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dezembro 27, 2007

Lu

Uma mulher pode lhe tirar tudo, dinheiro, casa, carro, liberdade, paciência, seus filhos, a presidência dos Estados Unidos e até mesmo a sua alma.

Mas eu vivia em Vegas.

A princípio eu não tinha nenhuma dessas coisas.

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Aquela noite a Lady Sorte estava sentada bem ali do meu lado naquele cassino de luzes brilhantes, gente andando pra lá e pra cá feito baratas tontas, de mulheres bem vestidas e bebidas com bastante gelo. Toda vez que atirava os dados na mesa funda de feltro verde, todos os números que pedia rolavam obedientes para delírio da massa a minha volta e o desespero calado do crupiê. Eu nunca soube quando parar.

- Estamos com sorte hoje não?

Segurei os dados na mão e virei meu pescoço em direção a voz que havia sussurrado ao meu lado. Era uma mulher, pele cor de oliva, vestido vermelho, curto, decotado, bem maquiada, cabelos lisos e negros, olhos penetrantes de uma cor que eu não saberia descrever. Era magra, mas tinha corpo. Provavelmente tinha aquelas covinhas sobre a bunda, o “joystick”.

- Você é algum tipo de gerente que veio conferir qual o meu truque pra ganhar tantas vezes?

Ela riu satisfeita. - Eu apenas admiro aqueles que têm a sorte ao seu lado. Está ou não está com sorte?

Estendi a mão sobre a mesa, mais ou menos há uns quatro palmos de altura e abri os dedos para deixar com que os dados desajeitadamente caíssem sobre ela.

Os dados fizeram seu trabalho.

- O que lhe parece? - Sorri para ela rapidamente, recolhendo novamente minha pilhagem de fichas. Em Vegas você aprende a não dar mole para mulheres gostosas, articuladas e bem vestidas. Mulheres não têm sorte em Vegas, por isso elas precisam parasitar sobre nós. Agora não era hora de dar atenção a ela, eu estava ganhando. Mas quando começasse a perder, aí sim eu pararia e procuraria ela ou qualquer outra que estivesse disposta a ir para a cama por um trio de fichas de cem dólares. Afinal, para que alguém precisa de dinheiro em Vegas se não para pagar seu quarto de hotel, suas dívidas de jogo, sua bebida gelada e suas mulheres de orgasmo fingido?

Peguei novamente os dados. Eu nunca soube quando parar.

- Então, caubói, que tal uma aposta particular?

Eu nunca soube quando parar.

- Eu estou com muita sorte hoje, acho melhor você não tentar, pequena.
- Lu.
- “Lu” de Lúcia?
- De “Luz”.
- Apelido estranho.
- É meu nome de verdade. Meu pai é desses “paz, amor e harmonia”, roupa branca, simplicidade.
- Hippie?
- É, pode-se dizer que é por aí. Mas e a aposta particular?
- Estou com muita sorte, estou avisando.
- Eu sei, por isso estou querendo apostar, garotão.
- E qual é a aposta?
- Se eu perder, você me leva para o seu quarto e faz o que quiser comigo.
- E se você ganhar?
- Aí nós vamos pra capela mais próxima e um padre vestido de Elvis nos casa em nome do sagrado matrimônio, e aí você me leva para o seu quarto e faz o que quiser comigo.
- Quê? Ta doida?
- Olha pra minha cara, caubói, eu sou hispânica, chicana, preciso ficar legalmente aqui. Casar é uma ótima saída. Nós casamos e eu desapareço da sua vida até que a morte nos uma.

Ganhando ou perdendo eu faria o que quisesse com aquela morena estonteante, se tivesse sorte ainda ouviria uns gemidos em espanhol: “si, si, papacito”. Se ganhasse, eu levava o pacote sem nenhuma surpresa. Se perdesse a única coisa que mudaria na minha vida seria preencher os formulários de cartão de crédito com a opção “casado”. Pareceu-me um bom negócio. Além disso, eu estava com sorte. Aquela morena cruzando meu caminho e caindo no meu colo era só mais um sinal da Lady Sorte.

Segurei os dois dados com o indicador e o médio, enquanto o polegar servia como base e os levei até os lábios dela. Lu beijou os dados e eu os lancei com vigor sobre a mesa.

Eu nunca soube quando parar.

A continuação daquela fatídica noite foi de certa forma etérea. Flashes na minha cabeça: fiquei olhando para os dados, incrédulo. Lu apertando minha bunda e sorrindo. Um padre vestido de Elvis. Uma noiva vestida de vermelho. Um contrato assinado. Uma risada maligna. Uma trepada magnífica. Sono.

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Acordei.

Não era o meu quarto. Definitivamente não era meu quarto e nem o de ninguém. Estava no meio do deserto. Acima as estrelas, abaixo o chão e no centro só havia eu, estirado, nu. Minha cabeça estava zonza. Levantei-me com alguma dificuldade, minhas pernas ardiam, meus pulsos também. No chão, havia um círculo pintado de vermelho com algumas letras e desenhos esquisitões. Parecia um troço vodu ou sei lá o quê. Em qualquer outra situação, a primeira coisa que eu faria seria vestir-me. Não era do meu feitio andar pelado pelo deserto. Ainda mais no deserto de Vegas. Mas não havia sinal de roupas ou qualquer outro objeto, a exceção de um: um documento que lembrava brevemente um contrato, provavelmente uma certidão de casamento.

Peguei o documento para lê-lo na falta de qualquer coisa sensata a fazer. Nunca fui muito perspicaz para entender as coisas rapidamente.

Dizia ali que minha alma não era mais minha.

Minha assinatura estava ali, em vermelho sangue. Ao lado da minha, estava uma outra assinatura onde se podia ler claramente: “Lúcifer, o portador da luz”.

agosto 28, 2007

Sharapova

Assim como o lesbo-chic, se há algo que todo homem já fantasiou com alguma intrigada curiosidade ao ir ao circo é: que coisas malucas poderia eu fazer com uma mulher que pode dobrar as pernas por trás das costas até passar por cima dos ombros? Não há como resistir o pensamento. Bom, acredito eu que todo homem pensa isso. Pelo menos todo homem do circo pensa. Há uma intrincada relação hierárco-mulherística no circo, começando pela mais cobiçada (justamente a contorcionista), até as intermediárias (como as ajudantes do mágico - são realmente gostosas sempre, porém também sempre somem com seu dinheiro e isso as prejudica na hierarquia de cobiça feminina) até a escória, como a mulher barbada. Ainda que obviamente haja uma customização de acordo com as preferências, por exemplo, pessoas que gostam de surubas se encantam com as malabaristas, os que são viciadinhos num sexo oral morrem de amores pelas engolidoras de espadas e os que curtem uma zoofilia amiga não deixam de se impressionar com a versatilidade da Monga, a mulher-macaco.

Tive a sorte de trabalhar no mesmo circo com Sharapova, a contorcionista. Uma mulher pequena, magrinha, quase sem peitos, pele levemente bronzeada, cabelos loiros, olhos azuis e uma bunda tremenda. Sharapova não era seu nome quando chegou ao circo, na verdade o nome dela era uma esquisita mistura de consoantes com acento ou escritas como se estivessem sendo vistas através de um espelho que, quando ela pronunciava, tinham som de outras consoantes que não aquelas escritas. Ninguém entendia o nome da pobre russa, então acabamos apelidando-a de Sharapova, em parte porque era o único nome russo que conhecíamos e em parte porque ela até lembrava o biótipo da fomosa tenista russa gatona.

Mas minha única sorte não era trabalhar no circo com ela, nós nos divertíamos sobremaneira também. Dentro do pobre trailer, consumávamos os mais loucos malabarismos sexuais. Coisa de cinema, praticamente um Pornotrix ou algo assim. Claro que a coisa toda era muito mais com ela, que podia botar uma perna no teto e outra no chão, mas eu também tinha meus momentos, ainda que sempre acordasse todo errado da coluna depois de uma noite forte com Sharapova. Teve uma vez que ela até quase chamou os bombeiros pra me tirar da posição que denominávamos meia-nove-dividido-por-dois-aéreo-giratório-twist-escarpado.

Éramos felizes na nossa doidera sexual. Ela me satisfazia completamente, eu tinha certeza que ela pensava o mesmo de mim. Acho que já até a amava. Algumas pessoas se apaixonam por quem os alimenta, eu me apaixonava por quem sabia o que fazer na cama. Claro, tínhamos algumas divergências, como sua insistência em me passar a faca da margarina com os pés, mas nada de mais.

Obviamente eu tinha que ficar olho, afinal estava no topo da hierarquia. Estava com a contorcionista. Então sempre prestava atenção com quem ela falava, o que fazia, essa coisa toda. Não que um reles palhaço tivesse alguma chance com minha Sharapova, mas o seguro morreu de velho. Foi numa das minhas conferidas habituais que achei alguns pêlos pretos na calcinha dela. Loirosa que era, assim como eu, nada de cabelos pretos poderiam estar impunemente na calcinha usada dela. Comecei a pensar em quem poderia ser. O mágico com seus truques? O anão? O maldito palhaço? A pergunta me consumia. Mas eu era orgulhoso, não perguntaria a ela, descobriria por minha conta.

- E aí, gatão, no seu trailer ou no meu?
- Ah, Shara, hoje tô meio cansado, tive um dia foda limpando merda de elefante.
- Hm, meu espadão tá cansado é? Não tem problema, pode ir nanar então, amor, eu vou ficar conversando com o pessoal.

“A isca foi jogada”, pensei.

Apaguei a luz do trailer e fiquei de tocaia, só na bituca. Sharapova estava dentro do trailer dela já, não havia ninguém lá. Continuei esperando, resoluto. Esperei, esperei. Aí ela apagou a luz. Esperei mais um pouco. Finalmente caí no sono. Quando acordei, de susto, olhei novamente para o trailer dela. Podia ver a luz indireta ligada. Inconfundível, o tom avermelhado da luz que usávamos para transar no trailer dela me indicou que o crime já estava ocorrendo. Fui pé por pé, me cheguei perto da janela e ouvi os gemidos inconfundíveis da minha Sharapova. Mágico filho da puta, só pode ser ele. Incontrolável, meti o pé na porta do trailer. A cena era de quebrar o coração, minha Sharapova estava praticando o meia-nove-dividido-por-dois-aéreo-giratório-twist-escarpado.

Com a mulher barbada.

FINAL ALTERNATIVO (que é? Se tem até em DVD eu também posso):

Eu nem fiquei pra ver quem era o filho da puta que a estava comendo. Não, eu não me importava. Não era culpa dele. A contorcionista está no topo da hierarquia. ELA é que deveria ter se comportado. Ela que era traidora. O grande azar de Sharapova é que nos circos pequenos como o nosso, cada artista fazia diversos papéis. Uma hora se tem que limpar a bosta dos leões, outra ajudar o mágico e outra ser contorcionista. O azar, o grande azar, de Sharapova é que ela era também a assistente gostosa que fica no alvo das facas do atirador de facas. Coincidentemente, eu era o atirador de facas.

Um grande azar a acometeria no dia seguinte.

junho 28, 2007

Henrietta

Quem escreve estas linhas é um homem morto. Não se engane, não tem nada de Machado de Assis nisso, tampouco de zumbisagem, vampirismo, vuduzices ou outros quitutes da cultura Zé do Caixão Extravaganza. Tecnicamente ainda não morri, mas isso é questão de tempo. Minutos na verdade. Horas talvez. Mas, sinceramente, não acredito em dias. E se eu não acredito, Henrietta então deve ter toda certeza disso.

Henrietta estava apoiada no beira do balcão e empunhava um Martini com azeitoninha e tudo. Ela exalava uma classe superior, como se não estivesse no mesmo nível que nós mortais.

Classe.

Classe, classe.

Classe, classe, classe.

Quem resiste?

Eu certamente não.

- E o que tu faz?
- Sou a segunda melhor assassina do mundo.

Henrietta fazia o tipo mulher séria, mas que poderia soltar uma piadinha dessas a qualquer instante sem alteração suas feições, como se fosse tudo muito sério. Fiquei encantado com o charme dela. Eu diria que, se todas as malucas que namorei eram caninas, verdadeiras cadelas loucas por atenção, tapinhas e que faziam um tremendo barulho quando latiam, definitivamente Henrietta era felina. Andava com classe, parecia ligeiramente superior ao ambiente em que estava e era furtiva. Cheio que estava de todas as loucas, drogadas, psicóticas e assassinas seriais com quem me relacionei durante toda minha vida, Henrietta parecia ser exatamente o que eu estava precisando.

Uma mulher centrada, linda e inteligente.

Conversamos bastante na festa em si, sem chamar muita atenção, nunca canto sombrio. Ela bebia pouco, estávamos há uma hora conversando e ela sequer tinha tocado seu Martini que repousava tranqüilamente na mesa. Não me deu nenhuma abertura, a maldita, mas consegui arrancar dela o telefone. Já era um começo. Batalhei. Teatro. Cinema. Barzinho. Parque. Até que finalmente consegui o primeiro beijo. Demorou ainda 6 dias e 4 encontros para que finalmente transássemos. Confesso que não foi extraordinário, mas com certeza foi bom.

Comecei a me envolver, envolver, envolver e num período de mais ou menos 3 meses estávamos namorando. Era gostoso demais. Irresistível. Incrível. Estávamos constantemente juntos e parecia que jamais íamos nos encher um do outro. O melhor de tudo é que como ambos éramos autônomos, podíamos nos ver diversas vezes durante o dia, andar pelo parque, fazer um piquenique ou simplesmente fazer uma loucura ou outra - tudo muito comedido, porque Henrietta odiava chamar atenção. A coisa toda foi tão mágica que ela e eu começamos a morar juntos depois de 6 meses de namoro. É verdade que relutou um pouco, disse que essas coisas eram perigosas para o relacionamento, mas eu a convenci no fim com um beijo cheio de sangue e espírito.

“Finalmente achei a mulher da minha vida”, juro que pensei. Enquanto escrevo isso, ainda tenho certeza, mas vou morrer. Não preciso olhar para saber que Henrietta está chorando ao ler isso por sobre meu ombro, porque a dor dela é audível no meu ouvido e queima no meu coração.

Éramos tão loucos um pelo outro e curtíamos tanto a companhia que o único problema no nosso “namoramento” era que Henrietta precisava viajar com freqüência por conta da sua profissão: consultora de moda. Eu tinha um pouco de ciúme, não gostava que ela viajasse, mas era de certa forma bom, porque aí eu tinha algum tempo para me dedicar ao meu último livro - só agora percebo e lamento, permanentemente incompleto por minha prematura morte.

Preciso reconhecer que meu ciúme aumentava a cada viagem, até que culminou no dia fatídico em que ouvi o celular dela tocando enquanto eu chegava em casa com 4 pães quentinhos recém saídos da padaria. Andei pé sobre pé, me esgueirando até onde poderia ouvir o que Henrietta dizia para a pessoa do outro lado da linha:

- Aham, claro, claro. - soltou uma exclamação de desprezo com a língua - até parece que você não me conhece. Sou a melhor no que faço. - pausa. - Claro, vou me vestir bem gostosa pro velho senador, ele não terá nenhuma chance. - mais uma pausa, ela ri - só espero que tudo isso valha a pena, só faço isso porque a grana é boa para este. Certo, viajo para Brasília amanhã. Beijo. - e Henrietta desligou o telefone.

Prostituta?

Não podia ser.

Minha Henrietta transava por dinheiro com um velho senador? Se vestindo “bem gostosa”? Ela usaria a cinta-liga que eu mesmo dei ou tinha um armário particular só para sua prostituição? Em meio a esse turbilhão de pensamento, adentrei o quarto. Henrietta deu um pulinho e soltou uma exclamação qualquer de susto.

- Não vi você chegando, amor.
- Hm, trouxe pão pra gente, pequena. - forcei o rosto sereno. Como eu não sou ator, sempre é possível farejar um “ar de normalidade forçada” quando se faz isso. Henrietta percebeu em um instante:
- Você ouviu eu falando ao telefone?
- Eu? Não? Quem era?
- Um político vai dar discurso e quer que eu o vista, preciso viajar amanhã pra Brasília.
- Ahhh, não! - Reclamei - fique. Henrietta, por favor, não vá. Fique.
- A grana é boa, não posso, tu sabe que a gente precisa, gato.

Ela respondeu à minha cara de desgosto com um beijo demorado e gostoso como só ela sabia dar.

Naquela noite, depois de uma sessão intensa de sexo, coisa que nos esforçávamos mais ainda quando Henrietta ia viajar, ela já estava dormindo nua e esparramada na cama, mas minha cabeça não me deixava fazer o mesmo. A ligação que ela recebera no fim da tarde me martelava, martelava e martelava.

Prostituta?

Certamente tinha de ser outra coisa. Meu ciúme deveria estar me cegando de alguma forma, provavelmente ela nem usou as palavras que eu imaginei. Eu tinha que fazer alguma coisa para provar a inocência da minha amada, a mulher da minha vida. Me levantei da cama da maneira mais silenciosa possível e fui até a mala de Henrietta, pronta para a manhã do dia seguinte. Abri. Retirei primeiro uma calça jeans e uma camiseta básica. Abaixo disso havia um vestido preto de festa, desses com uma longa fenda na perna e que deixam as costas totalmente expostas até quase a bunda. Bem, ela provavelmente estaria na cerimônia junto com o tal senador que deveria vestir, nada de extraordinário levar uma roupa desses. Retirei duas calcinhas minúsculas. Isso não provava nada, Henrietta era muito séria, mas depois que começamos a namorar só usava calcinhas pequenas por insistência minha. Abaixo da calcinha, havia uma pequena bolsinha, que certamente acompanharia o vestido longo preto. Quando a peguei, tive uma estranha sensação de que era pesada demais para ser uma bolsa de mulher. Abri também e o conteúdo era deveras inesperado:

Uma pistola cromada bem pequena.

Enquanto, estupefato, segurava a pequena pistola na palma da minha mão e tentava focalizar a visão, já acostumada com o escuro do quarto, como se não aceitasse o que via, um movimento rápido me tirou a pistola da mão. Eu não percebera, mas Henrietta havia acordado e agora jazia na minha frente totalmente nua e apontando a pequena pistola contra mim de maneira muito decidida - coisa que seria bem difícil de aceitar em se tratando de uma mulher linda, elegante, gostosa e nua.

- Por quê? Por que você foi mexer nas minhas coisas?
- Henrietta, por que tu tem uma pistoila?
- Seu idiota, por que foi mexer na minha mala? Por quê? - ela parecia furiosa, mas o rosto dela hesitava, desfazendo-se repetidamente em uma feição de sofrimento e lágrimas por um breve momento, para logo depois voltar para a cara de raiva. Ela estava se segurando para não chorar.
- Eu ouvi o que você falou no telefone, você é uma prostituta! Uma prostituta para um velho senador! Eu sei que sou pobre, mas isso aí não... - ela me interrompeu com um grito:
- IDIOTA! IDIOTA! IDIOTA! - começou a chorar alto, sem nunca deixar de apontar a arma pra mim com as duas mãos - Como você pode achar que sou uma puta? Seu idiota! Eu te amo tanto e você acha que sou uma vagabunda!
- Me desculpa é que eu...
- CALA A BOCA! CALA A BOCA! BURRO!
- Amor, por que você tem uma arma então?
- Seu idiota, idiota, idiota! Eu sou uma assassina. Me pagam para eu apagar gente. Eu sabia que me apaixonar e morar com alguém era um erro. Eu sabia. Agora você sabe do meu segredo. E tudo por quê? Porque foi idiota, ciumento e burro o suficiente para mexer na minha mala. Agora eu preciso te matar, droga!
- O quê? Você vai me matar?!
- Eu preciso fazer isso. - as lágrimas corriam como rio pelas bochechas de Henrietta.
- Eu posso escrever um conto antes? - pedi. Ela não podia negar o último pedido de um escritor que a amava loucamente e que ela não tinha um amor menor também.
- Pode, mas eu vou te matar assim que terminar.
- Tudo bem.

hih bjk3abuhdddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddd

junho 10, 2007

Verônica

xxxx 01 xxxx


- Eu sou seu amigo, não sou? - falei.
- É claro, por que você acha que eu estou aqui te ouvindo? - Disse Bolívar, irritado, do outro lado da linha. Ele acalmou o seu tom de voz e continuou - Então, seu maluco, vai me contar o que aprontou?
- Bom, começou, começou quando decidi dar uma esquentada nas coisas. Estava andando pela rua, muito decidido do que faria, tinha comprado a arma, estava carregando-a sob o casaco, quando de repente...
- ...Ela apareceu. - Bolívar emendou antes de eu terminar a frase.
- Não, não, espere aí, eu já chego à Verônica. Não seja tão impaciente, droga. - e continuei contando a minha história, que era ouvida por um misto de impaciência e surpresa do outro lado da linha pelo meu amigo Bolívar.

Estava na rua, a garoa fina castigava meu casaco e anuviava meus óculos de tal maneira que tinha que andar muito rápido e com a cabeça levemente inclinada para baixo, olhando por sobre dos óculos. Eu tinha uma pistola automática carregada por baixo do casaco. A cada passo rápido que dava, o metal pesado e frio da pistola batia contra minha costela direita, tornando-a impossível de esquecer, o que acabava me deixando meio nervoso. Era a primeira vez que eu sequer tocava numa arma. Não estava nem seguro se poderia atirar. Ou até mesmo se a arma funcionava, considerando a forma com que eu a arranjei.

- É verdade, como foi que arranjou a arma? - Interrompeu novamente Bolívar.
- Quer ficar quieto um pouco?
- Só me conte da droga da arma, porra, pode ser importante.
- Tá bom, tá bom.

Eu conheci num desses sites de relacionamento uma jovenzinha muito louca. Ela chamava-se Darlene e...

- Espera, espera, espera - disse entre risos - você faz parte de um site de relacionamentos?
- Eu disse que queria viver a vida perigosamente.
- Eu não achei que fosse tanto. - Bolívar não conteve o riso.

Houve um momento de silêncio, ele percebeu que eu ficara ofendido. Bolívar achou que era porque ele fazia graça de mim, mas não era nada disso, eu só queria contar minha história, desabafá-la sem interrupções desnecessárias.

- Então, vai me deixar falar?

Ele concordou em silêncio e eu prossegui.

Essa Darlene era uma mulher estranhíssima, cara. Quando vi as fotos, não achei grande coisa, era gostosinha, é verdade, mas não era muito meu tipo, tinha algo errado. Não fui eu quem mandou a primeira mensagem, afinal, cada torpedo mandado por aquele site era contado, já que tinha um número limite de mensagens por dia. A mensagem dela era muito clara, estava me convidando para transar com ela, tinha gostado do meu “jeito” e não queria muita embolação. Só sexo. Como não sou bobo nem nada, aceitei a proposta. Encontrei ela no centro, num café. Começamos a conversar com alguma dificuldade, já que a mulher era muito burra, mas foi relativamente rápido até que eu ocupasse a boca dela com um beijo.

- Comeu?
Suspirei fundo - sim, comi. Só que quando terminamos o serviço, ela virou-se pra mim e disse:

- Tem 20 contos pra me emprestar?
- Heim? - quase engasguei com a fumaça do cigarro.
- 20 pilas?
- Ahm, tenho, mas...?
- Sabe, cara, uma garota como eu precisa viver.
- Hm? Como assim?

Ela me olhou séria por um minuto, investigando, aí caiu na gargalhada. Quando parou, ela finalmente revelou tudo: - Você não percebeu que eu sou uma garota de programa?

- E aí você deu os 20 reais?
- Acabei dando, não queria rolo com nenhum cafetão. Além do mais, foi uma foda decente. No fim, saiu barato.
- É, lembra quando a Leila me levou o carro depois de ter morado com ela?
- Escuta, a história é minha, Bolívar.
- Desculpe.

Esta tal Darlene era maior boca braba, quando pensei em comprar a arma, liguei direto pra ela. A menina tava doida pelo negócio, devia ter lucrado uns 500% em cima do otário aqui, mas era o único contato decente com o submundo que tinha. E na real foi ótimo, ela tinha umas fantasias loucas de transar com um sujeito apontando uma arma pra ela, aí aproveitamos o momento.

xxxx 02 xxxx


De posse da arma, minha resolução não se abalou nem um pouco. Eu sabia o básico, carregar, apontar, puxar o gatilho. Mas no fundo eu não estava pretendendo usar a arma de verdade. Só queria apontá-la, pegar a grana e dar o fora. E foi o que eu fiz. Vou te dizer que não foi difícil. Entrei na lojinha do posto de gasolina. Tinha um sujeito comprando umas cervejas. O sujeito tinha um boné de caminhoneiro - e certamente era o que ele era, já que o posto ficava num lugar não muito acessível, meio deserto até, e lá fora tinha um caminhão parado. Disfarcei um pouco, folheei umas revistas e tal e coisa. Quando o caminhoneiro de boné saiu com seu fardinho de cervejas, meti a mão por debaixo do casaco, apontei para o balconista e anunciei:

- Isso é um assalto, porra, passa logo a merda da grana, seu filho da puta!

O sujeito do caixa não pareceu muito abalado. Pra falar a verdade, ele aparentava estar mais calmo que eu. É compreensível. Primeiro que ele devia estar acostumado com isso naquele lugar. Segundo que o dinheiro não era dele de toda forma. E, terceiro, convenhamos que eu não tenho lá muita cara de ser um sujeito perigoso, mesmo com uma arma na mão. O atendente encheu uma sacola com a féria do dia e botou em cima do balcão sem dizer absolutamente nada nesse ínterim. Sequer me olhou. Era um profissional esse balconista.

- Escuta, sujeito, me dá um pacote de Carlton.

Ele pegou um maço e botou dentro da sacola também. Eu gritei alto:

- Tá de sacanagem comigo? Um maço? Eu quero o pacote inteiro, seu maldito filho duma égua chupadora de xoxotas de cadelas menstruadas!

Do outro lado da linha ouvi uma enorme gargalhada.
- Que foi?
- Ah, que isso, você não disse isso. Que droga é essa de “maldito filho duma égua chupadora de xoxotas de cadelas menstruadas”?
- Juro que disse, sei lá, saiu no momento. Acho que vi demais o Batman Feira da Futa, sei lá. O importante é que funcionou.

Depois do grito, o sujeito do balcão pareceu pela primeira vez ficar com medo e nervoso, quando gritei, ele deu um pulinho e retesou os ombros. Acho que ele não esperava a dura. Botou rápido o pacote inteiro de Carlton dentro da sacola. O doce sabor do sucesso invadiu minha garganta. A adrenalina jorrava aos borbotões pelo corpo e me dava uma energia que eu nunca havia sentido antes. Sorri. Meu sorriso se transformou rapidamente quando ouvi o “plem plim” da sineta que ficava sobre a porta da lojinha do posto.

Alguém havia entrado.

Secretamente rezei para que não fosse um policial. Me virei rápido, apontando a arma para a porta. Era uma mulher. Ela entrou gritando:

- Todo mundo pro chão, isso aqui é um assalto.

De repente tudo pareceu andar em câmera lenta. Ela era bem magrinha e branca, tinha os cabelos meio azuis, compridos e enrolados em duas tranças esquisitas. A tal mulher ainda carregava uma escopeta na mão, dessas mesmo que você vê nos filmes de zumbi e que dividem um sujeito ao meio com um tiro. Pelos olhos vidrados e loucos dela, me pareceu que ela não teria muito pudor em usar aquela arma. Quando ela percebeu que eu também estava armado e apontando pra ela, ainda disse calmamente:

- Ok, cara, larga essa porra que a grana é minha. Essa é minha área.

Na hora me senti desolado. Meu momento de glória estava sendo arruinado por uma mulher. Não só uma mulher magra e franzina, mas uma mulher com uma arma muito maior que a minha. O sentimento era muito parecido com participar de uma suruba e ser o único a broxar. Terrível.

- Hm, olha, eu cheguei primeiro, o código está do meu lado. - disse a ela.
- Que porra de código você tá falando?
- Ora, o código dos assaltantes.
Ela pareceu confusa, titubeou um pouco, abaixando levemente o cano da arma, achei que era um bom momento, mas foi só uma dúvida momentânea, logo ela estava com a arma apontada pra mim de novo e disse: - Não existe porra nenhuma de código, cara, não me venha com essa.
- Tá bom, eu inventei isso, confesso, vou ser honesto com você... qual o seu nome mesmo?
- Não me venha com truques psicológicos, seu filho da puta, eu fui casada com um psicólogo. - segurou a arma com mais raiva contra mim.
- Tá, tá, tá, calma. Que tal dividirmos?
O balconista resolveu interromper: - É uma boa idéia, heim?

Ambos apontamos a arma pra ele. O rapaz do balcão entendeu o recado.

- Então, gata, que tal dividirmos, heim?

Ela olhou pra mim dentro dos olhos. De repente largou a escopeta no chão sem o menor cuidado, como se o seu braço de repente tivesse ficado inutilizado, e correu em minha direção. Ela me abraçou e começou a chorar muito alto, soluçava, um choro quase gritado. Parecia desespero profundo. Eu fiquei imóvel por um tempo, até que a abracei, meio espantado com toda situação. Ela falou:

- Eu não deveria estar fazendo isso. Não deveria. Eu estou desesperada. - Meio que assoou o nariz no colarinho da minha camisa.
- Ahm... qual o seu nome?
- Verônica. Eu, eu, eu não consigo trabalho, aí comecei a assaltar.
- Tudo bem, Verônica, tudo bem. Calma, vai ficar tudo bem.

Vi um movimento furtivo atrás dela. Era o balconista. Ele estava agachado no chão, tentara se esgueirar para pegar a escopeta que jazia largada por ali. Empurrei Verônica pra longe e no mesmo reflexo apontei a arma em direção ao corajoso rapaz. Idiota, mas corajoso.

A arma disparou.

O barulho da pistola foi alto e ecoou pela loja inteira, ao mesmo tempo Verônica deu um grito e botou as mãos nas orelhas, eu só tratei de arregalar os olhos, arma ainda apontada na direção do rapaz. O rapaz havia conseguido pegar a escopeta, mas largou-a imediatamente após receber o impacto da bala. Estava agora com sua camisa empapada de sangue, olhos arregalados. Parecia não acreditar. Verônica começou a andar de um lado por outro gritando “ai meu deus, ai meu deus, puta que pariu, ai meu deus”. Minha mão foi ficando mole até derrubar a arma no chão. Eu havia matado o sujeito. E agora? O momento parecia um pouco etéreo. Eu sentia que de repente as câmeras sairiam de trás das prateleiras de chocolate e tudo não passaria de uma boa dose de risadas no domingo à noite.

Infelizmente nada disso aconteceu.

Peguei a arma novamente do chão. Não com a mesma firmeza e segurança de antes, mas sim como um vegetariano pegaria um pedaço de carne crua. Verônica continuava andando pra lá e pra cá, deixando-me muito nervoso. - Ei, pare de andar pra lá e pra cá. Ei! Ei, Verônica!

- PARE! - apontei a arma pra ela. Ela parou no meio de um de seus passos, virou a cabeça pra mim. No início pareceu surpresa, depois zangada.

- Escuta aqui, seu merda, você não tem nem coragem de atirar. - Ela deu alguns passos em direção a escopeta, toda suja de sangue.
- Pare aí! - Disse eu, mas ela continuou andando, despreocupada.
- Ei, tô dizendo pra parar. Eu vou atirar, heim?

Ela não me deu ouvidos, pegou a arma do chão. Começou a olhar em volta. De repente soltou uma pequena interjeição, como se houvesse achado o que procurava. Foi até o balcão e pegou um pano. Limpou a arma. Pegou a sacola onde estava o dinheiro.

- Tchau, seu trouxa.

Eu não sabia o que fazer. Não podia atirar em uma mulher, podia? Ela se dirigiu a porta, mas aí voltou correndo. Ela pulou para de trás do balcão. Eu não podia vê-la ali atrás, mas podia ouvir seu murmuro que dizia sem parar: “merda, merda, merda”. Cheguei mais próximo a porta e vi o posto sendo iluminado por uma luz vermelha e azul que se alternava. Entendi do que ela estava apavorada.

A polícia.

Corri para trás do balcão, junto com ela.

- Escuta, idiota, você já matou o sujeito. Eles vão prender nós dois se não fizermos algo.
Olhei para ela sério. - Escuta aqui, sua puta, se não fosse por você eu estaria longe com essa grana e ninguém teria se machucado.
Ela botou o cano gelado da arma no meu queixo e disse: - não abusa, moleque.

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Eu a estava abraçando ela por trás, minha mão a segurava pela barriga, mas às vezes eu fazia escapar para os peitos dela. O corpo dela por debaixo do vestido leve era gostoso de tocar. Minha boca estava perto do pescoço dela, sentia vontade de mordê-la. Eu estava bem próximo, colado em Verônica, segurava na outra mão a espingarda apontada para o queixo dela, repousando entre os seios médios dela. Ela chorava. Gritei para os policiais do lado de fora da loja:

- Saiam da droga do caminho, seus putos! Eu juro que se alguém se mexer eu vou mandar essa puta pro inferno e levo mais alguns de vocês juntos.
- Muito bem, fique calmo e ninguém vai se machucar. Estamos aqui para ajudá-lo. - Uma voz grave falou de um megafone do lado de fora da lojinha. E continuou assim: - Escute, que tal deixar a moça sair? Ela está chorando, só vai te incomodar aí dentro.
- Vão se foder, caralho! Tão pensando que eu sou burro? Eu quero um carro pra dar o fora daqui. Ouviram? Um carro! E cheio de gasolina!
- Um carro? Certo, filho, vamos arranjá-lo. Nos de um tempo.
- Tempo o caralho, eu vou matar ela!
- Mas precisamos de tempo para conseguir o carro.
- Eu não estou pedindo um helicóptero nem nada, tá achando que sou burro? Me dá um carro da polícia mesmo! Se a chave do carro não aparecer em 3 minutos, ela já era. Eu tô falando sério, merda!
- Sabemos que o carro não é problema, mas precisamos encher o tanque. Sabe como é, queremos seguir suas instruções para ninguém sair machucado.
- Mas nós estamos em um maldito posto de gasolina, porra!

Ocorreu uma breve pausa no nosso diálogo, como se o sujeito do megafone estivesse conversando com alguém sobre a possibilidade de me dar um carro. Depois de um tempo, mais uma vez ouvimos a voz grave do policial:

- Muito bem, filho, seu carro com o tanque cheio está aqui.
- Deixem ele com a porta aberta e o motor ligado na frente da loja.

Quando o policial saiu do carro de polícia, começamos a andar para a rua. Eu usava Verônica como escudo humano, a escopeta no queixo dela, a pistola no bolso do meu casaco. Enquanto isso ela segurava a sacola de dinheiro na mão esquerda. Os policiais foram espertos, estacionaram o carro com a porta do carona aberta para o lado da loja. Queriam que eu desse a volta no carro patrulha ou que fizesse o esforço de entrar pelo lado do carona, deixando Verônica por um tempo fora do carro e longe de mim tempo suficiente para me chumbarem.

Disse baixinho para ela: - Muito bem, no 3. Um, dois, TRÊS.

Quando eu disse o número mágico, soltei minha refém, peguei a espingarda com as duas mãos e disparei contra a polícia. Verônica por sua vez, em um movimento fluído e único, jogou com a mão esquerda a sacola de dinheiro dentro do carro, enquanto a mão direita pegou a pistola que estava no meu bolso e apontou para a polícia, disparando também contra os policiais. Ela saltou pra dentro do carro pela porta do carona, passando para a direção. Eu a segui rapidamente pela porta do carona, não sem antes disparar mais uma vez.

Verônica pressionou o acelerador até o fim, os pneus do carro agrediram o chão e o carro disparou. Ouvimos alguns tiros da polícia atrás da gente, mas felizmente nenhum atingiu gravemente o carro. Ela dirigia feito louca. Não estou dizendo isso só porque ela diria bem ou como figura de linguagem. Ela dirigia como louca mesma. Zigzagueava na contra-mão, subia calçadas, ia reto contra os carros esperando que eles desviassem, saia da estrada para o meio do mato e tudo isso aparentemente sem nunca pisar no freio. Não era só o estilo de direção que era louco, ela também dirigia com os olhos vidrados, muda e sorrindo como se tivesse gozado até pelas orelhas há meia hora.

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Verônica vestia um vestido curto, preto, meias e liga. Seu cabelo estava solto, não era mais azul, mas sim preto. Tinha feito isso para despistar a polícia. Tomávamos algum cuidado, mesmo que estivéssemos em outro estado, não dava pra saber se eles estavam atrás da gente ou não. Verônica estava esperando o que eu ia fazer sem disfarçar o sorriso em seu rosto. Ela estava sentada numa cadeira no quarto de motel de beira de estrada que tínhamos alugado há um pouco mais de duas semanas. Estávamos loucamente apaixonados curtindo nosso dinheiro e um ao outro. Quase não saíamos do quarto. Passávamos o tempo todo curtindo um ao outro, realizando uma fantasia depois da outra. Eu nunca tinha me sentido tão completo. Ela era o máximo e nós éramos mais do que o máximo juntos.

- Muito bem, sabe, me daria muito prazer em ver você rastejando de quatro para mim. - Andava em volta dela, olhando-a como um predador rodeia a preza.

Ela apenas continuou sorrindo.

- E eu estou disposto a pagar caro por isso. - Peguei um bolo de notas do nosso saco de dinheiro e comecei a largá-las lentamente no chão, uma por uma. Dava um passo, soltava a nota.

Ela foi escorregando da cadeira, botou-se de quatro e começou a rastejar atrás do dinheiro. Olhava pra mim como se perguntasse “está gostando?”, ah, como estava gostando. Tirei meu cinto e bati na cômoda. Ela virou-se de costas pra mim, ainda de quatro, abaixou a cabeça até a testa encostar-se ao chão e levantou o vestindo, oferecendo sua bundinha pálida já vermelha de noites quentes anteriores. Suspirei de prazer e levantei o cinto sobre a minha cabeça, mirando onde queria acertar.

Do outro lado da linha, Bolívar suspirou: - que história, heim? Mas logo você tão quietinho. Por que afinal foi assaltar a loja?
- Eu sou escritor.
- Bom, pelo que eu sei, escritor e assaltante são profissões diferentes.
- Eu queria escrever uma história sobre mim, mas minha vida era pálida e idiota. A única coisa que eu fazia era sentar à frente do micro e escrever, nada mais. Precisava botar adrenalina.
- Escuta, não seria mais fácil simplesmente ter inventado?
- Talvez. Talvez. Mas aí, que graça teria? Além do mais, se eu tivesse simplesmente inventado Verônica, ela jamais teria aparecido na minha vida. - Sorri, botei o telefone no apoio e dei tchau para Bolívar por detrás do vidro de segurança da cadeia.

Minha sorte ter um amigo advogado, escritores ganham muito mal.

junho 05, 2007

Mila

Um copo de uísque na mão, cabelo tingido de roxo e cortado de alguma forma indescritivelmente estranha, muita maquiagem em volta dos olhos e uma voz alta demais, acompanhada por gestos espalhafatosos de quem não só é o centro das atenções, mas faz questão de ser o centro de todo o universo - essa foi uma das primeiras vezes em que notei Mila. Nos encontramos algumas vezes nesta velha danceteria suja e acabada, um verdadeiro muquifo onde modelos anoréxicas, gays anoréxicos, drogados muito magros, djs desconhecidos e perturbados em geral se sacudiam diariamente durante boa parte da noite.

Era impossível não notá-la.

Além de muito espalhafatosa, Mila era de longe a mulher mais bonita daquele lugar - como já disse, um lugar freqüentado por modelos de todas as estirpes. Dizem que até a Gisele Bündchen passou por lá quando era só uma nariguda magricela e peituda que ninguém conhecia. Mas lenda por lenda, prefiro bem mais aquela em que treinei kung fu com o japa que fez o Spectroman. Mas chega disso, voltemos a Mila, que era o que mais me interessava àquela época. Essa mulher era muito mais bonita do que qualquer mulher que eu jamais tinha visto. Sabe atriz de cinema? Ela tinha os lábios da Angelina Jolie (não estou exagerando, juro que eu não era o único que notava isso de primeira), olhos verdes que podiam hipnotizar qualquer um, um rosto angelical, uma bundinha bem no lugar, coxas roliças, cabelos que mudavam para cores inexistentes na natureza a cada 15 dias e um par de peitos que botavam pra babar até os veados do lugar. Condensada em 1,60 e poucos, era tudo o que eu mais queria numa mulher fisicamente. Mila era uma mulher absurda. E ela era absurda não apenas fisicamente, ela era absurda em tudo.

- Tem pó aí, gostoso?
- Não, - respondi. - eu não cheiro.
Ela parou um pouco, torceu a cabeça e me olhou de rabo de olho: - tu não é da polícia, é?
- Eu?
- É.
- Não, não.
- Ah bom, porque seria uma pena um gostoso como tu ser da polícia. - começou a rir muito alto, como se tivesse ouvido a coisa mais engraçada de todos os tempos, mexia as mãos, me cutucava, tomava goles de uísque do seu copo, roubava goles de cerveja daqueles que passavam, uma hiperativa nata. - Olha só, que bom que tu não cheira. - ela completou muito séria.
- Ah, é, por quê?
- Por que cheirado broxa demais. - o rosto sério se desfez pra cair na gargalhada de novo.
Fiquei quieto mais uma vez, esperando ela acabar de rir. Foi quando ela me disse de novo:
- Mas eu cheiro, cheiro muito. Eu adoro. E acho que tu vai gostar que eu cheire também.
- Hm? Por quê? - respondi, sem entender nada.
- Gato, tu já comeu o cu de uma mina cheirada?

Esse foi o primeiro diálogo que tive com ela. Sério, sem tirar, nem por. Quer dizer, no fim, acabei tirando e botando muito. Aliás, nem foi propriamente no fim, foi bem no meio mesmo: fomos para o banheiro do lugar (que era unissex) e transamos. Nossa primeira vez juntos. Eu sentado no vaso, com os pés na porta para segurar (porque não tinha trinco) e ela em cima de mim, pulando como eu jamais tinha visto mulher alguma pular.

Saímos todas as noites juntos nas próximas duas semanas que se sucederam. Na cama, ficávamos olhando um para o outro, nos acariciando, chegando perto para ver detalhes. Era incrível a quantidade de tempo que ficávamos só olhando um dentro do olho do outro - isso claro quando ela não se levantava pra pegar mais uísque, cheirar uma carreira, acender um baseado ou atacar a geladeira.

- Sabe, gato, depois que começamos a namorar, tô cheirando bem menos, tu me faz bem.

Eu sorri, mais de nervoso que qualquer outra coisa. Era a segunda semana que ficávamos e ela tinha falado “namoro”. Quando é que tínhamos estabelecido que estávamos namorando?

- Ei, nós estamos namorando?
Ela se levantou, a cara transformada pela irritação: - Claro, porra, tu não quer?
- Qu... quer... quero, claro, meu amor, só que...
- Óóóó. - Ela me interrompeu, abraçando-me carinhosamente. - que meigo que tu é. É a primeira vez que tu me chama de “meu amor”, amor.

Engoli em seco e abracei-a com força. Eu tinha certeza que, sob todo e qualquer aspecto que eu utilizasse, aquela era a mulher mais errada que eu já havia encontrado. Isso não me impediu de, um ano depois de começar nosso namoro, oferecer um anel de noivado para ela.

Era a maior loucura, mas ela me dava uma vida que eu nunca tive. Eu me tornara louco também. Mudei tanto que até já estava cheirando junto com ela. Brincávamos que família unida, cheira unida.

Esquecemos o noivado como coisa careta cristã dos infernos e fomos logo morar juntos que era o objetivo final de toda forma. Eu ganhava pouco mais de 600 reais, ela não chegava nem a isso. Obviamente ela não tinha um emprego de verdade, 8 horas por dia. Mila era cantora e cantava em bares, além de vender pinturas que ela mesma criava. Com o par de peitos e a boca que ela tinha, dava pro gasto. A minha grana usávamos pra sustentar a casa, a dela para as drogas.

Éramos um casal feliz e com muita maquiagem preta nos olhos.

Certo dia, não conseguia dormir e fui até o bar onde ela costumava cantar. Cheguei lá, cumprimentei os seguranças, fui até o barman, um sujeito muito simpático chamado Roberto, e perguntei:

- Onde tá a Mila?
O barman pareceu confuso, meio que se gaguejou todo para dizer: - Olha, ela não tá aqui não, parceiro.
- Ela já cantou?
Mais uma vez Roberto pareceu hesitante: - Hm, faz mais de um mês que ela não canta aqui, amigo.
- Quê?
- Desculpe.

Ora, que diabos? Onde ela estava? Como ela não canta aqui há um mês? De onde ela estava tirando dinheiro para nossa cocaína santa de cada dia? Não acreditava que ela poderia estar me enganando, aquilo fez meu sangue ferver. Precisava dar um teco no banheiro.

Servi uma boa dose no banheiro, algo cavalar e mandei ver em exatamente 4 fungadas. Meu nariz ardia, meu maxilar já sentia o fisgão até que ouvi um barulho que me era familiar. O barulho era um gemido baixinho, abafado, e vinha de uma das cabinezinhas do banheiro.

Eu tinha certeza que era o gemido da Mila.

Fiquei algum tempo travado, um pouco pelo susto, um pouco pela coca, até que finalmente me decidi a averiguar o barulho. Botei a mão sobre a portinha, estiquei meus pés ao máximo e lá estava ela.

Mila subia e descia sobre um negro magricelo e que usava uma touca rasta. Olhei meio de canto e constatei: ao menos ela estava usando camisinha. O cara eu também reconhecia, era nosso traficante. Então era assim que ela estava conseguindo o bagulho. Vagabunda!

- Ô, vocês aí. – interrompi, dizendo por cima da porta da cabine.

Mila deu um gritinho e saiu de cima do pau do negrão magricelo em um pulo só, puxando sua calcinha pra cima. Ela estava com olhos arregalados me olhando: - M... me... me... desculpa, amor... é que... eu... nós... é... veja bem...

- Que beleza, heim? - Disse irônico.
- Amor, amor, eu juro, eu só tava...
- Nem esquenta. - Disse com tranqüilidade. - Só me passa esse pacotinho de pó aí.

Mila me olhou sem entender nada.

- Me passa o pó, Mila.

Ela continuou parada. Nesse meio tempo o pau do negro magricela, que ainda não havia dito nada, já estava murcho na camisinha. Não era tão grande assim. Finalmente ela se mexeu, pegou o pacotinho com o nosso abastecimento para o mês e me entregou.

- Valeu, podem continuar. - E fui saindo.
- Ei, ei! Amor, tu não tá chateado? - ela disse, com lágrimas nos olhos.
- Que isso, Mila, tu é uma piranha gostosa, mas tu achou mesmo que eu estava contigo por amor? Só tô nessa pela coca que tu nos consegue fácil. - Virei-me e fui em direção à saída do banheiro. - Divirta-se, amor.

Saí assoviando. Ainda a ouvi chamando meu nome duas ou três vezes, gritando desesperada entre soluços de um choro desesperado.

Touché.

maio 29, 2007

Aline

Duas palavras pra ti:

Mulher. Óculos.

Tem coisa mais paudurecente que uma mulher intelectual? Tá, tem, tá aí a Sabrina Sato, mas deixa pra lá, voltemos às intelectuais. Não digo intelectuais apenas na pose, mas de fato uma mulher do intelecto. Assim era Aline, mestranda em alguma coisa que não me ocorre agora, mas era certamente bastante complexo, teórico e excitante - ou pelo menos assim ela fazia transparecer, pensando bem, talvez ela fosse só uma boa vendedora, vai saber. Ela com certeza era boa com as palavras, mas - acredite quando eu digo, afirmo, reforço, reitero e reafirmo - ela não era apenas boa com as palavras.

Aline inteira era boa.

Pra dizer bem a verdade, lembrava-me muito uma professora. E não era só o óculos grosso que lhe emprestava o tom professoral. Ela vestia-se sempre de maneira recatada, mas as camisas sóbrias que lhe pressionavam os seios, entre médios e grandes, não escondiam a delícia contida sob as roupas. O cabelo era escuro, liso e sempre bem preso. Tinha uma expressão sisuda e andava num passo rápido enquanto carregava sua eterna pilha de livros contra o peito, mas sua boca carnuda, mesmo séria, fazia o tempo parar. Pensando bem, nunca tive uma professora tão gostosa. Professoras não são assim. Ao menos as minhas não eram. E as tuas? Aline era aquele estereótipo gostoso do imaginário acadêmico pornô: séria e transpirando sexualidade. Sempre tive essa teoria: mulheres sérias das duas uma: ou choram ou dão como loucas. Saia pra beber com uma mulher séria. Se ela não começar a chorar, ela dá.

E, meu irmão, dá muito.

Esse era o caso de Aline. Quando a vi pela primeira vez, ela era totalmente certinha, séria, ereta, controlada - quase espartana, se esse adjetivo não fosse tão gay em tempos de Frank Miller. Mas quando consegui arrastá-la pra fora do clube de xadrez para um barzinho, o óculos foi descendo, a blusa se desvencilhando de alguns botões, umas mexas do cabelo se perderam do rabo de cavalo e a boca, outrora séria, dava largas gargalhadas - prontamente contidas com a mão, como se sentisse vergonha de si mesma.

Ah, Aline, que mulher.

Se nós transamos? Meu amigo, lembra da minha teoria que mulher séria que não chora dá? E dá muito? Teoria comprovada. Aline quando soltava o cabelo e colocava os óculos na cabeceira - ou em cima da mesa, na pia do banheiro, no chão, soltava na escada, sobre a máquina de levar, na grama, na calha do telhado, no porta-luvas, sobre o capô, no tapete, enfim, em todos esses lugares em que a atividade sexual é possível - o bicho realmente pegava.

Como uma mulher inteligente demais, sexy demais e que fechava totalmente comigo na cama, não demorou nada para que começássemos a namorar sério. Íamos a bares, restaurantes, museus, cinemas, operas, parques, viajávamos e acima de tudo discutíamos sobre tudo. Não me refiro a discussão no sentido ruim, aquela lenga-lenga de casal mala, mas sim discussões sérias, sobretudo teóricas. Tenho a impressão que falamos tanto sobre tantas coisas relevantes que, no ínterim do início e o fim do nosso namoro, acabamos sem querer desvendando o segredo da vida, do universo e tudo mais - o que é bem provável que tenhamos esquecido logo que o próximo assunto entrou na nossa rinha teórica.

Você, que me conhece, deve estar se perguntando como eu, que sou eu, poderia discutir com semelhante templo do saber. A pergunta é válida e fazes muito bem ao proferi-la. Eis a resposta: óbvio que eu sempre perdia as discussões, era o nosso joguinho. Enquanto a minha teoria era todo adquirida de consultas esporádicas ao wikipedia, bem como freqüente formulações embasadas sobre forte teor alcoólico de boteco com amigos tão cultos quanto é possível ser sendo criados e mantido por Tarantino e toda sorte de cineasta descolê, a dela era ultraembasada em autores clássicos da filosofia, cientistas renomados e geniozinhos da modernidade.

Não tinha como competir.

Certa feita estávamos nus sobre a nossa cama e eu tentava convencê-la de que Einstein tinha sacado só uma parte da relatividade, que toda essa história do tempo ser relativo não era tudo que havia de ser. Ela contestou, com toda a razão que o universo poderia oferecer, e eu contra-argumentei que não só o tempo era relativo, mas tudo era relativo - citei ainda a teoria teórica das supercordas ou qualquer coisa quântica do gênero, mas ela sabia tudo sobre isso também e me explicou que não era nada daquilo, mas sim blábláblá whiskas sache e acabamos transando mais uma vez.

Sabe, essa história de saber tudo sobre tudo já estava me dando nos nervos. Sério. Acho que eu uma hora me enchi de perder em todas as discussões, de modo que tentava arduamente vencê-la em alguma. Mas como eu era um maldito de um preguiçoso intelectual que me limitava ao Google e ao Wikipedia, obviamente jamais logrei êxito, eu não tinha a menor chance.

Aline reinava suprema no campo teórico.

- Sabe porque decidi namorar você?
- Porque sou o maior gatão que você já viu e que faço tu subir pelas paredes?
- Não, seu idiota - ela me respondeu toda sorridente e dando um tapinha amistoso na minha mão - é que você é incapaz de trair.

Fiquei uns instantes sem ação, refletindo sobre aquilo.

- Heim? - sentei na cama, um pouco irritado, mas bem de leve.
- Você é incapaz de trair.
- Que negócio é esse, Aline? De onde você tirou isso?
- É uma das minhas teorias... - ela começou a me explicar, era um troço realmente muito complexo, passava desde a minha criação, meus pais, a forma com que eu cortava as unhas e fazia a barba e mais um monte de coisas que, pra mim, não tinham conexão alguma.
- Isso é uma bobagem, é claro que eu posso te trair.
- Você já me traiu?
- Ora, claro que não, eu te amo.
- Viu?
- Viu o quê?
- Minha teoria está certa, você não consegue trair.
- Eu conseguiria se quisesse!
- Duvido, a teoria não falha nunca. Acredite, eu sei o que falo. Segundo Freud... blábláblá whiskas sache, você já sabe o que vem por aí, pulemos essa parte.

Eu nunca tinha traído nenhuma das minhas namoradas, mesmo sendo o maior galinha quando solteiro. O pior de tudo é que ela tinha razão. Aquilo me deixou puto da vida. Realmente irritado. Porém, tudo aquilo poderia se desdobrar a meu favor.

Eu era um homem com um plano.

Decidi-me a trair Aline. Não podia ser tão difícil, não é verdade? Peguei minha agenda telefônica no celular e percebi que tinha apagado todos os telefones das gostosas que eu costumava sair. Não me desesperei, no Orkut consegui o contato de algumas delas, a maioria ficou feliz em ver que eu voltara a fazer contato. Escolhi a mais diferente de Aline: alta, loira, pouco peito, muita bunda, completamente patricinha. A coisa em si foi rápida e mecânica, em nome dos velhos tempos pedi para bater uma foto enquanto eu a beijava na cama. Estava feito. Eu não só tinha traído Aline, como tinha provas disso. E ela sequer poderia dizer que o fiz porque ela era parecida ou coisa assim. Eu finalmente ganharia uma discussão.

Abri a porta da nossa casa assoviando e apalpando a foto, a prova do crime e a derrocada teórica da minha rival, no meu bolso direito. Vi Aline de pé, olhava para a porta e sorria. Ela estava com o cabelo dividido entre duas chuquinhas, uma para cada lado, usava uma sainha de colegial azul marinho, meias 3/4 brancas e uma camisa, igualmente branca, totalmente aberta. Tinha um cálice de vinho na mão e com a outra acariciava com o indicador sua boca carnuda.

Corri ao encontro (e de encontro) à boca macia e quente da minha namorada. Depois de transarmos loucamente, disse:

- Eu venci.
- O que, meu gato?
- Sua teoria estava errada.
- Qual? - Ela não conteve uma risadinha incrédula.
- Eu te traí.
- O quê? - Ela sentou-se na cama, seus seios balançaram e aquilo foi quase como música para meus ouvidos. Nossa que mulher, eu ainda pensei.
- Aqui está - tateei o bolso da minha calça e alcancei a foto sobre ela.
- Mas isso... não... mas... não pode... impossível.
- É gênio, eu venci. - Abri um largo sorriso digno do Coringa. - Eu. Ven. Ci. VENCI. – gargalhei loucamente.

Aline se levantou, vestiu-se calada. Ajudei-a a fechar o sutiã, como sempre fazia. Ela não disse uma palavra. E foi assim que ela foi embora da minha vida para sempre.

Parece que eu venci, mas no fundo perdi a mulher da minha vida. Minha primeira incursão no mundo da teoria foi um péssimo negócio.

abril 25, 2007

Cenoura

Há um bocado de coisas que me arrependo da adolescência, mas creio que as coisas tinham que ser assim. Quando se era um na minha época existiam duas opções: ser meio hippie ou meio punk. Digo “meio” porque só os xiitas eram inteiros - e extremistas são sempre chatos, não importando quanto ácido ou roupas rasgadas têm. Eu fui um caso mais grave, pois fui meio hippie e meio punk, o que me rendeu o acesso a uma rede de pessoas muito esquisitas.

Uma delas foi Cenoura.

Cenoura era alta e magricela e tinha cabelo ruivo, pintados de laranja, desta forma era fácil para eu imaginar de onde vinha seu apelido. Ela era uma tremenda duma riponga, usava sempre umas saias coloridas compridas, blusas no mesmo estilo, brincos enormes, sandálias rasteiras e toda essa coisa hippie adolescente de quando se acha que salvará o mundo tocando violão e bebendo vinho numa praça. Grandes revolucionários éramos. Como era um pouco mais hippie que eu, Cenoura aos poucos ia abdicando do bom e velho churrasco até que abandonou totalmente o consumo de carnes. Aquilo era realmente deprimente, porque Cenoura tentava me convencer a não comer aquele bifão delícia e suculento. Um dia ela até apareceu com uma camiseta escrita “meat is murder”, mas simplesmente abandonou a campanha quando eu apareci com uma paródia onde dizia “killing is murder”.

Era até bonitinho quando saíamos ambos de mãos dadas usando essas camisetas.

Apesar de ser vegetariana hippie style, esse negócio de amor livre não era com Cenoura, pra meu desespero devo dizer. Tive que trabalhar bastante na conquista dela. Muita maconha tive que investir e muito beiço tive que gastar beijando-a antes do cobiçado vai-e-vem da piroca ensandecida.

O que me intrigava deveras ao transar com Cenoura era que não chupava. De. Modo. Algum. Dizia-me nesta entonação resoluta. Relevei, afinal, era guria nova, ainda tinha tabus a quebrar, frescuras a abandonar e pregas a perder. O sexo também não era lá grande coisa, preciso confessar. Tenho a impressão que a CARNE realmente não era o forte desta vegetariana de estômago e coração. Mas eu a amava e estava disposto a ensiná-la os requebres mais rocambolescos do mundo sexual. Tudo era questão de tempo.

Certa feita cheguei na casa dela, como tinha a chave, fui logo entrando - sabia que os pais de Cenoura estavam trabalhando, de modo que era meu horário preferido para visitas íntimas, if you know what I mean. Abri a porta do quarto dela e vi o que até hoje me corta o coração e me escorre uma lágrima (apenas uma) pela bochecha direita (nunca a esquerda). Cenoura estava com a saia levantada, sem calcinha. Não, ela não estava com outro homem, nem tampouco com outra mulher (esta última opção na verdade seria bastante interessante). Agradeço por ela também não estar com nenhum cachorro ou qualquer coisa assim. Não, meus amigos, ela absolutamente não estava com homem ou animal.

Ela estava usando uma c-e-n-o-u-r-a. CENOURA.

*Suspiro*, finalmente entendi o apelido. Até hoje não como cenouras (e assemelhados fálicos) por conta desta história. Não que eu as culpe de alguma coisa, pobres cenouras, mas vai saber que diabos pensa a cozinheira do lugar?

abril 20, 2007

Maribel

Estava eu na casa do Zé num de seus famosos aniversários quando vi ela entrando. Absolutamente provocante, sem sequer fazer esforço pra isso. Tinha cabelo chanel ruivo, pele bem branquinha, boca carnuda, olhos azuis, ostentava decote generoso e uma cinturinha ótima pra botar a mão. Deixei ela se inteirar um pouco das pessoas na festa e, claro, beber um pouquinho até me aproximar.

- Oi? - disse, meio espontaneamente, quase que por cortesia, quando fingia passar por entre ela e uma outra guria.
- Oi, Dinho! - disse ela dando um enorme abraço como se me conhecesse de anos. - nossa, a quanto tempo não te vejo!

Eu não fazia idéia do que ela estava falando.

Nessas horas a gente sempre pensa “merda, qual o nome dela? De onde a conheço?” e, o mais importante, “será que já comi?” Graças a deus a amiga dela disse “Maribel, vou ali pegar uma ceva, fica aí conversando”. A notícia boa é que eu já tinha um nome, a notícia má era que eu continuava sem ter a menor idéia de onde era essa tal Maribel.

Graças a habilidade de falar sem parar dela, a conversa foi fluindo, o que foi ótimo para mim que só precisava rir, dizer que sim, fazer um comentário genérico como “que momento heim?” e tentar desvendar de onde diabos nós nos conhecíamos. Comecei a juntar o quebra-cabeças quando ela falou de alguns amigos que eu não via há uns bons 6 ou 7 anos e aí eu lembrei de tudo, quer dizer, pelo menos lembrei quem Maribel era.

Conheci Maribel numa das épocas mais esquisitas da minha vida - no meio daquele estranhíssimo abismo entre a adolescência e a vida adulta. O que podemos concluir daí, tendo eu nascido há algum tempo, é que estava começando a me divertir com as pequenas não sérias de maneira mais séria ainda que não séria. Sacou? Sim, sim, estou falando do bom e velho vai-e-vem, beijo, te ligo ano que vem. Se você é um adolescente hoje, não se espante, na minha época as menininhas não deixavam a gente visitar a Chechênia tão facilmente. Acredite. Houve uma época em que tu tinha que realmente ralar pra isso - até mesmo com tua namoradinha. Desta forma, quando você se dava bem numa festa, não significava exatamente que iria MESMO se dar bem.

E esse foi o caso com ela, dei uns beijinhos numa rave (eu disse que era uma fase estranha da minha vida), mas não passou disso. Primeiro porque ela era uma menininha ainda, segundo que era lésbica. Sapatona mesmo, dessas que até beija homem quando tá meio bêbada, mas dar? Há! Nem pensar, magrão.

Quando a amiguinha dela voltou com duas cervejas, entendi que eu estava sobrando. “Ok, eu estou aqui passando cantadas numa lésbica, provavelmente aquela ali da cerveja é a namorada e em breve eu vou estar apanhando de duas mulheres, ora de partir pra outra”. Certamente tu sabes que eu sou um sujeito bastante resignado. Não tento nada com muito afinco, se não rolar, não forço.

Se você já foi em festas na casa de alguém (ou viu algumas comédias adolescentes de Róliudi) sabe que em determinado momento rola o famoso “salve-se quem puder”, onde metade da festa está se beijando e tirando a roupa em cantos obscuros do lugar e a outra metade está indo embora porque suas namoradas não podem ver aquilo. Eu infelizmente não estava incluso nem no primeiro grupo, muito menos no segundo, de modo que me sobrou apenas beber até morrer (nunca fui lá muito galanteador, quando fico bêbado eu fico anti-social).

Estava eu indo em direção ao banheiro quando ouvi uns gemidos muito delícia. Bêbado que estava, decidi averiguar o mistério (ou, como diria o Chaves, “a very güei mister yo”). Com um pequeno empurrão abri totalmente a porta que estava entreaberta e encontrei Maribel e sua amiguinha, ambas deitadas na cama, a amiga por cima, ambas vestidas, mas rolando aquele amasso delícia. Fui fechando a porta, resignando-me a ser xingado por ter aberto quando de repente Maribel disse “Dinho, vem cá um pouquinho”.

Com certeza não foi isso que me passou pela cabeça, mas podemos traduzir com um simples “Obrigado, Senhor”.

Me deitei junto delas e beijava uma e outra. Tentamos até um beijo triplo, mas isso é o tipo de coisa que só faz a galera encostar as bochechas umas nas outras enquanto sacode a língua pra lá e pra cá. Na real nem rolou nada além disso, só uns beijinhos, uma mão aqui, outra ali. Mas foi bastante divertido.

Depois daquela festa Maribel brigou com essa menina que era uma espécie de namorada, diz ela que a guria reclamou da minha presença, quando ficou sóbria. Não sei ao certo, só sei que passamos a nos ver como bons amigos. Bebíamos pra caralho juntos, íamos a praia juntos e, claro, transávamos. O sexo era bom, não me entenda mal, mas tinha uma coisa estranha. Maribel de jeito NENHUM me deixava chupá-la. Nunca perguntei a ela, mas imagino eu que a coisa seja simples: mulheres devem saber fazer isso bem melhor que homens, já que entendem totalmente a lógica da coisa por possuírem o equipamento.

Na verdade essa não era a única coisa estranha de sair com Maribel. Por força do hábito, imagino, ela me tratava às vezes como se fosse uma mulher. Não estou falando de dedo no rabo, não, sai pra lá! Mas tipo assim, quando íamos em um restaurante, ela enchia o saco até pagar a conta. Não estou falando em dividir a conta, tão popular nesses pouco galanteadores anos 2000, estou falando de pagar toda a conta. E isso se repetia sempre no cinema, no motel, nos bares. Talvez ela sentisse que fosse responsabilidade dela, nunca entendi.

Outro troço interessante de sair com Maribel é que ficávamos falando de mulher - as mais gostosas, as que mais sabiam dar, as mais fracassadas, enfim. Era só passar uma gostosa que comentávamos. Isso tudo era realmente perturbador. Tão perturbador que às vezes eu é que me sentia gay de estar saindo com ela. Pense bem: tomar cerveja e falar de mulher, eu estava praticamente saindo com um de meus amigos. A única questão é que ele tinha peitos e, obrigado senhor mais uma vez, não tinha pau.

Só que nunca esqueci que Maribel era mulher e, como mulher, era suscetível a todo tipo de ataque frenético sem motivo aparente. Nessas horas ela era realmente uma mulherzinha. Gritava, ficava brava, fumava e então fazíamos as pazes transando enlouquecidamente, aí era quando ela revelava seu lado mais fêmea - gostava de ser dominada, xingada, essas coisas.

Num desses ataques, ela já estava sem blusa na minha cama quando disse que não iria transar comigo. Acostumado com suas mulherzices, desencanei - como já disse, não sou muito de ficar tentando as coisas. Fui levar ela até em casa, mas ela pediu para que passássemos em um barzinho qualquer, para beber uma ou duas cevas. Eu disse que não tinha dinheiro. Ela obviamente disse que pagaria tudo, era o jeito dela fazer as coisas e eu concordei. No fundo, eu gostava muito de ficar ao lado dela, um amigo mulher que transava, o que mais eu poderia querer? Sentados no bar, ela começa:

- Dinho, eu gosto muito de ti.
- Eu também, cara. - bebi minha cerveja, olhando em volta.
- Dinho, tu não tá entendendo. Eu não quero ser só tua fodinha.
- Mas tu não é, porra!
- Não? - Os olhos dela brilharam.
- Claro que não, tu é minha amiga.

Palavras erradas na hora errada. Ah, depois que eu disse essa última frase a cara dela e o tempo fechou pra mim. Maribel acendeu seu cigarro. Estava a caminho um dos ataques histéricos, eu tinha certeza. Ela pegou o copo de cerveja e jogou o conteúdo em mim. Não chegou a pegar na minha cara, mas minha camiseta ficou toda molhada de cerveja.

- Tu é um idiota mesmo, Dinho. Tu não vê que eu não quero ser tua amiga?

Essa foi a vez dela dizer as palavras erradas. Jamais mencione, mesmo de leve, “namoro” para um homem que não está esperando por isso. Finalmente eu tinha entendido, ela gostava de mim mais do que eu dela. Eu só queria uma amiga que transava, ela queria amor.

- Mas... mas... mas... tu não gosta de mulher?

Ela urrou de raiva, levantou-se e foi embora a pé - não sem antes pagar a conta.

Nunca mais nos vimos. Uma pena.

abril 17, 2007

Ângela

Ah, Ângela. Ângela, ângela, angel. Um anjo no primeiro encontro. Uma coceira incomoda no sexto (assim como escrever “Ângela”, esse acento no início junto com a caixa alta é um saco). Um vômito de mendigo bêbado sobre meu colo no décimo segundo. Uma colisão de um caminhão desgovernado cheio de dinamite, nitroglicerina e ácido sulfúrico contra as minhas bolas depois do vigésimo. ÂNGELA.

Ela não era muito alta, não era magra, mas não era gorda também, sabe aquela coisa meio termo? Pois é, esse era Ângela o peso, meio termo, médio. O cabelo muito, muito, muito liso e preto como petróleo. Tinha cara de chinesa - ou seria vietnamita? - não sei, na real, era de família oriental. Era bonitona a mulher, porque Ângela era de fato uma mulher. Tinha uns 5 ou 6 anos a mais que eu cronologicamente, mas minha idade era a mesma dela mentalmente. Não sei dizer se eu era velho àquela época ou era ela a criança, pouco importa, o negócio é que Ângela conquistou meu coração como poucas. Aquela coisa avassaladora, logo nós dois estávamos dormindo juntos e trocando juras de amor ao acordar. Caso sério.

Conheci-a em um parque de diversões. Eu sei, clichê romântico de budget film hollywoodiano, mas não é bem por aí, o caso é que a conheci porque foi ela que me salvou de um palhaço assassino que me seqüestrara. Certamente você sabe que eu tenho muito medo de palhaços, afinal, fora o fato de serem uns palhaços, todos eles tem um olhar maligno e demente. Estava passando pelas imediações do parque de diversões e lá estava o maldito palhaço. Ele me cumprimentou com uma flor que esguichava água. Cumprimentei de volta com um pedaço de madeira que havia no chão. Nuncou soube brincar, me acusavam. Ângela foi quem me acalmou, fez eu abaixar o pau e, bem, na real, levantar o pau depois, em particular.

Tivemos nossos momentos. O sexo era selvagem e a coitada às vezes reclamava que doía - era curta, eu acho. Não, não sou eu que sou grande não, eu vejo filme pornô e sei que aquilo é grande, não isso aqui. Mas não me deixe desviar do assunto, o sexo era muito bom e nos dávamos bem. Íamos ao parque pela manhã, ao cinema à tarde, aos bares à noite. Era uma companhia perfeita, falávamos sobre tudo horas a fio. Ela tinha o maior jeitão de ser a mulher perfeita da minha vida.

Até que os problemas começaram.

Depois de um tempo (curto) em que ficamos íntimos, toda vez que ela me encontrava - ao vivo, no telefone, no messenger, por e-mail, ICQ, skype ou carta (nem vou contar aquela vez com o telefone de lata) - antes de qualquer coisa, antes de dizer “oi” até, me largava uma reclamação sobre a vida. É compreensível que isso pudesse ocorrer durante o período típico de psicopatia das mulheres, mas não sempre. Também é compreensível que se reclame de coisas que eu tenho contato, mas não de pessoas que eu sequer tinha ouvido falar antes, de modo que era extremamente comum diálogos assim:

- Oi, puta que pariu (ah, ela falava uma cacetada de palavrão), odeio o Epaminondas. Ele não sabe mais o que fazer para encher o saco?
- Quem?
- Epaminondas.
- Quem é Epaminondas?
- Meu professor de Energia Nuclear 15.
- Ah.
- Ele fez... - E aí seguia um monólogo de 340 minutos sobre reclamações que absolutamente não me interessavam. Eu realmente não precisava saber se o professor tinha dado um trabalho de 15 páginas pra daqui a 2 dias sobre energias alternativas malucas que eu sequer sabia o que significavam, nem tampouco aquelas 12 termos da tabela periódica ou de uma embalagem de xampu. Eu realmente não precisava. REALMENTE.

No início era só levemente incômodo, talvez por conta da paixão, mas o caso é que o troço passou a proporções absurdas. Eu não falava mais nada, só ouvia reclamações. Cada vez que via que era ela ligando batia uma depressão. Mas o sexo ainda era bom.

Então eu agüentava firme.

Até o dia em que nem firme conseguia mais ficar, brochei 5 vezes seguidas. Nunca mais saímos. Ela se casou logo depois com um psicólogo.

Hoje recebi a notícia que o psicólogo se matou.

março 26, 2007

Melinda

Melinda me deixava louco desde o segundo grau. Não me entenda mal, não estou falando de paudurecência e o caralho, nada disso. Não, não, o negócio não era carnal, tão pouco platônico. Pra falar bem a verdade, Melinda era a mulher mais sem graça de toda a turma, provavelmente a mais sem graça de todo o universo das turmas do segundo grau do universo conhecido. Não que ela fosse feia, mas bonita ela com certeza não era. Pra dizer a verdade era quase feia ou quase bonita como um copo pela metade em que não conseguimos decidir se está meio cheio ou vazio. Ela era pequena, bem magrinha, cabelo escorrido e cortado meio reto, a cor eu não conseguia decidir se era meio claro ou meio escuro, praticamente sem peito nenhum, pernas finas, andava com umas roupas bem discretas, algo como uma blusinha e calça jeans, tudo liso, discreto. Melinda era como eu aprendi que a água deveria ser (até inventarem o refrigerante e essas águas de veado com leve sabor):

Insípida, inodora, incolor.

Acho que tinha um outro adjetivo para a água das aulas de Ciências da 5a série, mas agora não me ocorre. Líquida talvez? Não, não, bom, deixamos disso e vamos dar prosseguimento a coisa.

Aí você vai dizer, porra, mas como que tu nota tanto uma menina tão sem sal? Aí que está, cumpadi, eu não notava. Porém, um dia tudo isso mudou.

Não sei desde que época estudávamos na mesma sala, o caso é que eu nunca a notara antes. Talvez eu que seja ruim de memória, mas meu colégio não era grande, de modo que com certeza eu já deveria tê-la visto, mas o caso é que não me lembro jamais de ter notado Melinda, nem mesmo com esse nome não tão usual, até que percebi ela sentada na classe logo a minha frente.

Aquilo intrigou-me pouco, é verdade, mas estávamos no meio do ano e era a primeira vez que eu via aquela guria sentada a minha frente. Comecei a notá-la cada vez mais em todas as aulas. E, como que mágica, ela sempre sentava a minha frente. Não importa o lugar que ela escolhesse ou que eu escolhesse, Melinda estava sempre lá, com aqueles cabelos retos, lisos e escorridos, nem pretos, nem loiros, à minha frente. E note bem que isso não era algum tipo de implicância ou charminho, pois muitas vezes entrávamos na sala antes do sinal, deixávamos nossas coisas embaixo da classe e só então retornávamos a sala - só para descobrir que lá estava ela de novo, sentada no lugar logo na frente de mim.

Mas não era só na classe que ela ficava na minha frente. Em todas as provas ela tirava uma nota um ou dois décimos acima da minha. No bar, quando ia comprar alguma coisa no intervalo, lá estava ela. Quando ia matar aula e jogar sinuca no bar perto do colégio, ela e suas amigas já estavam ocupando a mesa. E quando nos formamos (eu sei, formaturas de segundo grau não deveriam existir) adivinha se o nome dela não era antes do meu? Melinda estava sempre à minha frente. Mesmo depois do colégio, vivia encontrando ela em todas as festas, sempre à minha frente.

Quando fui viajar para Londres, nunca tinha saído do país e queria ver qual é, você sabe como é, intercâmbio e essa coisa toda. Fiz o check-in e embarquei no avião. Como minha poltrona era bem no fundo, tive que ir esperando as pessoas que acomodavam suas bagagens de mão no compartimento para bagagens de mão se sentarem para desocupar o corredor. Quando finalmente me aproximei do meu lugar, uma última pessoa ainda me impedia de chagar lá.

Era Melinda.

Logo à frente da minha poltrona.

Aquilo me deixou maluco. Era mais que improvável. Era totalmente impossível. Não pude evitar e começar a trocar um papo gigantesco com ela. Ela me disse que já tinha estado em Londres anteriormente e que desta vez queria ficar um pouco mais. Acabamos descobrindo que estávamos com reservas para o mesmo hotel, o meu quarto no 4o andar, o dela no 5o, bem acima do meu. Papo vai, papo vem, ela me mostrou o que conhecia de Londres e aquele sentimento maluco de se estar longe da terra natal e dos entes queridos nos aproximou de modo que não conseguimos evitar de transar uma hora ou outra.

Na nossa primeira noite sem roupas, logo depois de umas 5 ou 6 trepadas, eu descobri que o destino estava me dizendo, durante todo aquele tempo em que ela estivera sempre à minha frente, que eu fui feito para ficar bem atrás dela.

- Deus, como ela sabe mexer aquela bunda!

fevereiro 03, 2007

Magali Magalhães

- Arrogante fodida do caralho. - pensei, sentado à mesa rústica de madeira na nossa cozinha, com o garfo fuçando o ovo frito de gema dura que estava no meu prato.
- Não me chame de arrogante, seu tarado filho da puta. – Disse Magali, minha esposa.
- Eu não disse nada, Magali.
- Mas pensou.
- Odeio quando você lê minha mente.
- Eu sei, eu leio mentes, lembra?


Ela fazia isso pra me irritar. Devo ter esquecido de mencionar, mas minha mulher é uma maga no sentido mais pleno da palavra. Não que ela não faça exatamente como todas as outras mulheres que eu tive que sumiam magicamente com meu dinheiro, estou falando de um tipo diferente de magia. Mágica da grossa, com letra maiúscula. Todo esse troço de vudu, gris-gris, abracadabra, sinsim salabim, etc e tal.

Ela era arrogante demais por conta disso.

Quer dizer, uma pessoa que batendo as palmas da mão contra um gato morto podia fazer chover, talvez poderia se reservar ao direito de ser arrogante de quando em vez, como naquela vez em que ela fez chover no casamento de uma ex-namorada minha só porque sim. Mas ela passava dos limites na arrogância. Era tão arrogante, mas tão arrogante, que a máxima extrema punição que ela aplicara aos seus amigos (e marido) era deixar de procurá-los, “privando-os do seu convívio”.

Ah, o que é que há, eu como sua prima e a máxima punição que a Maga Magali Magalhães consegue conceber é não falar comigo durante uma semana? Puxa, isso me parte o coração.

O caso é que ela era arrogante pelos motivos errados. Muito errados. Se ela ainda fosse arrogante por ser mágica na cama (o único motivo que me fez olhar pra ela com outros olhos). Talvez no círculo de seus amiguinhos de sobretudo preto, chapéus pontudos, Marlboro Lights e grimórios medievais suas peripécias mágicas fossem grande coisa. Admito, aqui e ali eu mesmo já fiquei impressionado quando ela desenhava aqueles círculos esquisitões no chão e falava com uma voz de Darth-Vader-dublado-pelo-SBT para logo depois aparecer com o número de telefone de um amigo que queríamos ver e tínhamos perdido contato. Mas, sabe, nós não-magos não damos a mínima se você tem o telefone celular do diabo ou se consegue fazer chover sapos, não é motivo de orgulho. Portanto não seja arrogante por conta disso. Principalmente quando usado de uma maneira tão idiota e leviana.

Estava eu ali na mesa com aqueles malditos ovos fritos muito passados no meu prato. De que adianta saber fazer chover, falar com o capeta e mais toneladas de esquisitices mil se ela sequer consegue fazer um ovo com gema mole pra eu misturar no arroz?

- Maldita arrogante dos infernos.

maio 31, 2006

Marla

Capítulo I
Brigas a dois - mudanças a um - sexo a três


- É!
- Não é!
- É!
- Não é!
- É!
- Não!
- É, sim!
- Não é!
- É!
- Não é, não!
- Claro que é!
- Não é mesmo!

A essa altura eu não fazia a menor idéia do que eu achava que “é” e provavelmente ela não fazia a menor idéia do que “não é”, de modo que se um dos dois porventura se enganasse ou até mesmo mudasse de opinião e utilizasse o argumento do outro, também mudaria o argumento da outra pessoa. O importante, como se pode ver, é que discordávamos.

E, caralho, discordávamos um bocado.

Essa pode não ter sido uma das discussões mais produtivas que tivemos nos últimos meses - e a gente discutia bastante nos últimos meses - mas teve algo de sublime, de impasse definitivo, como um sujeito segurando uma arma apontada pra própria cabeça, ameaçando matar-se para um outro sujeito que fazia o mesmo para a própria cabeça. Então lancei meu último e derradeiro argumento, aquele que todo mundo usa num impasse como esses:

- Ah, vai se foder!
- Vai você! - ela imediatamente rebateu, como quem apenas quer continuar a discussão.

Eu ignorei. Eu sabia que ela gostava de discutir e odiava ser ignorada. Marla era o tipo maluco de mulher com quem me envolvi durante toda a minha vida. Não importa o quão santa ou pervertida era, se ia a igreja (como uma ex-namorada chamada Maria, que na verdade era finlandesa e não hispânica) ou se vendia crack para crianças na esquina (como a infame Jô-jô, outra ex), o que importa é que eram sempre extremamente loucas por algo, às vezes por mim, às vezes por meu pau, às vezes por minha irremediável falta de dinheiro e malandragem, às vezes por que às tratava como putas, às vezes por que achava que eram santas, às vezes por tudo isso e às vezes por qualquer coisa externa que simplesmente não tinha a ver comigo, mas sim com as circunstâncias, como o fato de eu ter um apartamento e não cobrar pra elas morarem. Estas últimas eram chatas pra caralho, mas em geral ficavam contentes em ter um canto e me agradavam de tudo quanto é jeito. Para mandá-las embora também era simples, bastava esconder coisas de valor e dar sinais, uma semana antes, de que as coisas não iam bem - elas rapidinho arranjavam um outro otário com quem morar e davam o fora sem grandes problemas (exceto Cíntia, que cagou em todas minhas duas panelas).

O problema é que Marla estava lá não pela grana, mas por mim, e eu não sabia como lidar com ela. No último mês tive a esperança de todo dia voltar pra casa e encontrar o apê vazio, mas isso nunca acontecia. Então passei a vagar algumas horas na rua e chegar muito tarde, para ver se a pegava dormindo e saia antes de ela acordar. Mas o problema é que a santa puta da Marla sempre me esperava acordada, gritava comigo porque eu chegara tarde, mas sempre tinha comida quente depois dos gritos e isso me fazia ir pra cama feliz e dar uma nela. Ela tinha até começado a fazer coisas que antes não fazia, só pra me agradar, as mulheres sabem exatamente quando o cara não é mais delas então elas ficam mansinhas e tentam fisgar o cara de volta de qualquer jeito. Esses dias cheguei em casa, tarde e bêbado, e lá estava uma amiga gostosa dela, Sandra, enfermeira num hospital qualquer, dividindo a nossa cama, elas estavam acordadas e me esperando. Foi uma festa e tanto.

Mas Marla era nada, isso não ia adiantar. Sabendo disso, eu decidi ser direto:

- Vai embora, eu não quero mais você aqui.

Ela estancou, me olhou com desconfiança, como se refletisse se era realmente eu ou algum serial killer havia me esfolado vivo e vestido minha pele, como se aquilo que eu tivesse dito fosse completamente impossível ou surreal. Marla realmente não entendia nada de porra nenhuma, ainda que fosse inteligente pra outras coisas, era uma criança de 6 meses quando o assunto era relacionamento homem/mulher.

Depois de alguns longos segundos ela finalmente se moveu, como se o tempo tivesse voltado a correr de maneira natural, e, sem mais nem mais, ela me perguntou amavelmente:

- Você quer seus ovos moles ou duros?

Aí foi a minha vez de ficar paralisado. Nossa vida já era surreal, mas aquilo eu realmente não esperava dela. Ela aparentemente amava qualquer discussão, interromper uma e aparentemente esquecer algo é o que Marla, e a maioria das mulheres, jamais faria a não ser que algo estivesse muito errado.

Durante toda a semana Marla foi um doce. Me buscava cerveja na geladeira, não enchia o saco quando eu queria ver o jogo, liberava-me para sair com meus amigos, não ficava me esperando quando eu chegava tarde, mas acordava quando eu deitava na cama e imediatamente procurava meu pau, pedia para dar o cu no meio de uma foda e engolia tudo sem aquela cara bizarra de quem acaba de virar de uma vez só um copo de café gelado esperando que fosse um copo de coca-cola. Até raspou toda a virilha em vez de deixar aquele triângulo de pêlos que eu sempre reclamei.

Minha vida estava bem boa até.

Na sexta-feira à noite, prometi a Marla chegar cedo para que fossemos ao cinema. Como tinha esquecido minha chave, bati a campainha. Quem atendeu foi Sandra, aquela morena gostosa amiga dela, vestia um conjunto de lingerie preto, cinta-liga e espartilho, me puxou pra dentro e me beijou. Agarrei forte a bunda dela e senti uma terceira mão passando por mim e me prensando por trás. Olhei e era Marla, também vestida sensualmente. Marla derrubou na minha boca uma taça inteira de sabe-se lá que vinho branco, mas tinha uma textura bem espessa, mas não era muito longo, isso também não fazia tanta diferença. Marla serviu Sandra na boca também, depois fomos pra cama, derrubando um tranqüilo flamingo que repousava no meio do caminho como ornamento.


Capítulo II
Ressaca mortal - alguém bate à porta


Sede.

Muita sede.

Abri os olhos e senti o peso da luz nos meus olhos recém acordados como se eu equilibrasse um parque de diversões, com todas aquelas carrocinhas de algodão doce e rodas gigante, sobre a cabeça. Estava pelado, envolvido em lençóis bem conhecidos, porém com uma mulher loira de farmácia, não muito bonita é verdade, mas tinha um belo par de peitos. Desconhecida, mas peituda, ponto. Nem precisava ser detetive pra adivinhar: a clássica bebedeira dos perdidos no mundo que acabam tentando se encontrar nos braços das drogas, álcool e o primeiro par de pernas com um buraco no meio (ou par de peitões). Tudo isso temperado especialmente com o não raro acepipe da falta de memória total. É, não me lembro de nada.

Porém, logo notei que também não era necessário ser detetive para notar que a desconhecida nua ao meu lado aparentemente tinha recebido uma facada bem aplicada nas costas e não estava mais respirando. Esse é o tipo de coisa que nunca tinha acontecido comigo. Quando a gente brocha é difícil saber o que dizer, mas quando você acorda com uma pessoa que tem uma faca nas costas, a coisa parece ser bem mais complicada.

- Tô fodido.

Me levantei de um salto logo que percebi o dano na moça. Ela tava gelada e dura pra caralho. Já não tinha o melhor dos cheiros também. Vasculhei o apartamento pra ver se achava uma carteira ou coisa assim.

Nada.

Andei pra lá e pra cá no apê, cuidando para desviar do flamingo caído no chão e para não pisar forte demais. Os vizinhos não são tolerantes sábado de manhã. Espera. Já é de tarde. Ai meu Deus. O que eu fiz ontem?

- MARLA! SANDRA! Claro, eu estava com elas. Onde elas estão?

A campainha tocou, como é de costume das campainhas, sem qualquer aviso prévio. Fiquei estático, se alguém pudesse me ver, certamente se depararia com uma cena engraçadamente trágica: olhos arregalados, cabelo desgrenhado, cara de quem foi atropelado por um caminhão depois de cair numa piscina de ácido e o saco balançando pra lá e pra cá. A campainha insistiu mais uma vez, desta vez com mais barulhos impacientes. Logo após quem estava na porta bateu forte à porta e disse:

- Polícia, abra a porta!

Era só essa que me faltava. Sem me ocorrer qualquer outro pensamento mais inteligente pela minha recém acordada cabeça, gritei: - só um minuto, estou me vestindo. Não seria muito inteligente esconder o cadáver, mas também não seria nenhuma prova de esperteza abrir a porta para um policial. Com o sujeito batendo à porta como se tentasse abrir os portões do inferno pelo lado de dentro e continuando seu discurso nervoso com frases de efeito como “abra, rápido, antes que derrubemos a porta” e “sr., esse é o último aviso”, me vesti rapidamente, joguei o lençol sobre a loira mórbida e abri a porta com uma cara de sono (encenada sem muito esforço pelo meu estado atual).


Capítulo III
amigo é para essas coisas - quem é vivo sempre aparece


Abri a porta e me deparei não com um policial, mas com Márcio, um desses amigos da Marla que faz questão de parecer embaraçoso para todo e qualquer namorado dela. Cobri a porta para não deixá-lo entrar. Ele exibia um sorriso zombeteiro no meio da cara e perguntou o que é que estava pegando, eu informei-lhe a coisa mais verdadeira que, na minha posição, qualquer um diria:

- Tô com uma mina aqui em casa, se manda, eu e a Marla acabamos. - Comecei a fechar a porta sem dar grande abertura para o diálogo, mas ele meteu o pé na porta, forçou e entrou. Ele riu e disse alguma coisa sobre a Marla, enquanto abria a geladeira e perguntava se podia pegar a última cerveja (o que ele obviamente não fez ele recuar e largar a latinha quando eu disse “não”). Eu estava apavorado demais pra entender qualquer uma das piadas sarcásticas do Márcio - que na maioria são pra ele mesmo de toda forma, às vezes eu tenho plena certeza que ele vive em um mundo paralelo, onde ele está constantemente participando de um reality show baseado em um stand up comedy. Eu até acho o cara legal, mas, sabe, acordar de ressaca com uma mulher morta na sua cama acaba com o humor de qualquer um.

Então eu comecei a empurrá-lo sem grande violência, mas com vontade de ferro, para fora, enquanto ele ia aceitando ser enxotado, mas não sem antes ir pegando tudo que tinha de comer no caminho. Abri a porta e lá estava Marla, procurando algo na bolsa.

- Ah, obrigado, amor, eu não estava achando a chave mesmo. - me disse ela, mirando depois o segundo ocupante da sala - ah, oi, Márcio.

Os dois trocaram piadinhas, como de costume, e Marla disse que estava querendo tomar um banho e coisa e tal. Eu puxei ela pelo pulso.

- Não, não, você não deve entrar aí.
- Ué, porque não? Eu preciso dum banho.
- Não, mas aí não, vamos no Sheraton.
- O quê?
- É, você toma banho no Sheraton.
- Vocês estão com umas vagabundas aqui? - aí a voz dela começava a soar ameaçadora.
- Bom, SIM. VÁ EMBORA. - quem pode me culpar? O que mais eu podia dizer?

Ela me deu um tapa e foi até o quarto, eu a puxei, Márcio me puxou pra protegê-la e de repente era todo mundo se puxando e empurrando como que em um jogo viking de rubgy misturado com ice hockey e muita vodca. Uma hora ou outra a porta acabou se abrindo e lá estava o peso morto da loira oxigenada que eu não sabia nem quem era, mas que sabia que me traria muitos problemas desde que acordei.

Marla puxou o lençol com força.

Aí, era questão de sentar e esperar os acontecimentos, não fiz propriamente isso, mas podemos considerar que desmaiar e cair está dentro dessa categoria.

Capítulo IV
Volta ao mundo - cumplicidade conjugal


Quando eu acordei, Marla e Márcio olhavam pra mim com apreensão. A essa altura explicar qualquer coisa seria loucura

- Como você come uma vagabunda na nossa cama e ainda enterra uma faca no lombo dela, seu idiota?
- Eu não sei. - obviamente recebi uns tapas por essa resposta sincera, tenho que ser mais inteligente. - espera, espera, é uma puta, ela é uma puta paga, porra! - e aí eu recebi mais uns tapas da furiosa Marla.

Márcio segurou um pouco a Marla e disse: - bom, é isso, temos que nos livrar do corpo então.
- É, isso, vamos enrolar no tapete. - Disse Marla.
- Tapete é clichê de Hollywood. - retrucou Márcio.
- Justamente por isso, o clichê é tão óbvio que ninguém vai pensar nisso. - Completou a minha querida mulher.

Enquanto eles jogavam pingue-pongue de opiniões sobre o que fazer com a noiva cadáver que estava na cama, fiquei estupefato com a frieza dos dois em decidir a situação pragmaticamente. Nunca tinha pensado sobre o que aconteceria quando fosse acusado de assassinato, porque esse é o tipo de coisa que não se pensa muito, mas certamente esperava loucuras mil, gente chamando a polícia, sirenes, fugas pela janela, comoção pública. Mas não, tudo que eu via era um par de pessoas resolvendo como tirar o corpo dali e dar um sumiço plus.

- Tá, mas alguém vai dar parte do desaparecimento e alguém pode ter visto o garanhão aqui trazendo ela. - Falou Márcio apontando pra mim, ainda me espantando com o pragmatismo com que encaravam a morte da loira.
- Não, ele não disse que é puta? Isso aí vão achar que foi morar na Alemanha com algum gringo que descobriu ela na rua. Já era. - Disse Marla - eu espero que tu tenha usado camisinha, seu inútil.

Eu não respondi nada, não acreditava que em meio a uma mulher morta na nossa cama a única coisa que ela conseguia pensar é se eu tinha usado camisinha.

- Ok, tapete - não sei quem falou, mas ambos se levantaram em direção ao objeto inanimado que pretendiam se livrar.
- Ei, marmota, vem ajudar a carregar sua bucetinha fria pro tapete - disse Marla.

Fiquei parado alguns segundos e me levantei, mecanicamente, e fui até o corpo. O Márcio pegou a loira pelas mãos. Aí foi só piloto automático, quando vi, eu estava com um tapete envolvendo um pedação de carne de gente no porta-malas do carro, que era guiado por Marla pra sabe-se lá onde.

Capítulo V
Volta à vida - fidelidade conjugal


Quase toda noite eu não conseguia dormir pensando no episódio. Não conseguia nem transar direito com a Marla. Parecia que aquela cama tinha cheiro de morte.

Peguei um cigarro dela e acendi no meio da noite. Marla acordou e me perguntou o que estava acontecendo. Me levantei, botei minhas calças, All Star e uma jaqueta e fui dar uma volta na rua.

Procurei um bar qualquer o mais rápido possível e entrei deixando o vento cortante e frio pra trás. Engraçado como a gente nunca nota esses bares esquisitos perto de casa até precisar. Talvez eles surjam quando a gente precise, talvez a gente corra tanto que acabe indo sempre nos mesmos lugares e não vendo o que está de baixo do nariz. O lugar era simpático, bem vazio, só tinha uns tiozãos e umas tiazonas conversando numa das mesas, um me chamou a atenção porque usava peruca - ou tinha o cabelo mais anos 80 que eu já vi nessa década.

Rolava um Bob Dylan, just like a woman, se não me engano, num jukebox largado no canto. O ambiente parecia meio nublado de fumaça, já que a porta estava fechada para que o frio não fizesse companhia. Sentei no bar e chamei uma dose dupla de uísque. O garçom me perguntou qual, mas eu só respondi “o mais barato”. O troço descia quadradão nos primeiros 2 goles, no terceiro começou a amaciar. No quarto copo era a reserva de família do próprio Jack Daniel.

O grupo de tiozões se levantou pra sair. Já era tarde e o garçom deixou ali perto a garrafa pra eu me servir enquanto ele dava uns retoques no chão. Eu era a última alma e o garçom puxou um papo qualquer sobre futebol, eu disse qualquer coisa engraçada, mas não dei muito continuidade. Ele sacou que eu queria ficar na minha, então ficou limpando o chão e eu bebendo.

Meu celular tocou e eu obviamente imaginei que era Marla enchendo e me pedindo pra voltar. Peguei o celular e atendi dizendo:

- Eu já vou, não enche.
- Assim que você atende às amigas, é? - Uma voz suave e conhecida respondeu simpática, não era Marla.
- Achei que era outra pessoa.
- Não é a Marla, aqui é a Sandra.
- Ah, oi, a Marla que te pediu pra ligar pra saber onde eu estou?
- Sim, ela me ligou pra isso. Tudo bem? Onde você está?
- Se tu me convidar pra tua casa, saberá onde estou. - o álcool faz maravilhas com a desenvoltura de um homem.
- Hm - ela refletiu um pouco - pode vir, traga bebida.

Capítulo VI
Cumplicidade engarrafada em 8 anos


Estava enrolado nos lençóis dramaticamente vermelhos da Sandra, refletia que quando Marla não estava junto ela usava menos as unhas. Tinha uma bunda nada mal, além disso era enfermeira, uma ótima fantasia e algo bastante útil se eu precisar de algum calmante tarja preta pra dormir. Estávamos deitados, meio silenciosos do pós-sexo, bebericando o red label que eu levei pra amaciar a carne. Não que precisasse, é verdade, ela já chegou agredindo e dois minutos depois ela estava sem sutiã.

Não sei quem disse que o uísque é o cachorro engarrafado. Concordo.

- Sabe, a morte ronda a minha vida. - eu disse olhando pro nada.
- Como assim?
- Acabo de transar com a amiga da mulher que mora comigo, posso acordar morto amanhã se você resolver contar alguma coisa.
- Não se preocupe, eu não vou contar nada pra ela. - ela riu e me abraçou. Eu adoro quando elas abraçam e se aconchegam no meu peito. Dei um apertinho na bunda dela com uma mãe e com a outra eu apertei ela mais no meu peito. Ela dava umas risadinhas, o uísque já tinha feito efeito na coitadinha.

- Sabe de uma coisa, Marla é uma filha da puta. - ela disse rindo.
- Eu sei, uma maluca.
- Não, você não está entendendo - subitamente ela ficou séria - ela armou pra ti.
- Como assim, ela me chifrou? O que tu sabe, heim?
- Ela armou pra ti, tu não matou ninguém.
Não respondi nada, fiquei só olhando pra ela, atônito.
- Você não lembra que nós três estávamos lá na noite anterior? A Marla te drogou, ela me pediu uns remedinhos e misturou na tua bebida. Tu apagou um dia inteiro.
- E a mulher? - Disse pegando o pulso dela e provavelmente esbugalhando os olhos.
- Era uma indigente, já tava morta, ninguém reclamou o corpo dela no necrotério. Eu fiz uma transferência fria pra faculdade, botamos na tua cama e enfiamos uma faca na mulher que já tava morta. Por acaso tu não percebeu que não tinha sangue?

Me levantei da cama e comecei a me vestir rápido. - E o que vocês ganham com isso, porra?
- Eu não ganho nada, mas a Marla ganha sua fidelidade. Se você tentar largar ela, ela vai te ameaçar. No fim, se você realmente quiser ir, ela vai pedir o seu apartamento.
- Filha da puta! Eu vou me ver com essa vadia agora mesmo! Eu mato ela!

Capítulo VII
Dia de visita


Era dia de visita na prisão. Já faziam uns 3 ou 4 anos que estava preso, não contava pra não me desanimar. Assassinato de uma mulher, ninguém acreditou que não era um crime passional. Matar a mulher depois de transar, dizem que acontece bastante. Isso que eu chamo de sexo ruim.

Mas, como todo mundo ali, era inocente.

Estava sentado numa mesa ao sol. Ela se sentou na minha frente e botou sobre a mesa uma cesta com algumas coisas de comer. Ela me disse:

- Como tu está?
- Preso.
- Bom, tu nunca devia ter feito aquilo.
- Tu sabe que eu não fiz nada. Por que tu insiste em vir aqui pisar sobre mim?
- Porque eu te amo, seu idiota.
- Estranha forma de amar, tu deveria estar no meu lugar, presa, comendo esse angu horrível.
- Se tu não tivesse comido a Sandra, não estava na cadeia.
- Se tu não tivesse matado ela, eu não estaria aqui, sua puta!
- Puta é a Sandra, eu sou sua mulher, meu bem. Ela tinha que morrer. Não tenho culpa que suas digitais, pentelhos e porra tavam espalhadas por todo lugar, quem iria acreditar que você não a matou? Aquela história de roubar um corpo do necrotério pra praticar necrofilia com a sua amante não ajudou também. Mas sossega, em breve você tá livre e volta para o nosso ninho de amor.
- Eu te odeio, Marla.
- Eu sei, mas eu sou a única coisa que sobrou na tua vida.