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maio 30, 2010

1984, George Orwell

Nineteen Eighty-Four Acredite ou não, nunca tinha lido 1984 até algumas semanas atrás quando comprei o livro no aeroporto de Estocolmo. Eu gostei pra caramba, mais do que A Revolução dos Bichos, ainda que seja bem claro o link anti-comunas-fedidos dos dois livros.

Acho que todo mundo sabe, mesmo quem não tenha lido 1984, que se passa em um possível futuro totalitário onde o Partido domina tudo. Inclusive é de onde o nome “Big Brother” se origina – acho que a essa altura do campeonato todo mundo também sabe disso, então, dá-lhe inutilidade! Eu realmente gostei da ambientação, especialmente o conceito dos ministérios, como o “Ministério da Paz” que na real era responsável pela guerra e os “telescreens” que são nada mais do que televisões (com capacidade de filmar e ouvir também) que nunca podem ser desligadas. Dá pra ver onde Alan Moore buscou inspiração pra escrever seu V de Vingança.

Ainda que eu tenha gostado mais de 1984 do que do Admirável Mundo Novo do Huxley, acho que quem “venceu” a batalha em prever o futuro foi o Huxley. Enquanto Orwell previu o totalitarismo absoluto através da privação, controle, dor, sofrimento, medo, guerra e, principalmente, poder absoluto de um Partido central, Huxley em contrapartida imaginou a humanidade escravizada por prazer, hedonismo, drogas, excesso de informação irrelevante, enfim, algo bem anos 2000 se tu olhar para Big Brother (o programa de TV), revistas de fofocas, Twitter, Youtube, fast food, cigarrinho do diabo, álcool, etc.

Métodos diferentes, efeitos semelhantes (e nisso tanto Huxley quanto Orwell acertaram): uma minoria privilegiada comanda, uns 20% estão na camada um pouco mais baixa, mas ainda assim bem legal e a massa tá mesmo e se ferrando, completamente alienada e imóvel.
Boa leitura, meio deprê no fim, mas uma ótima reflexão.

dezembro 23, 2008

Como ser um grande escritor, por Charles Bukowski

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil -
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada -

um gosto precoce de morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente -
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela
bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque

e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.


(Charles Bukowski, in O amor é um cão dos diabos) - mas nem li o livro, só roubei d'O de Sempre Nunca, ou seja lá qual é o nome desse blog patrocinado pela Bavaria.

fevereiro 14, 2008

Smoke and Mirrors (Neil Gaiman)

Smoke and Mirrors (também lançado em português, sob o título "Fumaça e Espelhos") é uma coletânea de contos do mestre Neil Gaiman. A grande maioria deles tem um "quê" de terror, suspense, mistério ou bizarrice, mas isso não descreve bem a coisa toda.

Criatividade e imaginação talvez sejam o que fazem dele um ótimo livro. Gaiman transforma situações cotidianas em fantásticas em seus contos (tudo com um ar perfeitamente normal). Exemplos: um sujeito encontrando um bêbado em Los Angeles que é um anjo caído que lhe conta como Lúcifer começou sua revolução, um spin-off onde a Branca de Neve é uma espécie de vampira, uma senhora que vai a um antiquário e acaba comprando o Graal, um rapaz que acha uma agência de assassinos de aluguel na lista telefônica sob o título "controle de pestes", um guri que acha um Troll embaixo de uma ponte, um outro guri que perde sua avó após um desaparecimento em um show de mágica, enfim, as situações mais estranhas e as histórias mais criativas.

Provavelmente Neil Gaiman deve ver o mundo com olhos muito muito estranhos - que bom que ele não é egoísta e compartilha sua visão conosco, pobres mortais.

fevereiro 03, 2008

A Luz Fantástica (Terry Pratchett)

Esse livro é a continuação do primeiro da série Discworld, A Cor da Magia, e é tão engraçado quanto. Finalmente mostra o que aconteceu com Rincewind e Duasflor depois que caíram da borda do mundo. Há pouco a dizer, Terry Pratchett é foda. Em vez de tentar dizer o quão legal é ler este que é o escritor britânico vivo mais vendido, vou mostrar um pequeno trecho que mostra como o desgraçado escreve:

“(...)mas principalmente porque esse herói em particular era uma heroína. De cabelos ruivos.

Pois bem, nessas horas, existe uma tendência de olharmos a garota da capa de alguma revista e nos entregarmos a detalhes sobre couro, botas que chegam à altura da coxa e facas afiadas.

Palavras como “farta”, “roliça” e mesmo “ousada” se infiltram na narrativa, até o escritor ter que ir tomar um banho frio e se deitar.

O que é uma grande besteira, porque nenhuma mulher que se proponha a ganhar a vida com a espada vai andar por aí parecendo a capa do mais avançado catálogo de lingerie para especialistas.

Ah, tudo bem. O importante a dizer aqui é que, embora Herrena, a Megera de cabelos com Hena, pudesse ficar deslumbrante – depois de tomar um bom banho, submeter-se a um tratamento intensivo de manicure e escolher os devidos artefatos de couro na Loja de Suplementos Marciais e Produtos Exóticos Orientais de Woo Hun Ling, na rua dos Heróis -, agora estava vestida de modo bastante discreto, com uma leve cota de malha, botas macias e uma espada curta.

Tudo bem, talvez as botas fossem de couro. Mas não pretas.

Cavalgando com ela, havia inúmeros homens morenos que certamente não tardarão a morrer, de modo que uma descrição mais apurada não nos parece essencial. Não havia nada de ousado em nenhum deles.

De acordo com o gosto do leitor, eles podem ou não vestir roupas de couro.”


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janeiro 30, 2008

Escrituras

Eis que lhe digo o que todos aqueles que já escreveram alguma coisa já disseram: escrever é pura insistência - não raras vezes teimosia também. O que isso quer dizer? Quanto mais se escreve, mais se escreve. Por conseqüência, quanto menos se escreve, menos se escreve.

Óbvio, não?

Bom, eu dizendo isso não é muito convincente, mas o Neil Gaiman falando a mesma coisa já é outra história. Literalmente.

Há algum tempo venho adiando textos por motivos diversos, desde reais até os mais fictícios. Assim as idéias foram rareando até que . Então prometi a mim mesmo não sair daqui hoje sem algo escrito. Agora realmente não importa o quão bom, mas sim que algo seja escrito. Escrever é questão de prática.

Preciso praticar. Muito.

janeiro 25, 2008

Neuromancer (Willian Gibson)

“Nossa, então dá pra fazer isso com um livro?” - foi uma das primeiras coisas que eu pensei ao entrar na trama desse livro.

Neuromancer é um livro que te suga para o mundo bizarro dele. O livro se passa em um futuro não tão distante, onde uma tecnologia muito mais avançada está disponível e o limite entre homens e máquinas não é mais tão claro, por exemplo, é muito comum encontrar pessoas com implantes cibernéticos ou chips malucos que lhe dão conhecimentos ou habilidades diversas.

Neuromancer é um livro icônico do gênero cyberpunk, uma espécie de ficção científica hardcore. Enquanto os gêneros de ficção científica “pré-cyberpunk” focavam muito mais em como a tecnologia iria comandar / melhorar / organizar / etc a vida das pessoas, em Neuromancer a relação é totalmente oposta: qual seria a interação das pessoas com essa tecnologia. Muito mais humano. E muito mais provável. O que você pensa que seria mais provável:

a) a sociedade ser organizada em perfeita vigilância e dentro da lei por supercomputadores inteligentes; ou
b) a sociedade ser dominada por grandes corporações que vendem tecnologia para deixar as pessoas com poderes especiais, mais bonitas, com drogas mais loucas e experiências sexuais ampliadas?

O mundo de Neuromancer é isso aí, é um emaranhado caótico de redes, fios, chips, máquinas e a velha e boa capacidade humana de transformar tudo que toca em violência, desequilíbrio social, prazer e lixo.

O livro conta a história de Case, uma espécie de hacker freelancer que é contratado para realizar uma invasão dita “impossível” por um misterioso homem cujas alianças são desconhecidas. O próprio “herói”, Case, é um anti-herói total: marginalizado, drogado e que só entra na aventura porque não tem outra escolha, ou é isso ou ele morre. A aventura em si é desconhecida, ninguém sabe ao certo pra que as coisas estão sendo feitas e qual serão as conseqüências disto - mas com certeza ninguém quer salvar a humanidade ou qualquer coisa maravilhosa do gênero, cada um quer livrar o próprio rabo e só, se possível lucrando alguma coisa.

Gibson é tão importante que cunhou o termo “ciberespaço”, que hoje é usado como sinônimo de internet, e foi o cara que popularizou o termo “matrix”. Isso mesmo, “matrix”, aliás, a influência para o filme é gigantesca, há inclusive uma cidade espacial chamada “Zion” habitada por rastafaris.

Pessoas que morrem e têm a personalidade gravada em um computador, chips que se conectam a cabeça, inteligências artificiais tentando agir sobre a humanidade, uma rede que une todos os computadores do mundo em uma massa de dados malucos, hackers que se conectam por computadores pela cabeça, implantes cibernéticos sobre-humanos, clones assassinos, está tudo lá em Neuromancer. E tudo isso escrito nos anos 80.

Claro, justamente por ter sido escrito nos 80 há alguns “problemas” tecnológicos, como pessoas usando “disquetes”, memórias RAM extremamente baixas, computadores portáteis nem tão portáteis assim, enfim. Mas isso é irrelevante, o que importa é que Gibson redefiniu a ficção científica e influenciou uma porrada de coisas, inclusive obviamente “Matrix”.

Não sou muito de dizer que algo “precisa” ser feito, mas definitivamente Neuromancer é um livro que qualquer fã de ficção científica precisa ler.

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outubro 28, 2007

Lugar Nenhum (Neverwhere)

“O tipo de livro que Terry Pratchett escreveria, se passasse um mês trancado em um porão com Franz Kafka.” - Wired

Richard era um desses empregados de escritório londrino: trabalhava em um emprego que não era ruim, mas não era bom, tinha uma noiva meio mala, mas que era bonita, um amigo, mas que também não era lá grandes coisas. Tinha uma vida normal, até que uma desconhecida moradora de rua atravessa seu caminho sangrando. Depois de socorrê-la, tornou-se como que invisível para as outras pessoas e os poucos que podiam vê-lo não se lembravam mais dele. Não tinha nem pra onde ir, pois seu apartamento fora alugado para um casal e no seu antigo emprego ninguém tinha ouvida falar de Richard. Sem identidade, Richard não existia mais.

Pelo menos na superfície.

Porque na Londres-de-baixo, a Londres construída como um labirinto entre esgotos, galerias subterrâneas e estações de metrô desativadas ou não, todos podiam vê-lo, ainda que em geral o ignorassem. Essa outra Londres de pessoas que podiam falar com ratos, de reinos e baronatos subterrâneos, de povos estranhos, de monstros repulsivos ou vestidos em seda, de caçadores, de pessoas com poderes especiais, tudo longe dos olhos dos habitantes da Londres-de-cima, é onde ele precisa se virar, se adaptar a maluquice e estranheza (muito mais do que a da Londres que conhecemos).

Pra sobreviver nesse outro mundo, Richard precisa reencontrar Door, a mendiga que ele socorreu e que parece ter desencadeado todo o problema. Porém, achar Door não seria o maior dos seus problemas, na verdade eles ficariam realmente maiores depois de encontrar a jovem, pertencente a uma importante família da Londres-de-baixo que fora recentemente assassinada por dois psicóticos que ainda estão no encalço dela.

Não é a toa que Neil Gaiman é considerado um dos escritores vivos mais influentes e imaginativos.

Lugar Nenhum é o primeiro livro dele, mas na minha opinião não tem nada de “primeiro livro” nele, até porque Gaiman já tinha escrito Sandman que, apesar de ser em quadrinhos, ganhou inúmeros prêmios de literatura. Bom, pra falar bem a verdade, Neverwhere, antes de ser um livro, foi uma série de TV que ele escreveu pra BBC.

Resumindo: achei melhor que “Os Filhos de Anansi” e “Belas Maldições”. Neil Gaiman é foda e ponto final.

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outubro 25, 2007

Percepções aleatórias de uma mente randômica

Em linhas gerais, existem dois tipos de pessoa no que tange a falar e pensar: um tipo precisa verbalizar pra processar as informações (ou seja, fala para pensar) e outro tipo precisa pensar para falar (ou seja, processa tudo e, se der tempo, fala). Eu pertenço ao grupo que pensa pra depois falar. Não é presunção, nenhum é melhor que outro, há uma série de maldições para ambos os tipos, mas no nosso caso (eu e os outros que pensam antes de falar) acho que o principal esquema é: a cabeça não pára nunca de fazer associações, são tantas que a maioria é simplesmente lixo.

Pois é isso aí, este post é o lixo aleatória que eu um dia gostaria de desenvolver, mas nunca tive capacidade, vontade ou seriedade para tal:

- Todas as pessoas que usam som absurdamente alto no carro (significa que você ouve muito bem o som do lado de fora, mesmo com as janelas do carro fechadas) têm mau gosto. Garanto que você já notou, todos escutam músicas muito ruins, tipo funk, pagode e axé. Obviamente são homens. Pensando por que isso, matei a charada: mulheres que são atraídas por esse tipo de coisa, carros com som potente, gostam dessas músicas bagaceiras, porque, obviamente, são bagaceiras.

- Escritores não são astros, isso prova que a mídia livro é bem menos “santificadora” dos que a produzem. Prova? Basta ver o Luís Fernando Veríssimo andando tranqüilamente pela Feira do Livro sem ser interrompido. Se fosse a Syang, garanto que alguém pediria um autógrafo, ainda que nunca ninguém tenha ouvido uma música dela. Paulo Coelho não conta, ele não é um escritor, é um “MAGO”.

- Se John Lennon fosse vivo, ele certamente seria alguma espécie de ativista necrozoopedófilo. Primeiro porque era um mala sem alça e precisava subverter tudo e chinelear, segundo - e mais importante - sendo um Beatle e podendo escolher QUALQUER mulher no mundo, o cara escolheu a nipônica mais feia e mala que já pisou nesse planeta, isso com certeza significa que ele tinha fantasias sexuais com buldogues pintores ou algo assim.

- Se alguém escrevesse a bíblia hoje, ninguém acreditaria. Porque então acreditam, se ela sequer foi escrita durante o “mandato” do Cristo por aqui?

- Por que a minha família fala durante as refeições as mesmas coisas sempre? Não é a questão de usar o mesmo assunto, mas sim as mesmas frases, as mesmas entonações, as mesmas piadas usando as mesmas pausas estratégicas. Tenho duas possibilidades, a primeira é o que eu chamo mentalmente de “não-linguagem”: não quer dizer nada, é só pra passar o tempo, mais ou menos como a TV no domingo. A segunda é que as pessoas têm uma memória realmente ruim e só eu lembro que aquilo foi dito exatamente. Na real tem uma terceira, que gira em torno de eu estar preso em um looping na Matrix, mas na real não acredito muito nessa.

- Os cinemas de outrora, aquelas gigantões pra milhares de pessoas, todos eles viraram bingo ou igrejas. No fundo, continuam com o mesmo propósito: entretenimento para as massas.

É, é isso.

julho 06, 2007

Hannibal

Hannibal (estamos falando aqui do livro, não do filme) é meio bobo. Violento pra caramba, mas bobo. Talvez seja porque "O Silêncio dos Inocentes" é muito melhor, talvez seja só porque "Hannibal" não faz nenhum sentido no fim das contas.

No mínimo broxante o final de Clarice Starling, totalmente não condizente com seu status de "a policial caipira certinha que só age dentro da lei". Aliás, se não me engano, o final do filme é bem melhor que o do livro.

É um livro estilo O Código Da Vinci ou TV a cabo, leia sem esperar grande coisa e se divirta.

junho 12, 2007

Máfia da Cerveja

Ontem fui em um bar que não sei se tem nome, mas chamarei de "Máfia da Cerveja", porque é uma boa definição do que é e porque é um ótimo nome para um bar. Imagine um bar que lembra de alguma forma um antigo armazem de um boticário, armários de portas de madeira longas, garrafas de cerveja de todas as nacionalidades, formatos e tamanhos espalhadas por TODOS os lugares e uma incrível diferença de qualquer outro bar: ninguém te serve.

A coisa é simples, você vai até o armário dos copos, escolhe seu copo preferido, vai até o freezer, escolhe sua cerveja preferida. Repita o processo quantas vezes achar necessário até acabar. Ninguém anota nada, o dono do bar confia em você. Quando quiser ir embora, é só achá-lo em algum lugar (ele certamente estará conversando com alguém, bem longe da porta de saída).

Talvez você ache que não funcione, mas há um segredo aí: o bar sequer parece um bar do lado de fora. Não, nada disso. o Máfia da Cerveja fica com a porta fechada, trancada. Se você quiser entrar, deve tocar a campainha. Se o dono for com a sua cara, você entra, se não, não entra. Gosto de imaginar que assim eram os bares de ópio mais quentuxos de Londres.

Pode não ter ópio, mas tem muita cerveja. E cervejas realmente diferentes. Tomamos umas 4 ou 5 variedades que eu JAMAIS tinha sequer visto - a maioria em garrafas de 3 ou 5 litros com aquelas tampas maneiras de cerâmica. Luxo para o bom mafioso da maviosa cerveja.

É um lugar deveras simpático, bem como seu dono, patrão e único "staff" presente. Só o meu amigo Flávio para descobrer esses estranhos lugares. Acho que ele poderia escrever um guia sobre "bares bizarros de Porto Alegre". Ou talvez um blog. Eu acompanharia. Ele poderia até ganhar dinheiro com isso, fazendo com que os donos de boteco o pagassem por um review no blog.

Ah, onde fica este maravilhoso e simpático "Máfia da Cerveja" não revelarei - pra não estragar o lugar.

maio 23, 2007

O Código Eiffel (ou como a França nos engana há anos sobre o mais famoso monumento fálico dos tempos modernos)

Com o boom do turismo internacional, principalmente nas paragens do velho mundo ocidental, em especial França e Inglaterra, muitos de meus amigos, conhecidos, agregados e, quiçá, parentes têm visitado a Torre Eiffel durante aquela passadinha básica em Paris. Como todo mundo que vai à Paris (e conseqüentemente à Torre Eiffel), todas essas pessoas têm sua câmera digital, compartilhando seus momentos felizes com todos nós.

Eis que algo me chamou atenção, não sei se tu já percebeu, eu mesmo não havia tido esse estalo, mas já notou que nunca há ninguém próximo na foto em que se tira na Torre Eiffel? Veja só:















Ora, mas como pode ser? Na capital mundial do turismo, o seu símbolo, o monumento mais famoso, não há aglomeração bizarra neste maravilhoso mundo de mais de 6 bilhões de bípedes? Se até o Mercado Público de Porto Alegre é mais lotado que isso, tem de haver algo errado aí.

Vejamos: segundo o escritório de turismo de Paris, em 2005, a cidade recebeu 26 milhões de visitantes. É certo que quem vai a Paris, certamente vai a Torre Eiffel (seria o mesmo que ir a uma luta de boxe e ir embora quando o apresentador diz “ladies and gentlemen”). Claro, muitas pessoas que já foram à cidade (e estão apenas voltando), podem não voltar a tal Torre - então seremos bonzinhos e dizer que só 50% destes 26 milhões são novos visitantes. Portanto, isso nos deixa uns 13 milhões de virgens à famosa visita ao grande falo parisiense.

Desses 13 milhões que não foram à Torre Eiffel, vamos exagerar que 80% vá de fato a Torre. Os outros 20% visitariam Paris, mas por algum motivo não iriam até a Torre - sabe-se lá, sempre tem gente no mundo com manias estranhas ou até mesmo aquele sujeito que foi assassinado antes de chegar ao monumento. Tudo é possível. Isso nos deixa apenas cerca de 10,4 milhões de pessoas por ano. Dividindo isso por dias, dá 28,5 mil visitantes à Torre por dia (como pode ver, chutando bem baixo, pois não estamos nem contando os músicos, vendedores e demais comerciantes residentes de Paris que ficam por ali, tampouco jovens parisienses que vão até lá para namorar, queimar um carro ou entrar em um conflito ocasional com a polícia).

Digamos que a maioria das pessoas vá entre às 8h e às 24h (porra, quem é o maldito turista que vai estar lá às 5h da manhã?), isso nos dá 16 horas úteis de visita - ou seja, 1781 pessoas por hora. Obviamente é um chute baixo, fora os já mencionados “habitantes locais” que freqüentam o troço, muita gente deve ficar mais de 1h na Torre, seja comprando souvenires, comendo alguma coisa, tirando suas mais de 50 fotos em ângulos diversos, etc. Ora, como 1781 pessoas podem todas tirar suas fotos sem que haja transeuntes atrapalhando a foto no raio de 30 metros como vimos nas fotos acima?
O pessoal tá sempre distante, como massas de pessoas longe do centro da foto. Além disso, com toda sorte de chineses, japoneses, coreanos, tailandeses, vietnamitas, malásios e tantos outros asiáticos no mundo, como não há nenhum oriental nas fotos? Hipoteticamente, deve haver na Torre Eiffel constantemente um oriental hipotético, o que eu chamaria de “japonês estatístico”. Mas observe, não há. Esse é o “paradoxo do japonês estatístico”.

Isso pode significar duas coisas:

- Há mais de uma Torre Eiffel em Paris, só que ninguém, fora os matreiros políticos franceses, sabem disso. Aglomerações são perigosas, na França então, juntou dois ou três e já tem rei sendo decapitado e carro sendo queimado.
- As pessoas que se aglomeram sempre ao longe da foto e nunca atrapalhando o feliz turista e sua câmera são figurantes - obviamente há pessoas próximas, poucas, pois alguém precisa ajudar o turista a tirar a foto. Esses também são contratados pelos políticos.

Sherlock se orgulha de mim.

PS: desculpe eventuais erros matemáticos, o mais próximo que eu cheguei dos números foi namorar uma menina formada em matemática (que me chutou porque eu não sabia quanto era um pi)

abril 26, 2007

5 livros

O carinha do Cabala 1001 Gatos de Schrödinger abriu o convite para fazer uma listinha com os 5 livros essenciais para mim. Como ele mesmo disse, listas são sempre limitadas e invariavelmente deixamos algo de fora, mas são irresistíveis de fazer. Ele mesmo fez a dele. Na real mesmo a minha lista nem são os únicos livros essenciais pra mim, mas são quase como “must reads” para entender de onde diabos eu venho, para onde vou e do que me alimento. Eu sei que a lista que apresento não é nem um pouco erudita, e com razão, eu não sou nem um pouco. Sou baita consumidor raso. Eis a minha (clique na imagem para comprar na Livraria Cultura):

Os Irmãos Karamazov - Fiodor Dostoievski


Depois de ler Crime e Castigo eu tinha ficado com uma impressão ruim de Dostoievski. Depois de ler os Irmãos Karamazov fiquei maravilhado. É impressionante como esse tiozão barbudo e bebedor de vodca consegue entrar dentro da cabeça das pessoas. Os personagens são maravilhosos, muitas coisas eu descobri sobre mim lendo este livro (mas absolutamente nunca tive nada a ver com parricídio). Eu recomendo o dramalhão russo, mas é pesadinho (provavelmente o único da lista).

Belas Maldições - Neil Gaiman & Terry Pratchett


Assim como na Cabala 1001, cito Belas Maldições para homenagear com um título apenas dois grandes: Neil Gaiman e Terry Partchett, ainda que este livro não seja o que eu mais gostei dos dois autores. Neil Gaiman é simplesmente a mente mais criativa de todos os tempos, ele escreve fantasia como ninguém. Terry Pratchett é o mais sádico e sarcástico escritor de humor, além de ter uma criatividade estupenda no setor fantástico. Esses dois caras juntos mataram a pau com um Apocalipse muito diferente e engraçado (releituras bíblicas? Só agora me dei conta de onde saiu essa história de “Bíblia Anos 2000”).

As Brumas de Avalon - Marion Zimmer Bradley


As Brumas de Avalon foi uma das primeiras coisas (boas) de literaturua fantástica que me caiu nas mãos, por isso esta aqui. Este livro narra uma das versões da lenda de Arthur, porém do ponto de vista das mulheres - que na idade média não tinham lá grandes liberdades. Bruxaria da grossa, fantasia da boa. Graças a ele eu também cheguei em O Senhor dos Anéis, então é merecido estar aqui.

A Revolução dos Bichos - George Orwell


Esse vai em homenagem ao “estilo”: A Revolução dos Bichos, Admirável Mundo Novo, Laranja Mecânica (posso citar “1984” mesmo não tendo lido ainda?)... A Revolução dos Bichos é uma fábula de como são as coisas na vida real (agora você sabe de onde vem essa história de “fábulas modernas”), crítica profunda ao modelo comunista e, claro, a toda sociedade. Provavelmente tu já ouviu “todos são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”. Pois é, vem deste livro.

Hollywood - Bukowski


Não podia faltar na minha lista. Nem me influencia mais tanto assim, mas comecei pesado pelo velho safado, além de já homenagear junto Fante. Esse não foi o primeiro que li, mas foi o que me fez me apaixonar total pelo jeito Bukowski de escrever. Nesse livro (que não é de contos, é uma história apenas) Henry Chinaski (o melhor alterego do Buk) vive lá vida louca para escrever um roteiro para o bizarro mundo hollywoodiano. Crasse A para os chinelos. Mas o melhor livro que eu li dele é o Misto Quente, também protagonizado por Chinaski.

Tá, eu vi que citei uns 52 livros nas entrelinhas e trapaceei na lista. Mas se eu estou me divertindo, quem se importa?

abril 24, 2007

Combatendo o senso comum tradicional

A ordem dos fatores não altera o produto

Ora, como não? Tente entrar num saco de dormir depois de fechá-lo ou colocar as meias depois dos sapatos e verá que bela bosta de produto tu vai conseguir.

Eis por que não se deve acreditar em ditados, salvo àqueles que se referem a mortos-vivos.

Interagindo com os leitores - 24/abril/2007

Segue a saga das mais desafortunadas buscas que sujeitos sem a menor sorte usaram para achar meu blog (aliás, lembram daquele botão "estou com sorte" do Google?):



"Negrinha sexo", "fotos de mulheres de shortinhos curtos", "historia real de gay em quadrinhos" e "fotos vedana nua gostosa pelada" - acho que esse é um sinal de que devo parar de escrever certas palavras no blog.

Ou talvez as pessoas devessem parar de procurar tanta putaria na rede. Em tempo, o melhor site de putaria de todos: Suicide Girls (imagino que algum idiota vá de fato procurar "o melhor site de putaria de todos" e acabará no meu blog.

"steve jobs em Stanford" - o melhor discurso motivacional de todos os tempos, assista ("o melhor discurso motivacional de todos os tempos", alguém ainda vai procurar por isso e cair aqui).

"cachorro quente onibus" - por certo você não quer dizer um ônibus em FORMA de cachorro quente. E, se quer dizer isso, a melhor resposta que eu poderia dar é "por quê?"

"markting de cahcorro quente" - ainda que eu entenda bem pouco de marketing, sei o suficiente para saber que está escrito errado. Entendo bem mais de cachorro-quente e também está escrito errado. Logo, a única coisa que eu posso recomendar a você é isso (e isso é marketing).

"acidente menina pula do viaduto em sao jose dos campos" - se foi um "acidente", como ela "pulou"?

"Raio-X de tórax com silicone" - rapaz, nunca tinha pensado nisso. Será que aparece algo diferente? Mulheres com silicone, manifestem-se - de preferência mandando fotos do tórax com e sem raio-x.

"existe saxofone feito de pvc onde encontrar" - simples, muito simples, pegue um cano (desses que se encontra em qualquer obra), faça uns furinho e mande ver no assopro. É provável que não fique muito parecido com um saxofone, mas e daí? Ser artista é ser original. Certa vez eu usei uma lula selvagem e disse que era um cavaquinho, foi assim que vendi um bilhão de CDs para monges tibetanos. Só tive que reverter todo o dinheiro para o Greenpeace, porque se não eles iam me queimar vivo (parece que as lulas selvagens eram importantes pra algo que não me ocorre agora).

"relatos de mulheres de como já usaram o caralho do namorado" - não seria mais fácil procurar por "contos pornôs" ou algo assim? Ser sintético é tudo quando se lida com os robôs do Google.

"dicas para tirar manchas de caneta do sofa de couro" - te deu mal, teu pai vai te matar, guri.

"Máxima de sêneca" - Sêneca era de fato um máximo. Mas ó o que tu quer aí.

"contos no seculo 19 sobre que nao podiam namorar antes casamento" - poderia ser MAIS específico?

"fotos caseiras de 16 anos" - você não me engana, putanheiro (ademais, isso é crime).

"programas de tv com artesanato passoapasso" - ao lado das incríveis "aranhas caseiras" o "artesanato passo a passo" é o que mais aparece por aqui. E enquanto eu continuar citando isso no "interagindo com os leitores", provavelmente continuará sendo.

abril 17, 2007

Interagindo com os leitores - 17/abril/2007

Esses foram os últimos bizarros que acharam meu blog usando as buscas mais sem noção do Google e outros googles parecidos com o Google (clique na imagem para ler direitinho se quiser):



Vamos ajudar esse pessoal:

"vendedora esperta quebrou suas defesas" - muito errado, muito errado. Quando você é um vendedor, precisa fazer certas indulgências - como perder no futebol para seu cliente.

"aguarios" - ah, o internacionalmente famoso conto dos aguários, essas estranhas e verdadeiras histórias reais das pessoas de mentira que vivem dentro da minha cabeça.

"filmes de misterio de crianças(censura 08-09 anos)" - tenho impressão que essa "censura" não existe. Acho que só abaixo de 12, sei lá. De toda forma, Goonies é do caralho.

"porque Sunitas x Xiitas" - pelo mesmo motivo que Corinthians X São Paulo. Exatamente: nenhum interessante.

"rainh do silicone" - seria a Pamela Anderson?

"mochila da nike campus da bemol" - eu não faço a menor idéia de qual a conexão entre uma coisa e outra. Em todo caso: ratifakihabiruki, parceiro.

"estrategia do guerreiro Dom Juan" - Ah, essa eu manjo. A estratégia é muito simples: você não tem que olhar, tem que ver, porra! Não entendeu? Mas tu é um burro mesmo, tsc, vou comer meus cactos.

"historias gays em quadrinho - movimento" - hm, histórias gays em quadrinho pertencem ao movimento veadístico, popularmente conhecido como "tu é gay, tu é gay que eu sei".

"historia em quadrinhos de chaves comendo a buceta de chiquinha" - certamente você já pensou o quanto isso é ridículo, certo?

"ursos grisalhos de niterói" - o único urso grisalho que eu conheço é o polar.

"Textorama" - o que uma pessoa localizada na Suécia faz procurando por "textorama"? Allt ljus på mig: Textorama, din bästa startsida, lilla svenska. ;)

"fotos caseiras de shortinhos de suplex" - não é exatamente o que tu procura, mas tem uns amigos que fundaram o Beleza Furtada. Te diverte.

"platão E MERITOCRACIA" - Claro que poderia explicar com todos os pormenores toda essa coisa platônica do caralho, mas como sou um sujeito bastante sintético (ainda que 100% orgânico), aí vai tudo que você precisa saber sobre a meritocracia de platão: quem não chora, não mama.

abril 15, 2007

Fabiana e Rivo’s tale

Talvez você não saiba, mas a realidade é uma história. Uma grande história, mas, ainda assim, uma história. Tudo está escrito em algum lugar, de modo que quando você acha 50 reais no chão da festa, bebe até cair e bate o carro, não é sobre sorte ou revés, nem sobre coincidências ou sermões Thiago Gonzaga style. Tudo está lá, escrito. Mas escrito por quem? Bom, não cabe a mim responder isso, não é o momento nem o lugar correto para tal. E, pra dizer bem a verdade, uma hora ou outra você vai descobrir e perceber que nem é tão impressionante assim. E se não descobrir, tudo bem, relaxa - estava escrito que você não descobriria. É por isso que eu escrevo. Brinco de escritor, moldo a realidade, junto meus textos curtos com o grande texto - e se eu faço isso, se sei que é possível, é porque lá estava escrito que seria assim. E cada vez que você lê um texto meu, está ajudando-me na grande tarefa de reescrever a realidade.

Dito isto, ontem se casou um grande amigo meu, o Rivo. Se você lê há algum tempo este blog (ou o antigo), talvez você saiba alguma coisa dele, talvez não, mas não interessa. Eu fui padrinho do casamento (aliás, obrigado de coração pela madrinha que me arranjaram!) e, fora o presente que já dei (esta hora o Rivo deve estar tomando uma caipirinha em Porto de Galinhas), gostaria de dar a eles mais um. Não é nada demais, é só a minha forma de ajudar:

Fabi e Rivo moram juntos, são felizes. Claro, nenhum dos dois é fácil de conviver e têm lá suas rusgas, escaramuças e toda essa chinelagem, mas nada sério. Nada sério mesmo. Quer dizer, só uma vez, mas acabou tudo bem. Um dia a Fabi liga pra ele, diz que está grávida. Rivo chora, acende charutos, bebe, enfim, faz coisas de Rivo. Eu infelizmente estava em outra cidade e não vi nada disso. A criança nasce, tem olhos puxados, é claro, mas puxa bastante pelo Rivo e parece mais um vietnamita do que qualquer outra coisa. Os pais acham o máximo, é claro. A criança é uma pestinha estriquinada, mas muito fofa. Alguns advertem o Rivo que ele tem que fazer menos as vontades da criança. Bom, isso ele aprende depois.

Bem depois. Mas aprende.

Eles são felizes juntos, uma grande família feliz (já falei sobre aquela discussão acalorada em que o Rivo teima em ter mais um filhote?). Na casa dos avós comem peixe cru, na casa dos outros avós comem feijão com arroz. Fabi cuida para a criança não ficar gorda, “não é pra dar tanto doce, Rivo!”, tsc, tsc. Talvez o único problema seja a falta de planejamento, mas ambos são flexíveis o suficiente para resolver as questões. Em nenhum jardim só tem rosas, mas podemos dizer que a vida deles é massa. O segredo é simples: amor e paciência, o resto vem com o tempo. Não foram felizes para sempre, isso eles deixam pra lá, se preocupam apenas em serem felizes a cada dia. E são.

abril 14, 2007

Maus

O pai de Art Spiegelman, Vladek, foi um judeu polonês que sobreviveu à II Guerra, o famoso e cruel campo de Auschwitz incluso no pacote. Desde quando apenas eram sentidos sinais da guerra que viria até o fim dela, Art narra em Maus a história contada por seu próprio pai em mais de 20 horas de gravação que ele transformou em quadrinhos. Você provavelmente já viu bastante sobre o holocausto por aí para torcer o nariz, além de certamente já ter visto o bastante de quadrinhos para não levar a sério. Mas não se engane, você não viu nada disso.

Art retrata os judeus como ratos ("maus" em alemão), alemães como gatos, judeus como porcos, estadunidenses como cães, além de mostrar também suecos (alces), franceses (sapos), ciganos (mariposas?) e suíços (linces). Pode soar meio Orwell, e de fato soa, mas o caso é que Maus é um relato impressionante do horror que foi a 2a guerra para os judeus. Em uma passagem do livro, enquanto o próprio autor conversa com seu psicólogo, ele finalmente entende que seu pai não era um vencedor por ter vivido, pois aqueles que morreram não eram perdedores. Era aleatório, e isso era o mais aterrador. Qualquer um podia ter morrido, qualquer um podia ter sobrevivido - o único problema é que as chances de morrer eram catastroficamente superiores as de viver.

Outra coisa interessante é que o livro narra com uma quantidade riquíssima de detalhes, possível só utilizando como relato a memória de quem esteve lá, até o funcionamento dos campos de concentração, os subornos, quantos cigarros valiam um pão (3) ou uma garrafa de vodca (200), o mapa político durante a guerra, onde ficavam as cidades, como era a distribuição dos uniformes de prisioneiro, como era a escolha de quem vivia e quem morria, como escapara da morte por absoluta sorte algumas vezes e como chegara perigosamente perto também, enfim, narra o absurdo do holocausto em detalhes, sem perder o ritmo em nenhum momento.

Não me recordo de ter chorado lendo nenhum livro. Com Maus duas ou três vezes senti uma lágrima correndo. Não era o caso de chorar apenas pelo sofrimento daquelas pessoas, impossível de compreender mesmo com um relato tão próximo quanto do pai do autor, mas sim chorar de vergonha de que algum dia alguém tinha feito aquilo com outras pessoas. Certamente eu e tu poderíamos estar de um lado ou de outro, e isso é o mais assustador - o quão desumano pode-se chegar. E isso faz pouco mais de 60 anos.

Mas nem tudo são lágrimas, há momentos que chegam a ser cômicos, mesmo que um pouco trágicos, quando Art retrata a relação que tinha com seu pai, de como ele ia contando as histórias, da mesquinhez com o dinheiro e da cabeça-dura que todos temos como estereótipo do típico judeu de Nova Iorque.

Vale muito a pena. Eu recomendo que você leia agora mesmo. Compre Maus aqui.

Caso minha opinião não valha nada, saiba ao menos isso: foi o primeiro e único quadrinho a ganhar um Prêmio Pulitzer (deram o prêmio especial, porque não sabiam se enquadravam como ficção ou biografia).

abril 11, 2007

A Guerra Suja

A Guerra Suja conta a história de Walter Mosca, um estado-unidense que participou da segunda guerra mundial. Não se engane, esse não é um livro sobre a guerra, mas sim sobre algumas das conseqüências dela. O período retratado no livro já é quando o governo de ocupação dos States está com a Alemanha dominada, Hitler já foi pra banha e o exército da Águia Americana vive com boas regalias numa Alemanha devastada, não só fisicamente como espiritualmente. Uma relação entre vencedores e vencidos. Quem era do exército dos EUA conseguia comida, Coca-Cola, chocolate, remédios, essas coisas, quem não estava no exército, alemães e demais sujeitos perdidos na Alemanha, estavam ferrados.

Óbvio que as coisas não são mil maravilhas nem para o pessoal dos Estados Unidos. A maioria vivia, clandestinamente, com uma mulher alemã, tinha até filhos e tudo mais. Tudo tinha seu preço em cigarros e o mercado negro era o que mais bombava. Walter não era exceção e, mesmo depois de uma breve volta aos States para rever sua noiva e família, joga tudo pro alto e volta pra Alemanha - aquela mulher que o esperava não era mais sua noiva, nem sua mãe era sua mãe, nem seu irmão, mutilado de guerra, era seu irmão. Não é que eles haviam mudado. De maneira nenhuma. Na verdade quem mudara era ele. Walter Mosca não era mais aquele menino que partiu vestindo o uniforme de soldado. Ele reencontra a alemã que foi sua amante durante o período e passam a morar juntos. A partir daí, você vai ter que ler por conta.

Não é um típico Mario Puzo. “A Guerra Suja” é o primeiro livro do Puzo, por isso temos de convir que ainda é bastante diferente do que ele escreveu, principalmente se formos considerar O Poderoso Chefão. Não estou dizendo de nenhuma forma que é ruim, já podemos enxergar aí algumas características clássicas do Puzo: lidar com personagens que muitas vezes agem à margem da sociedade, alguma jogatina (principalmente dados), o zelo com a família e a relação entre pessoas de diferentes países. Mas não é o típico Mario Puzo. Ainda que o livro esteja esgotado em português, pode ser encontrado em inglês. Eu recomendo se você é fã de Puzo, se não, vá procurar outros livros dele e depois volte aqui só pra se divertir.

Compre A Guerra Suja (inglês)
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Reduzindo a velocidade roots style

Pardais eletrônicos são como pardais normais, só que em vez da merda cair aleatoriamente no seu ombro, agem com uma precisão de míssil inteligente (sic), multando o infrator velocista. Deixando de lado o fato óbvio de que a maior preocupação dos pardais eletrônicos é arrecadar grana, qual seria o objetivo de usar isso por aí? Reduzir a velocidade, acredito eu.

Pardais eletrônicos são a maior prova de que quando as pessoas se focam no problema, elas acabam resolvendo as coisas de um jeito estúpido, como naquela velha história sobre EUA e Rússia e a necessidade de escrever no espaço. Não sabe essa? Bom, resumidamente é assim: Canetas esferográficas não escrevem no espaço porque precisam de gravidade, Estados Unidos gastou zilhões de dólares pra fazer uma caneta que funcionasse, a Rússia simplesmente usou um lápis. Lenda ou não, isso ilustra bem os pardais eletrônicos e o problema de “como reduzir a velocidade se não há ninguém olhando”? Mais ou menos como jogar strip pôquer com um cego - como saber se ganhou ou perdeu? Como saber que meu adversário tirou a roupa? Como?

Aí inventaram um detector maluco que fica nas árvores calculando a velocidade. Fabricação e instalação, mais provavelmente a necessidade de manutenção intensa, então o custo deve ser alto. Além disso, uma vez que você conheça a localização do pardal ele perde o efeito - quem nunca grudou o pé no acelerador depois de um pardal que atire a primeira pedra.

De toda forma, no último engarrafamento bolei um método milhões de vezes mais eficaz para reduzir a velocidade dos motoristas e zilhões de vezes mais barato. Chamei de “a curiosidade matou a velocidade”.

Fenômeno simples: é da natureza prestar atenção na desgraça alheia, seja para comover-se, ajudar ou simplesmente tirar uma onda pelas costas, o importante é que TODO MUNDO reduz a velocidade pra ver um acidente de carro. Calma, não estou sugerindo botar carros batidos por aí, o trabalho seria imenso. O que eu sugiro é muito mais simples:

Espalhar pedacinhos de plástico e vidro que resultam de batidas de carro pelas ruas que queremos que se diminua a velocidade. Não se engane, não é necessário haver carro por perto, testei isso hoje, todo mundo reduzia muito a velocidade só por causa de pedacinhos desse troço no chão, sedentos pela visão de um acidente.

Além da vantagem de ter um custo muito menor (só passar num ferro velho ou coletar de acidentes de verdade e ir estocando), é móvel, fazendo o fator surpresa estimular a veracidade para os motoristas, maximizando o resultado.

abril 01, 2007

O que é o Amor?

Amor é uma idéia. E como todas as idéias, anda por aí vestindo sua beca favorita. Você pode encontrá-lo em diversos lugares, sacudindo sua bengala pra lá e pra cá enquanto assovia as melodias feitas por outrem em homenagem a ele. O Amor veste-se geralmente com um terno cinza, usa chapéu coco combinando, tem um óculos escuro que lhe cobre totalmente os olhos e, como já dito, ostenta uma divertida bengala com um coração na ponta que sacode pra lá e pra cá.

Alguns dizem que ele é fofo, outros que é cruel, outros que é afetado, outros que é invenção da mídia, outros que é tarado, outros que é injusto. Há ainda aqueles que acreditam piamente que ele não existe e que tudo não passa de outra coisa. Mas, no fundo no fundo, todo mundo conhece o Amor uma hora ou outra. E o mais incrível é que mesmo todo mundo conhecendo-o, cada hora se tem uma opinião diversa do sujeito.

De repente você está lá, comprando frutas na feira, e ele passa, assoviando “what a beautiful world”. Quando você vê, aquele melão esperto que você estava apalpando é automaticamente transformado nos melões daquela gostosa ali do lado e, paff, você conhece o Amor e está louco pra trepar com aquela melãozuda. Mas, apesar do terno simpático, Amor pode ser realmente encontrado em tudo quanto é canto, até em lugares potencialmente não-amistosos para um sujeito de terno, como o necrotério - por certo tu nunca ouviu algo sobre um sujeitinho que chamou na necrofilia ao olhar aquela beldade pálida esticada sobre a mesa com um buraco de bala no peito?

Culpa do Amor.

O amor está por tudo. Love’s in the air. Ou até mesmo na ausência de ar. Tá ligado aquela astronauta malucona que cruzou os Estaites sem parar, dirigindo seu conversível usando uma frauda geriátrica, pra meter bala na mulher de seu amante? O amor faz isso com as pessoas. A astronauta, por exemplo, viu estrelas, com o perdão do trocadilho infame.

Uns dizem que o Amor é grande, quase um gigante, outros que é pequeno, mas jamais houve alguém que dissesse que não era nem grande, nem pequeno, mas sim médio. Se não parecer nem uma coisa tampouco outra, com certeza é o irmão mais velho do Amor quem você está vendo. Ele veste-se de forma muito parecida, mas se comporta de maneira ligeiramente diversa, chama-se Amizade e é um tremendo dum parceria kid, ainda que seja bem menos wild que seu irmão do meio, afinal, a idade lhe trouxe serenidade. Também não podemos confundir o Amor com a irmã mais nova da família, a Paixão, uma jovenzinha rebelde, cheia de vivacidade e que não mede as conseqüências de coisa alguma. Natural a pequena e intensa Paixão ser assim, além da idade que lhe falta, sente muito ciúme de seus irmãos mais velhos e tenta de toda forma se parecer com eles, usando inclusive um terno masculino muito parecido com o de seu irmão do meio, porém todo rasgado a moda punk e customizado a la emo. Aquela vez em que você estava pela primeira vez com a melãozuda pulando sobre o seu pau e sentiu que Amor de repente adentrara o quarto, bem deves saber que muito provavelmente você se confundiu, afinal estava meio bêbado, pois devia ser a irmã mais nova, com seu traje maluco, que assoviara “love hurts” no seu ouvido enquanto o gemido da melãozuda vinha em um crescente absurdo até silenciar por completo.

Por essas é outras que não se pode ter uma opinião apenas do Amor. Ele se veste sempre igual, assovia amistosamente, mas nunca se sabe quando sua bengala sacolejante vai lhe atingir os ovos em cheio, te fazendo beber litros de cerveja e vomitar por quilômetros a fio em busca da mulher amada. É, parceiro, aquela melãozuda nem sempre é o que parece quando o Amor está na área. De repente, como todo repente, o Amor dá o fora depois do jantar, no melhor estilo cachorro magro, e tudo vai pelos ares: a Melãozuda te conta que o problema não é você, é ela. É aí que você recebe a visita da turma que às vezes acompanha o Amor: a Raiva (uma ruiva fenomenal, diga-se), a Tristeza (malditos emos), o Pé-na-Jaca (um deus menor que por aqui é conhecido como Jeremias do YouTube), o Ciúme (uma criança birrenta que sempre pede por atenção), entre outros tantos - como se pode ver, o Amor não conhece aquela velha máxima “antes só que mal acompanhado”, pra falar bem a verdade, o Amor ignora totalmente qualquer outra coisa que não ele próprio. Tente dizer pra um crente que ama a seu deus que o pastor usa a grana que ele doa para comprar veículos de comunicação e carros esporte, o crente vai usar um dos acessórios mais quentes do Amor, seu óculos escuro que nada vê que não o que está na própria mente. Amor é um sujeitinho muito matreiro, cheio de truques, não se pode falar mal (a sério) do Amor. Desista.

Apenas esteja preparado para dar aquela gingadinha esperta quando ouvir o doce assovio.

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Este texto faz parte de um Carnival que tenta definir o que é o amor.
Veja o que os outros acham visitando este link.