eu estou cansado de viajar.
- Por isso paramos para tomar esta goror... slurpie.

Ele assentiu entre um gole e outro.

- É importante aproveitar a viagem, olhar bem à volta o que pode haver de interessante, porque às vezes quando chegamos ao destino, ele já nem é tão interessante quanto você pensou que fosse. No fim, o destino é só uma desculpa para a viagem. A vida é uma estrada. E a estrada é a vida.

Ele pareceu confuso.

- O que eu quero dizer é que você deve aproveitar o momento, mas sempre andar para frente. É necessário parar para abastecer, mas você não pode ficar parado o tempo todo. Nem por muito tempo.
- Mas você não respondeu pra que serve a vida.

Garoto esperto.

- Pois a vida serve pra isso. - abri os braços sinalizando a nossa volta - para viver. Aproveite a viagem, pois a viagem é o objetivo da vida.
- Hmmmm. E quem não viaja não vive? Zumbis viajam em hordas de zumbis e são mortos-vivos.
Eu tive que rir. - Viagem é modo de dizer. Você não precisa viajar para viver, mas você tem que viver a sua vida como se fosse uma viagem. Você deve avançar e evoluir, não deve ficar muito tempo parado no mesmo lugar e, acima de tudo, deve saber que tudo passa, como a paisagem pelo vidro do carro.

Ele pensou um pouco e eu continuei:

- Lembra como você chorou quando a nossa gatinha não voltou mais pra casa?

Ele concordou com a cabeça.

- Pois bem, você está chorando agora?
- Não. Mas eu gostaria que ela não tivesse sumido.
- Eu também, filho, eu também. Eu gostava da Diná também... bom, menos quando ela me acordava miando às 5 da manhã. Mas o que eu quero dizer é que a tristeza é temporária. A felicidade também. As pessoas passam na sua vida, como outros viajantes que param nesse posto. Algumas vão com você até certos lugares, como aquele mochileiro que deixamos pra trás. Mas no fim, tudo é passageiro. Você deve aproveitar o máximo da vida, porque o que é agora muda a todo momento.
- Mas e as pessoas que a gente gosta? Eu não quero que você e a mãe se vão.

Abracei meu filho puxando ele pra perto de mim, enquanto meus olhos cruzaram com os olhos da Sofia, que olhava para nós com as mãos na cintura e um sorriso no rosto. - Filho, nós tentamos manter as pessoas que a gente ama por perto, nem que precisemos desviar um pouco do caminho para que continuemos companheiros de viagem.

Levantei pegando meu filho pela mão. Estava na hora de continuar a viagem.

fevereiro 07, 2008

Sobre teóricos da conspiração e pseudo-subversivos

No qual desvendo uma conspiração em nível mundial que, dentre outros efeitos, prejudicaria a candidatura de Barack Obama. Porém não faço nada sério a respeito.

- É subversivo ou não é? - Alex sorriu confiante.
- Subversivo?
- É.
Depois de um breve suspiro em que também desviei o olhar de Alex, sentenciei: - Não é não, cara. Até o Brad Pitt já fez isso.
- Que que tem o Brad Pitt? - disse ele incrédulo.
- Não é o Brad Pitt, Tom Cruise ou o Papa, Alex. O lance é que se alguém já fez, não é mais válido como subversão, é imitação.
- Você quer dizer que minha idéia não é subversiva só porque um idiota a botou em prática em um filme?
- Não, não é nada disso. Quer dizer, em parte não é nada disso. Escuta, Alex, olha bem pra mim e presta atenção - enquanto dizia isso, aproximei o indicador e o dedo médio dos meus dois olhos, enfatizando o que dizia. - veja esse jornal, por exemplo, o que você vê? Só violência e corrupção, que trata-se também de violência indireta. Por que seria subversivo criar um “clube da luta” aqui? Nós já temos violência o suficiente, saia na rua e veja, homem!
- Mas é subversivo!
- Não é não. Ghandi é subversivo. Jesus é subversivo. Na sociedade totalitária e maluca de hoje, só a paz é subversiva.
- Eu não quero acabar pregado numa cruz.
- Pst, maldita juventude anos 2000. Só quer os louros da guerra, mas na hora de tomar um tiro no rabo fica reclamando. Escuta - parei hesitante - subversivo é o que os Estados Unidos vêm fazendo desde 2001 para o Obama.
- Obama? O candidato dos democratas?
- O candidato à candidato dos democratas.
- Isso, o negão aquele...
- É, esse mesmo. Não percebeu a tramóia?
- Tramóia? - Alex inqueriu-me.
- É! Obama é quase igual a Osama. Aquele mesmo, Osama Bin Laden. O tiozão das torres.
- Bom, agora que você falou, até que é parecido com Osama.
- Claro.
- Mas e daí?
- E daí que os estados-unidenses dominam há décadas a mídia de massa, os caras sabem como martelar idéias dentro da frágil mente do estado-unidense médio. Eles subverteram tudo. Esse lance de culpar Osama Bin Laden pela queda das torres gêmeas, isso era só pra martelar o nome “Osama” na mente das pessoas durante todos esses anos, pra quando chegasse a vez do Senador saidinho Barack Obama, ele sofresse as conseqüências dessa ligação.
- E o que eles ganham com isso?
- O Obama teria muito mais dificuldade pra se eleger, afinal, a ligação Obama com Osama é óbvia e certamente todo mundo faria. Só aí os Republicanos teriam uma chance de eleger seu candidato e chutar o rabo dos democratas por mais 4 anos.
- Não seria mais fácil matá-lo?
- Bom, eles são muito espertos. Matam o Obama e um outro negão surge e se elege. Não funcionaria. Se bem conheço os Republicanos, eles derrubariam suas próprias torres, culpariam um barbudo qualquer com olhar alucinado e que balbucia coisas em uma língua que ninguém entende direito e tocariam o horror no Oriente Médio, para sair do atoleiro econômico. Todo mundo sabe que a guerra dá grana pros Istaites ov América. Assim eles venderiam armas, ganhariam o petróleo, sodomizariam o Sadam, encheriam o saco de um árabe barbudo, abririam espaço pra um novo shopping center no lugar daquelas torres idiotas e, de quebra, acabariam com as chances de um negão assumir a presidência.
- Tudo isso pra impedir um negão de ser presidente?
- Claro! Nazismo americano, típico dos reacionários republicanos.
- Sabe, você deveria escrever um livro.
- É, eu sei.
- E por que não tenta?
- Eles me pegariam.

outubro 04, 2007

Sobre ordens secretas e rituais bizarros

No qual livro o mundo de sua destruição total (sem querer) usando nenhuma roupa e com um problema que nunca me aconteceu antes. Repito: nunca me aconteceu antes, ok?

Se o homem não tivesse sido curioso o suficiente para ver o que aconteceria se colocasse seu instrumento em uma mulher que dava sopa ao recolher algo no chão, é provável que não estivéssemos aqui até hoje. A curiosidade sempre moveu o mundo. Bem, a curiosidade e o movimento de rotação e translação. Mas é da curiosidade que estou falando agora – porém em breve o eixo de rotação e translação também entrarão na jogada.

Aproveitando-se da curiosidade natural dos humanos, as sociedades secretas angariam diversos seguidores dia após dia. “Afinal, o que há em uma reunião de pessoas em sociedade?”, “Ó, é algo terrivelmente misterioso”, dizem os asseclas da sociedade secreta. - e logo logo você estará curioso para saber qual o aperto de mão secreto que usam para se reconhecer ao redor do mundo e, voilá, você é parte da sociedade secreta só por ser curioso demais.

Foi o que aconteceu comigo.

Ok, mas aí você poderia simplesmente conhecer o segredo e sair fora, certo? Errado, os caras não são amadores, há segredos dentro de segredos. Quando lhe é revelado um segredo, surge outro para lhe encafifar e fazer você continuar se movendo na hierarquia secreta da ordem. “Bom, isso não pode durar pra sempre”, pensei, “uma hora ou outra vão ter que me revelar o supersegredo”, então para isso me dediquei afu para avançar nas fileiras hierárquicas da Secreta Ordem Secreta e Discreta dos Lapidários da Pirâmide. Aprendi sobre as pirâmides maias, egípcias, brasileiras, japonesas, aprendi sobre as linhas de Ley, sobre o poder dos sólidos de Platão, sobre como escolher o lúpulo certo para fazer uma sagrada cerveja, enfim. Avancei tanto que não demorou nem 20 anos e lá estava eu atingindo o grau de Venerável Paladino Triangular do Mestre da Torre de Babel Norte.

- Filho de Platão, Sacerdote das 3 pontas do Sagrado Triângulo, eu te concedo o grau de Venerável Paladino Triangular do Mestre da Torre de Babel Norte. Toma, pega teu venerável cinturão de Órion. - disse-me o Venerável Mestre da Torre de Babel Norte.

- Obrigado, ó Venerável Mestre, eu me sinto muito honrado. - disse eu, ajoelhado.

- Levanta-te, Venerável Paladino Triangular do Mestre da Torre de Babel Norte, você agora é um dos membros do Grandioso Círculo Triangular da Secreta Ordem Secreta e Discreta dos Lapidários da Pirâmide. És, agora, um de nós. Bem-vindo, irmão.

Levantei-me e trocamos o aperto de mão ritual secreto. Não demorou muito para que todos os outros irmãos da alta cúpula da ordem, os membros do Grandioso Círculo Triangular, que estavam presentes na cerimônia, me felicitassem com fraternos abraços secretos da ordem. Também não demorou nada para que colocássemos a Santa Carne no espeto e bebêssemos a Sagrada Cerveja de Hermes Trismegistus.

Enquanto bebericávamos e comíamos a carne picada como aperitivo, cheguei do lado do Venerável Mestre, já meio afetado pelo sacro excesso de cerveja, e perguntei-lhe sem muitas rodeios:

- E aí, mestre parceria, qual o segredo da ordem então?
- Ah, é o máximo você vai adorar. Ei, Paladino Carmesim do Fogo Encantado, nosso amigo Venerável Paladino Triangular quer saber o grande segredo. - Disse o Mestre abraçando-me com uma mão e chamando o Paladino Carmesim do Fogo Encantado, um sujeito alto e com uma espessa barba morena, com a outra. Este aproximou-se sorrindo e dizendo:
- Ah, a coisa toda é o máximo, o máximo. Vamos fazer o Grande Ritual quando as 28 constelações estiverem no alinhamento do Hexaedro Perfeito de Hermes, coisa que só acontece a cada 1 trilhão de anos.
- Ah, e quando será o próximo?
- Amanhã!
- Opa, que maravilha! Então tive sorte de ser promovido hoje, heim? - Respondi-lhes animado com a perspectiva de estar no Grande Ritual em um alinhamento tão bizarramente raro.
- Sorte não, amigo Paladino Triangular, sorte não, destino. - Disse-me em tom de mistério o Mestre.

Sorri para os dois e decidi investigar mais:

- E pra que serve esse ritual?
- Ritual não, GRANDE Ritual. - Me respondeu o Mestre, enfatizando o “grande”.
- Isso, isso, pra que serve esse Grande Ritual?
- Ora, para o que viemos nos preparando há trilhões de anos em nossa sagrada e venerável ordem.
- Que é?
- Não é óbvio? A destruição do mundo!
- Heim?
- Isso aí, parceiro, vamos destruir o mundo com nosso Grande Ritual. O Grande Ritual só é possível quando as 28 constelações estiverem no alinhamento do Hexaedro Perfeito de Hermes e você tem sorte, pois será amanhã e você representará o Bastão Filosofal de Matusalém no ritual.
- Heim? Eu?
- Tu, tu mesmo, Venerável Paladino Triangular do Mestre da Torre de Babel Norte.

Engoli em seco.

- E o que eu tenho que fazer?
- Muito simples. Na hora exata do alinhamento, você, que será o Bastão Filosofal de Matusalém, precisará transar com uma virgem de 18 anos, que representará a Mulher Escarlate.
- Como é, eu preciso transar com uma virgem?
- É.
- Olha, não é tão mal quanto eu pensei. Sabia que esse troço de ordem secreta teria que ser útil.
- Só tem um problema, amigo Venerável Paladino Triangular do Mestre da Torre de Babel Norte.
- Eu não faço fio terra não.
- Não é isso.
- Nem curto a merdofagia.
- Nós também abominamos essa prática, pois assim está escrito no Livro Marrom.
- Então qual o problema?
- Bom, você vai ter que tomar a virgem escarlate na mesa ritual de churrascos rituais.
- Eu até curto um sexo sobre a mesa, não é problema, Mestre.
- Bom, o problema não é a mesa, mas que todos nós vamos estar em volta, cantando a secreta e sagrada canção do acasalamento de júpiter e marte.
- Hm, vocês vão me ver peladão?
- É.
- Puxa, que droga. Mas é sério mesmo, o mundo vai acabar?
- É, vai.
- Como?
- O ritual pára o movimento de translação e rotação da Terra, em poucos anos tudo virará um caos e todo mundo morrerá.
- Puxa vida, mas que droga de fim para a vida na Terra. Se ainda fosse um inverno nuclear. Escuta, a virgem pelo menos é gostosa?
- Ô, é a própria Vênus.
- Bom, então eu topo, se é pra morrer, que seja com uma gostosa.
- Assim que se fala, irmão.
- Tá, tira a mão daí, o ritual é amanhã, Mestre.
- Ops, desculpe.

No dia seguinte, usando apenas meu venerável cinturão de Órion, adentrei a sala de rituais e lá estava, sobre a mesa, uma mulher gostosa de dar dó. Era jovem, tinha recém completos 18 anos, totalmente nua, pernas abertas, pequenina, toda mignon, mas com carne suficiente onde interessava, não tinha um pêlo no corpo, só os cabelos da cabeça. Aproximei-me, ela disse:

- Ó, Bastão Filosofal de Matusalém, a hora chegou, possua sua virgem, sou sua mulher escarlate.

Não disse nada, não sabia o que dizer. O Mestre sussurou:

- Você deve dizer “meu bastão quer conhecer você”.
- Quê?
- “Meu bastão quer conhecer você”. - sussurrou-me ela, entendida do assunto.
- Ah, meu bastão quer conhecer você. - disse.
- Venha aqui que eu lhe darei o sagrado boquete para que esteja preparado na hora correta.

Ela começou a me chupar. Apesar da vergonha terrível de estar nu no meio de um monte de malucos de uma sociedade secreta que cantavam entusiasmados, meu bastão começou a dar sinal de vida. Afinal, não há morto que não se levante com uma boa chupada. Eu olhava o cronômetro digital gigante na parede, seus números decresciam, segundo por segundo, ali dizia que faltavam 10 minutos e 36 segundos para o momento da cópula, cujo alinhamento das costelações, que só se repetiam a cada 1 trilhão de anos, proporcionariam o fim do mundo. A virgem continuava me chupando, nessa altura já estava numa nice, até que senti uma fisgadinha no meio do “bastão”.

- Ops - pensei - agora não, ainda faltam, 10 minutos. A menina estava fazendo um bom trabalho, talvez bom de mais para uma virgem. O relógio parecia não andar. Ó, meu deus, 9 minutos e 44 segundos. 9 minutos e 29 segundos. 9 minutos. 8 minutos e 55. 5 minutos e 10 segundos. 1 minuto. 45 segundos. Ai ai ai, socorro, passa tempo, passa tempo.

Faltando 10 segundos para o abate ritual final, de repente a virgem engasgou, se afastou de mim e começou a cuspir.

- O que houve? - perguntou o Mestre para mim.
- Ahn... sabe... problemas.
- Que problemas, homem?
- É que eu fiquei nervoso com toda essa gente olhando e o tempo correndo.
- E daí?
- Ahn... ejaculação precoce.

julho 23, 2007

Sobre mestres e aprendizes

No qual salvo a humanidade da mais poderosa arma já concebida apenas usando uma espécie de vestido engraçado laranja.

Eu estava certo de que queria dar um propósito maior a minha vida. Bem, certo, certo também não estava tanto assim. Não era como um jogador de pôquer com um par de ases na mão e outros dois na mesa, mas achei que dava ao menos para o blefe. Mas como poderia arranjar um propósito maior para minha vida? Começaria com coisas simples, como desapegar-me da matéria, consumir apenas o necessário e salvar a humanidade de si mesma.

O primeiro, desapegar-me da matéria foi bastante complicado, visto que eu mesmo sou matéria e o suicídio não era lá uma boa opção em se tratando de achar um propósito “maior” para qualquer coisa, principalmente para a “vida”. O segundo ato, consumir apenas o necessário, foi muito mais fácil, mais até do que eu pensava. Pra mim é necessário strogonoff todo dia e livros e mais livros. Ponto pra mim. Mas pra dizer bem a verdade esse não mudou muito o rumo da minha vida. Talvez houvesse algo que me escapasse, mas eu não parecia sequer ter uma pequena bússola para o sentido da vida. Então joguei todas as fichas no terceiro item da minha lista de coisas simples a fazer para dar sentido à vida: salvar a humanidade de si mesma.

Primeiro pensei em acabar com a humanidade. Extermínio mesmo. Mas não recorreria há estratagemas manjados, como desertificação ou cobrir a luz do sol. Sempre tem um idiota que consegue descobrir como viver no deserto ou a 90 graus negativos. Tampouco recorreria à massificação de um vírus mortal. Se nem AIDS, ebola, gripe aviária e, não esqueçamos, lepra, peste bubônica, tuberculose, sífilis e toda sorte de doenças esquisitíssimas que te fazem sangrar pelos ouvidos conseguiram nos matar em número suficiente, pouca coisa conseguirá a não ser nós mesmos. O plano que concebi era simples: distribuir bombas para os terroristas invocados, distribuir outras bombas para os caras que os terroristas acertassem, distribuir outras bombas para todos aqueles que estão no meio do caminho das bombas e uma hora ou outra todo mundo ia se matar. Para os pacifistas crônicos ainda teria a opção de se mudarem para o “Recanto Mágico”, abrigo utópico antibombas que criaria, onde só se pode falar esperanto e cujo ingresso seria a esterilização obrigatória. Se eles não se matassem por serem pacíficos demais (todo mundo sabe o quão irritante pode ser alguém que não quer brigar por nada desse mundo e dar uma de Gandhi, sofrendo as conseqüências de eventual Mahatma), morreriam uma hora ou outra por não poderem se reproduzir. Apesar de simples, o plano não era lá muito viável. Sabemos da habilidade baratesca que nós humanos temos de sobreviver. Além disso, salvar a humanidade de si mesma sugeria qualquer outra coisa que não matar todo mundo.

Então decidi que o caminho a seguir seria a iluminação. Como não levava nenhum jeito com eletricidade, busquei um lugar onde era possível ascender espiritualmente. Não tardou para que um desses monastérios tibetanos do Tibet me chamasse a atenção. O site era meio obscuro - me parece que monges budistas não são lá muito ligados na arte do webdesign - mas bastante claro quanto ao sentido de sua existência: proteger a humanidade de um troço muito, mas muito cabuloso mesmo.

Parti para o Tibet.

De cabeça raspada e um manto laranja, que no início se acha meio esquisito, mas no fundo era deveras refrescante, eu treinava dia e noite as artes do kung fu secreto dos monges budistas de Ékekéquêtápunquê. O mais impressionante é que eu não era o único ali. Havia zilhões de outros estudantes, de todas as nacionalidades, todos fazendo os movimentos secretos do kung fu secreto. Diziam até que Bruce Lee havia, secretamente, treinado ali. Por isso os monges o mataram quando ele resolveu espalhar o segredo nos filmes e tudo mais. Grande erro, Bruce, nunca espalhe o segredo de alguém que possui zilhões de asseclas kung fu por aí.

Os anos passaram e eu fui avançando na hierarquia do grande mosteiro kung fu Ékekéquêtápunquê, até que cortar garrafas ao meio apenas com o olhar ou derrubar 300 homens com apenas um cuspe já não eram mais um segredo pra mim. A única coisa que não me era revelada era por que diabos fazíamos aquilo. Quer dizer, você já pensou porque um mosteiro budista nas conchinchinas teria zilhões de sujeitos de cabeça raspada e vestido laranja treinando incessantemente kung fu a ponto de fazer coisas que deixariam com vergonha todos esses Newtons e Einsteins e suas bobas “leis” da física? Eu pensava nisso direto. Só com os estudantes dali poderíamos começar - e vencer - a terceira guerra mundial.

- Bom, caro monge de 78º grau, chegou o momento. - me disse o venerável mestre ancião. Não disse nada, apenas me mantive ajoelhado, de cabeça baixa. Ele continuou: - finalmente você está pronto para conhecer o segredo de Ékekéquêtápunquê. Você já se perguntou porque temos um exército tão poderoso de monges kung fu?
- Certamente, ó venerável mestre ancião.
- Pois precisamos desse exército pois aqui neste mosteiro está encerrada a mais terrível arma secreta. Se ela cair em mãos erradas, o mundo estaria perdido irreversivelmente.
- E qual é esta arma, ó venerável mestre ancião?
- Ó, é algo terrível.
- E o que é tão terrível, ó venerável mestre ancião?
- Ó, é algo terrível.
- Sim, isso já foi dito, ó venerável mestre ancião.
- Ó, é algo terrível.
- E?
- E eu esqueci.
- O QUÊ?
- Estou brincando. - e riu-se largamente o ancião mais mestre do mosteiro. Quando comecei a rir também, subitamente ele silenciou, como se me censurasse, e continuou em tom funesto:
- Não há graça, é realmente algo terrível. Nós somos os últimos guardiões das palavras de Ékekéquêtápunquê. As palavras de Ékekéquêtápunquê são tão terríveis que se forem pronunciadas, apenas em sussurro, partirão a Terra ao meio. Se forem gritadas, só Buda sabe, mas provavelmente destruiriam todo o universo.
- Nossa.
- Exatamente.
- E se ninguém pode dizê-las, como passam-na adiante, ó venerável mestre ancião?
- Muito simples, jovem gafanhoto do Nilo, nós as tatuamos no mestre do mosteiro.
- E?
- E então as protegemos com nossos zilhões de monges kung fu.
- Escuta, e o que o mestre faz com as palavras de Ékekéquêtápunquê?
- As guarda.
- Sim, sim, sim, eu entendi essa parte, mas não há utilidade nenhuma?
- Não, só precisamos guardá-las.
Meio constrangido falei: - Quer dizer que a milhares de anos vocês guardam isso, certo?
- Certo.
- E nós protegemos porque se caírem em mãos erradas, tudo vai pelos ares, certo?
- Certo.
- E se caírem em mãos certas, nada acontecerá, porque as palavras só servem para destruir tudo sem controle.
- Isso aí.
- ENTÃO POR QUE DIABOS NÓS GUARDAMOS ESSA DROGA POR MILHÕES DE ANOS, SEU VELHO IDIOTA?
Ele soçobrou: - Nunca tinha pensado nisso.
- Quer dizer que se a sua pele for destruída e ninguém mais ver essas drogas de palavras, o mundo estará salvo para sempre! E nem precisaremos de malditos monges kung fu, treinamento intensivo e aquela papa horrível do almoço!
Ele engoliu em seco, soltou um: - Hm, me fodi.

Naquela noite mesmo o mestre foi esfolado vivo, queimado, triturado, enterrado, dissolvido em ácido e dado para alimentar tubarões mutantes.

julho 12, 2007

Sobre pais e filhos

No qual desvendo o segredo da vida, do universo e tudo mais usando apenas um guardanapo de lanchonete (limpo) e uma caneta esferográfica.

Algumas pessoas preferem partir, outras preferem ficar. Eu havia escolhido partir há bastante tempo, mas nesses modernosos tempos de Skype, MSN, webcam e microfones a preço de banana, nunca me distanciei realmente do meu filho. Estivesse onde estivesse, sempre encontrava um cybercafé obscuro onde pudesse a cada 15 ou 20 dias falar com ele.

Desse modo estranho foi que vi ele crescer: as camisetas de banda, os estranhos cortes de cabelo, o piercing, a barba, cada hora me aparecia de um jeito o garoto. Acho que minha vida de nômade não atrapalhou tanto assim. Ambos tínhamos menos contato do que gostaríamos - ao menos eu sentia isso - mas tínhamos algum contato. E um contato de qualidade, diferente de muitas famílias que já vi por aí.

Tenho de dar o braço a torcer, a mãe dele foi boa comigo. Nunca me envenenou contra o garoto, mesmo criando-o sozinha desde os 3 anos. Acho que no fim foi melhor eu ter viajado o mundo e os deixado pra trás. Poupamos o guri de viver em uma casa em que os pais só estão juntos porque se odeiam tanto que é a forma mais segura de fazer o cônjuge o mais infeliz possível. Claro que no início não foi fácil, principalmente explicar para o guri porque o pai era um viajante louco sem rumo, mas acho que deu certo.

E aqui estou.

Ele com 18 anos e eu finalmente de volta à frente dele fisicamente. Não apenas um avatar virtual, mas eu mesmo. Conversamos sobre coisas agradáveis, compartilhamos algumas cervejas. Se os piercings dele e os meus grisalhos não destoassem tanto na mesa, pareceríamos mais amigos do que pai e filho. Mas que diabos, o que pai e filho deveriam ser se não amigos?

- Não puxei a você, eu jamais sairia pelo mundo sem rumo.
- Planos demais, filho, planos de mais.
- Eu não consigo viver sem planejar, pai. Eu preciso saber para onde estou indo e com que objetivo.
- Mas eu sabia pra onde estava indo e sabia sobretudo meu objetivo.
- Sabia?
- Claro. - dei-lhe o meu melhor sorriso, esperando que ele perguntasse quais eram. Como ele demorou demais, talvez por achar que eu o estava enrolando, continuei falando: - eu estava indo para onde o vento me levasse. Meu objetivo era conhecer o maior número de lugares e pessoas interessantes.
- Isso é aberto demais.
- É tão aberto quanto eu gostei que fosse.
- Não adianta, eu penso que deve haver um plano, algo maior. Eu planejo cada passo da minha vida, querendo atingir o máximo do meu potencial.
- Isso é impossível.
- Como impossível?
- Escute - peguei o copo de cerveja pela metade na mão - vê este copo? Que potencial você vê nele?
Meu filho sorriu ao dizer: - ser bebido e esvaziar-se.
- E se ao invés de esvaziá-lo, eu quiser enchê-lo? Ou se no lugar de bebê-lo ele caia no chão?
- E daí?
- Bom, significa que esse copo tem mais de um potencial e eles são antagônicos, não posso atingir o máximo do potencial do copo, pois alguns potenciais são auto-excludentes. O que eu quero dizer é que você tem potencial para ser um ativista do Greenpeace e salvar focas e bebês baleia, assim como tem o potencial de tornar-se um capitalista escroto explorador de pobres chineses.

O guri pareceu confuso, mas não se mixou:

- Ok, então eu quero atingir o máximo do potencial que eu quero.
- Não seria o bastante atingir o potencial máximo como ser humano?
- É isso que eu quero, pai.
- Com todos esses planos e metas de vida?
- Claro, se eu quero atingir um objetivo de vida, preciso planejar como alcançá-lo.
- Bom, ter um objetivo de vida e um planejamento não vai levá-lo até o máximo do potencial como humano.
- Como não?
- Filho, por que existem as árvores?
- São essencial para gerar algumas condições de vida na Terra.
- Ok, o potencial da árvore é ficar ali, nascer e morrer. Esse é o propósito dela.
- E daí?
- E daí que esse é também o propósito dos humanos.
- Viver como uma árvore?
- Não, viver. Apenas isso, meu filho.
- Isso não faz sentido. Deve haver um plano divino, não pode ser só ficar aqui e fazendo coisas.
- A vida não é fazer coisas. Viver é o segredo da vida.
- Sabe, eu não consigo achar isso lógico. Por que Deus criaria um planeta inteiro, cheio de intrincadas conexões de vida para só “existir”.
- Diga-me, filho, por que algumas vezes as pessoas boas morrem e as más vivem muito?
- Não sei.
- Exato.
- Exato o quê?
- Exato, não há lógica. Deus é amoral. Não há plano.
- Eu preciso de um sentido pra minha vida. Não haver um plano divino me dá medo.
- Você não entende, não é?
- Não.
- A ausência de um “plano” é o plano mais brilhante já concebido. Imagine se cada um dos mais de 6 bilhões de indivíduos por aí tivesse um propósito especial. Qual a chance de você nunca achar seu propósito e acabar fodendo tudo?
- Não sei.
- Gigante, filho. Gigante. Imagine a infelicidade de nunca achar seu propósito. Ou pior ainda, de descobrir que seu propósito é uma droga e você queria fazer algo diferente. Quer dizer, alguém teria de ter o propósito de ser lixeiro, isso seria uma tremenda sacanagem divina. Carpe diem, esse é o plano. É muito mais simples do que imaginamos todo o tempo.
- Mas precisa haver um sentido para a vida.
- Olhe isso: - peguei um guardanapo do suporte que ficava em cima da mesa e uma caneta que achei na minha mochila. Desenhei um círculo em cada ponta do guardanapo e tracei uma linha reta entre os dois. - escute, este círculo é o “nascimento” e esse outra “a morte”. A linha é a sua vida. Esse é o sentido. Do nascimento à morte.
- E daí, pai?
- E daí que tudo que você fizer nessa linha te levará por esse sentido. O sentido da vida é simplesmente viver até morrer. Por isso aproveite tudo que puder aproveitar. Se quiser procurar por um propósito maior, ótimo, busque. Vá ao Tibet, mude de religião, funde a sua própria, seja um jovem messias. Trabalhe, compre coisas, jogue tudo fora. Leia livros, assista TV, fique 1 mês sem se comunicar com ninguém. Ame enlouquecidamente sabendo que vai doer depois, traia, seja traído, volte rastejando aos pés dela, ou dele. Faça amigos, troque de amigos, reencontre-os só para descobrir que mudaram tanto que não podem mais sê-los. Faça inimigos se quiser também, mas saiba que as coisas são bem mais difíceis com eles. Conheça gente que nunca viu, vá a lugares que nunca foi. Viaje. Minta. Fale a verdade. Magoe. Perdoe. Corra. Ande. Caia. Levante-se. Não importa, realmente não importa. Apenas sinta-se bem com o que está fazendo. Esse é o único propósito de ser humano. O potencial humano de viver. Já ouviu falar em “Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei”?
- Mas não foi isso que ele quis dizer...
- Ah, filho, não tente entender Crowley. Nem ele mesmo se entendia.
- Quem?
- Aleister Crowley.
- Achei que quem tinha composto essa música era o Raul Seixas.
- Talvez seja melhor a gente pedir outra cerveja.