Esse post se perdeu quando eu escondi o Hell'z Club (por vergonha do que estava escrito lá). Agora que estou mais velho, tenho menos vergonha das bobagens que fiz e dos maus escritos que digitei. Esse texto é de 2000 (ou antes eu acho), era um gurizinho. Enjoy!
Histórias de um Volkswagen metido a New Beatle
Tenho um amigo desses que você nunca se lembra do nome a não ser do apelido pelo qual até mesmo seus familiares o chamam, "Guri" é o nome dele, alias, o apelido. Mas pra mim ele se chamava Guri mesmo, Guri da Silva, ou melhor, Guri Baracy, irmão do Rafael Baracy, gaúcho infamemente conhecido como "Cacetinho", nos pagos de Florianópolis, graças a um pedido mal formulado em uma padaria barriga verde.
Então, o Guri tinha um autêntico Fucão Volkswagen, de uma cor que eu não sei precisar direito, mas variava entre o verde abacate e o branco sujo, ou seja, cor de burro quando foge. Isso sem contar o "chão" do carro que em algumas partes, devido a ferrugem cultivada em estágio avançado, dava pra ver o asfalto abaixo de nós.
Este fucão passou por diversas aventuras, e começou a ser conhecido como Fucão da Wyrm depois de episódios estranhos, pra não dizer surreais, como 7 pessoas no banco de trás e um gordão, de 2 metros e pra lá de 100kg, no banco da frente. Até pra Florianópolis este fucão já foi.
Mas a aventura mais fantástica dele será contada como segue nesta lenda (assim contada pelo menestrel Sérgio Henrique Schüler, filho de Sérgio Schüler, filho de Eitel Frederico Schüler, aquele que tem vários filhos espalhados pelo mundo):
Um dia decidimos ir a Pelotas jogar rpg, era um projeto chamado Brasil by Night, onde várias cidades do Brasil (e posteriormente do mundo no One World by Night) interagiam entre sí. Era divertido, conhecíamos pessoas, viajavamos, tiravamos casquinhas das melhores mulheres e passavamos MUITO trabalho. Em Pelotas (a cidade que tem uma placa dizendo "Venha comer nóz") tinha um povo muito legal (e umas mulheres delíciosas), então eu, o Guri, o Rafa e o Mateus (amigos e praticamente irmãos) decidimos pegar o fucão e nos aventurar até o interior do Estado pra jogar o maldito rpg. Que conste aqui que já tinhamos ido a Pelotas de ônibus, porém, teoricamente, gastariamos menos indo de carro, nós 4 e a ex-noiva do Guri, que foi sabe-se lá pra que, já que ela não joga e nem nunca jogou.
Em um sábado ensolarado, eu fui o último a ser pego em casa, sentei no banco de trás junto com o Mateus e o Rafa, enquanto na frente iam o Guri e a sua ex-noiva, na época apelidada, como não poderia deixar de ser, Guria. Abastecemos o fucão até encher o tanque, o que significava mais gasolina do que o carro jamais tinha vista em toda sua longa vida. Calibramos os pneus com libras praticamente aleatórios que o "expert" Mateus sugeria como sendo corretas, do ponto de vista Klingon talvez.
Saimos em busca da estrada, cantando, pois rádio o fucão não tinha. Emoções fortes nos aguardavam. Já na saída de Porto Alegre a primeira surpresa: um cheiro esquisito dominava todo o carro. Paramos e para nosso desespero o carro estava superaquecendo e queimando óleo a dar com pau. O Mateus e o Rafa (em um calderão infernal onde o asfalto era a panela e nós o recheio) sairam andando atrás de um posto de gasolina pra comprar óleo. Imbecis, tinha um roller a disposição dentro do carro, sabe-se por que, e só perceberam isso depois de torrarem no sol e voltarem com o óleo para o motor.
Enquanto o óleo não vinha, eu amaldiçoava a idéia de ir de fuca e não de ônibus, o Guri amaldiçoava o carro e a Guria amaldiçoava ter entrado nesta furada por ciúmes de deixar o noivo ir sozinho e Deus amaldiçoava nosso caminho.
Quase 30 minutos de sol na moleira e o óleo chega. Improvisamos um funíl com jornal e o Rafa teve a estúpida idéia de jogar o óleo a uns 5 metros de distancia do funíl, o que provocou, por causa do vento, um derramamento de óleo em todas as partes do carro, menos onde se põe o óleo. Então tínhamos um funíl limpo, uma garrafa com menos óleo, um motor de fuca cheio de óleo e um Mateus todo lambusado de óleo (ele segurava o funíl).
Arriscamos ligar o carro, o óleo derramado em cima do motor começou a torrar e o cheiro era insuportável, mas seguimos viagem, aventureiros muito corajosos nós somos. Nem pensamos em voltar para nossas casas com as orelhas baixas. Um engano terrível, descobrimos depois.
Andavamos alguns quilômetros e tinhamos que parar por causa do superaquecimento do carro. E quando eu digo alguns, não digo 10 ou 20, digo 2 ou 3 quilômetros. Depois da 10a parada, por aí, há uns 20km de Porto Alegre, adentramos uma cidadezinha, talvez Santa Rita, talvez não, e procuramos um mecânico. Notei que alguns patos sobrevoavam o carro, como se o fuca fizesse parte do bando que voava para o sul, mas naquele instante não entendi a mensagem. Somente posteriormente saquei o sarcasmo da piada.
Batemos na porta do mecânico, um gurizão de Havaiannas e calção, de no máximo 25 anos, nos atendeu. Ele era o mecânico. Era tudo que tínhamos, então descrevemos o problema a ele. Inclusive nossa pretenção de chegar a Pelotas, que foi imediatamente recebida com espanto pelo rapaz. Nos aconselhou a voltar pra Porto Alegre, pois o carro não estava em boas condições, mesmo com o conserto que ele faria. Ligou o carro e observou por 2.5 segundos o funcionamento do motor e exclamou:
- Vou te dar o veredito: é a bobina, fuca é assim, eu tinha um, pode contar que é a bobina. Quando estraga é bobina.
Trocamos alguns olhares de desconfiança entre a gente, algum de nós perguntou se ele tinha a tal bobina e outros ponderavam o que ele queria dizer com "veredito", seria ele um juíz? Ele disse que não tinha a bobina, mas ia checar na ferragem, se estivesse aberta. Sabe como é, sábado em cidade de 1a (engata a 2a e já saiu da cidade) é fogo.
Então o cara pegou uma moto, arrancou, dobrou na esquina e 2 segundos depois ele já estava retornando, e quando falo 2 segundos não estou exagerando, pra mim parecia que ele apenas tinha dobrado a esquina e voltado. Amaldiçoamos nossa sorte, com certeza estava fechada a ferragem.
O cara pára a moto e declara:
- Vocês estão com sorte.
A gente não entende e um silêncio perturbador paira no ar, apenas alguns patos e marrecos eram ouvidos, sabe-se lá de onde vinham, mas estavam lá.
- Tava aberto. Tem a bobina Bosch, que é de R$20,00, que vai te durar a vida inteira e a de R$15,00, que vai te dar problema de novo um dia desses. Qual vocês querem? – complementou o mecânico espertalhão.
- A de quinze, claro. - Praticamente em coro respondemos depois de mais uma troca de olhares, considerando nossas parcas economias e a probabilidade remota do fucão durar mais de 5 anos. Ou seja, qualquer remendo servia, só queríamos chegar a Pelotas.
O cara ficou baratinado e começou a gaguejar:
- Não, não, só tem a de Bosch, de vinte reais.
Estavamos claramente sendo enganados. Enquanto eu sorria, de raiva, o Mateus já se preparava pra discutir e o Guri sentia pena do bolso. O Rafa provavelmente estava pensando em alguma forma de assassinar o rapaz. O importante é que em menos de 10 minutos de conversação o cara já tinha mentido pra gente. Isso não estava bem.
Uns 5 minutos tentamos argumentar, mas ele estava com a situação sob seu controle. É foda. Aceitamos, ele pegou a grana e fez a mesma coisa, foi até a esquina e 4 segundos depois voltou. Muito improvável que ele tenha comprado neste meio tempo, só se for uma espécie de drive thru, mas na verdade eu cria que ele gritava de um lado "bobina Bosch" aí o cara arremessava a bobina, enquanto ele dava a volta na rua, e ele atira a grana pro cara da loja. Só assim seria tão rápido. Raça maldita essa, mecânicos honestos vão pro céu, direto.
Então ele estaciona sua motoneta e diz:
- Que sorte, consegui um desconto pra vocês. Saiu por R$18,00.
Nos olhamos e seguramos o riso (ou o choro). Será que ele realmente acreditava que nós estávamos engolindo aquilo?
Em cerca de 2 minutos ele trocou a bobina velha pela incrível e possante bobina Bosch. O carro sem dúvida, pela propaganda do mecânico, ganharia uns 5 mil de valor de mercado só por conter a super ultra max hyper mega power bobina Bosch.
Segundo o cara, estava pronto, ligamos o carro e agradecemos:
- Obrigado, cara.
- Obrigado não, eu vivo disso. – o mecânico retruca.
- Hum? – Percebemos que o golpe ainda não tinha acabado, mas nos fizemos de desentendidos.
- É dez pilas.
Chíamos, mas não adiantava mais, já tinhamos criado penas e bicos de pato. No fim, pagamos o maldito mecânico e seu veredito from hell.
Seguimos viagem, desta vez, "voando" entre surreais 40km/h e 60km/h e parando "apenas" de 1h em 1h, um verdadeiro progresso.
Já de noite, aproximadamente 1h de Pelotas o ponteiro da gasolina cai drasticamente. Eu havia advertido que seria necessário abastecer, mas o Guri preferiu passar o posto e abastecer no próximo. Detalhe é que não havia próximo. "Seguramos" com os olhos o maldito ponteiro e finalmente chegamos (com várias horas de atraso) em Pelotas. Todos os sensatos que utilizaram o ônibus já estavam lá. Só faltava a gente mesmo.
Jogamos toda a noite. Uma mistura de teatro e jogo. No fim era um grande pretexto pra conhecer pessoas e dar beijos em pescoços desavisados. Perto de amanhecer, fizeram uma ULTRA propaganda de um café que eles costumavam todos ir depois dos jogos. Aceitamos a idéia, cafés são legais e, no caso de Pelotas, deveria ser algo de estilo antigo, como toda a cidade.
Andamos bastante a pé, e chegamos no dito café. Decepção total, era uma lanchonete que servia café expresso. Só isso. E eu estava sentindo uma estranha dor nos olhos, provavelmente por causa das lentes de contato estarem há muito tempo nos meus olhos.
Dormimos na casa do Maurício Tremere, um gordão de uns 2 metros, mais de 100kg e todo esse espaço recheado de simpatia. A Guria, que não jogava, ficou lá, trancada com milhares de mosquitos maiores que um olho e um velho, o vô do Maurício, que acorda no meio da noite para cuspir, pelo menos é o que parece, talvez fosse algum ritual voodoo ou algo do gênero. Jamais saberemos. Velhotes são misteriosos.
No outro dia nos preparamos pra voltar. Na saída da cidade abastecemos o fucão, compramos uns refrifgerantes e tiramos as últimas fotos. Finalmente voltando para casa. Depois de uns 25 minutos de estrada percebemos algo errado. E desta vez não era com o carro, mas com o motorista. Sim, estávamos indo pro lado errado, rumo a Rio Grande, volta tudo, se perde um pouquinho em Pelotas e voltamos a nosso rumo normal. Meus olhos ardiam cada vez mais, mesmo eu estando sem lentes.
O carro continuava com problemas o que nos fazia rir de toda forma sobre "o veredito" da bobina. Sendo que a solução de todos os problemas do fucão estava na pequena bobina (Bosch, que fique bem claro). Quebrou o vidro? Troca a bobina! Furou o pneu? Bobina, claro! Acabou a gasolina? Nada melhor que uma bobina nova pra resolver todos os problemas.
Em uma das inevitáveis paradas do carro, todos descemos do carro, olhamos um pra cara do outro e não seguramos: começamos a rir desesperadamente, gargalhadas eram ouvidas no asfalto, apontavamos um para o outro e não dava pra segurar a piada. Eramos patos de carteirinha, mas patos audaciosos, talvez até mesmo poderiamos ser chamados "os patos que estiveram onde nenhum outro jamais esteve". Bem, depois de cerca de 15 minutos de risadas, voltamos ao carro e seguimos viagem.
Mais ou menos no meio do caminho, mais pra mais que pra menos, decidimos parar em um destes megapostos para excursões e caminhoneiros, alguém queria chocolates e estacionamos. Era uma espécie de "Japonês" não temático, com placas da Coca-cola em toda a volta do quadrado de alvenaria. Entramos, pedimos e pegamos coisas comestíveis e beberantes, aproveitando pra deixar o carro descansando novamente, ficamos do lado de fora do estabelecimento, mastigando e olhando o movimento. De repente, duas velhotas surgem de dentro do estabelecimento falando:
- Será que a gente não demorou muito? – uma delas pergunta.
- Não sei – as duas param e esta apontando para um ônibus em movimento completa calmamente: - Ih! Olha lá o nosso ônibus indo embora!
- Ih! Ficamos na mão. – mais calma ainda a outra velhota responde.
- Então vamos entrar e comer mais um pouco.
E de fato elas entram. Não resistimos e mais uma vez tivemos nossos acessos de risadas e, como não poderia deixar de ser, durante mais uma hora, era a piada da vez.
Depois desse incidente, nada de mais bizarro aconteceu, com excessão das paradas obrigatórias do fucão. Está foi só uma das aventuras deste carro, mas várias outras aconteceram: como a viagem a Floripa (já Powered by Bosch), idas ao Fim de Século com 7 pessoas no banco de trás, etc, etc, etc...
Destino de nossos heróis, vilões e figurantes:
Fucão – foi vendio e hoje em dia encontra-se nas mãos do mecânico do veredito.
Guri - há algum tempo vendeu o fucão, comprou um Escort (que também tem várias histórias bizarras) e agora mora em Florianópolis com sua mãe, sabe-se lá até quando. Meu irmão, já estou com saudades, isso que você foi pra lá ontem. Largou o RPG e jamais retornou a Pelotas.
Rafael – mora com sua esposa na casa dos pais dela e faz parte do call center do Terra, participou de diversas aventuras junto de Mateus e Sérgio, incluindo a Saga de Curitiba. Largou parcialmente o RPG e jamais retornou a Pelotas (pelo menos pra jogar RPG).
Mateus – é programador, pai de um filho e padrasto de outro, continua disputando com Sérgio o prêmio de maior contador de histórias desde os tempos da Saga de Curitiba. Largou (dizem) o RPG e jamais retornou a Pelotas.
Sérgio – é redator publicitário e se dedica ao hobby do jornalismo gonzo, mesmo sabendo que não é bom nisso. Pretende escrever sobre a Saga de Curitiba, da qual participaram ele, Mateus e Rafa. Largou parcialmente o RPG e pra matar a saudade do fucão comprou um Fiat Uno 93, também conhecido como Trovão Azul. Jamais retornou a Pelotas.
Aline (ex-Guria) – separou-se do Guri e perdeu o apelido pra sempre. É comissária de bordo e hoje em dia mora em SP, vindo de vez em quando para Porto Alegre pra visitar a família e motéis aleatórios. Jamais retornou a Pelotas.
Velhotas do posto – continuaram comendo no similar ao "Japonês" por um bom tempo até que um dos vendedores reconheceu o retrato de uma delas em uma caixa de leite.
Mecânico do veredito – comprou o fucão de um picareta e está feliz com sua bobina Bosch.
Meninas de Pelotas – ficaram esperando, sem sucesso, o telefone tocar no dia seguinte.
RPG – foi acusado de matar velhinhas e garot@s virgens em rituais satânicos, quando na verdade as pessoas que fizeram isso é que são afetadas.
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julho 16, 2014
A Saga de Curitiba
Esse post se perdeu quando eu escondi o Hell'z Club (por vergonha do que estava escrito lá). Agora que estou mais velho, tenho menos vergonha das bobagens que fiz e dos maus escritos que digitei. Esse texto é de 2000 (ou antes, eu acho), era um gurizinho. Enjoy!
A Saga de Curitiba
Prefácio.
O bardo das letras que humildemente vos narra esta história participou dos eventos pré-Era de Aquarius de Curitiba. Tudo que se sucedeu depois da Saga de Curitiba mudou as vidas dos nossos heróis, vilões e até mesmo desconhecidos. A mais histórica aventura já contada de uma manada de patos sulistas nas bandas do Sul-Sudeste (porque Curitiba não é NEM A PAU parte do Sul) desde a super expedição a Pelotas no Fucão da Wyrm.
Capítulo 1: A Decisão.
Como já mencionado em narrativas passadas, Mateus "Teto", Maurício "Guri" (ou seria Guri "Maurício"?), Rafael "Cacetinho" e eu (Sérgio "Schüler") eram grandes amigos e jogares assíduos de RPG lá pelos idos de 1999/2000.
Então, certa vez, o Edufa, um dos diretores da House de Curitiba propôs um live (um jogo) NACIONAL em sua cidade. Um super evento nos mesmos moldes que já haviam ocorrido em São Paulo, Rio e também em Curitiba em algum passado distante. Megaeventos desses, com cerca de uma centena de alucinados por RPG, devem ser muito bem planejados e estruturados. Afinal, se uma centena de pessoas juntas já causam a maior quantidade de problemas improvavelmente absurdos, imagine os malucos RPGistas que são improváveis, absurdos e problemáticos em sua natureza. Com certeza isso exigiria muito esforço e planejamento ou então muita irresponsabilidade, resultando em perigo letal para qualquer morador, caminhoneiros e outros seres vivos dos arredores. Para o jogo, Edufa marcou a data em um feriadão, desses que caem na quinta e ninguém trabalha sexta. Obviamente eu ainda não trabalhava com propaganda, então teria o feriadão e, pasmem, sábado livre. Decidi ir, não sem arrastar alguém comigo para essa desgraça toda.
Teto e Rafa concordaram em ir, Guri queria, porém foi barrado por sua futura-ex-mulher, a ex-Guria. A comitiva estava incompleta, porém os três irmãos nada temeram. Embarcaram no ônibus mais barato e, conseqüentemente, mais baleado, fubango e desconhecido rumo a Curitiba. Doze horas de viagem os aguardavam, pelo menos em teoria.
Capítulo 2: A Viagem.
Na primeira hora dentro ônibus, falávamos muito, estávamos muito empolgados, apesar do sádico motorista ter decidido usar o enjoativo, rodopiante e penhascoso caminho da serra.
Começamos a nos distrair com as coisas que trouxemos: diversos embolachados e águas gasosas embebidos em todo tipo de químico conservante, odorizante e saborizante. E, claro, música de walkman, para aqueles que tinham a sorte de ter trazido pilhas para alimentar o comedor de energia. O que não era o meu caso. Percebi que minhas pilhas haviam acabado antes da primeira hora de viagem.
Depois de algumas horas, o Rafa disse que ia dormir, cabe aqui dizer que quando ele fala que vai dormir ela já dormiu. Pois tem um botão, não me pergunte onde, que se desliga da realidade mundana em menos de 1 minuto, na verdade é uma coisa meio contagem regressiva "5... 4... 3...". Certa vez estávamos conversando, eu e o Mateus, com ele quando de repente ele não respondeu nada, a não ser que um RONCO fosse a resposta. Havia dormido no meio de um intervalo de 2 minutos de uma conversa e outra. Bizarro.
Bom, ele dormiu, e eu, já sem pilhas, tinha consumido todas as bolachas que conseguia comer. Só me restava tentar dormir, já que o Mateus já estava aderindo ao movimento também.
Quase na metade do percurso, paramos. - Hora do rango - Pensei. Pensei errado, pois estávamos perdidos no meio do nada, em uma destas cidadezinhas sem nome, na porta de um MECÂNICO, o que me fez pensar alto:
- Ônibus têm bobina? Não sabia...
Todo mundo desceu do busão. Havia algo errado com os amortecedores ou coisa assim, felizmente a bobina estava intacta – ou era Bosh? - e o mecânico não parecia expedir nenhum tipo de VEREDITO. Eu, o Rafa e o Mateus decidimos explorar um pouco as redondezas. Descobrimos a uma quadra de distância um orelhão e um boteco dos mais chinelos.
Adentramos o recinto e a primeira coisa que percebi foram aqueles pastéis frios parados no balcão desde épocas imemoráveis, provavelmente antes mesmo de o atendente estar empregado ali, ou quem sabe antes mesmo do cara ter nascido.
Arriscamos, cada um, um misto-quente (putz, isso é uma torrada, pô!) e um refrigerante desses de garrafinhas de vidro. A esta altura outras pessoas do bus aventuravam-se pelas imediações do pequeno boteco sem nome, frustrados por causa da parada não prevista.
Depois de comer e telefonar pra casa, exploramos um pouquinho mais as redondezas, até perceber que não tinha nenhuma caipira tarada metida a Lolita ou Engraçadinha perdida por aí dando sopa.
Fomos até o mecânico e observamos aquela cena crássica: tiozão, com a bunda pra cima, consertando o ônibus com metade do FIOFÓ sujo de graxa aparecendo. Quase 1h depois o ônibus estava pronto (não se sabe sob qual ponto de vista, mas nós também não ousamos questionar) pra seguir viagem. E assim foi: mais algumas horas da incrível visão mato/poste de luz/penhasco mortal, até eu cair (essa não é uma palavra apropriada quando se fala em penhasco mortal) no sono novamente.
Capítulo 3: chegando ao Dr. Destino.
Acordei diversas vezes, mas logo depois dormia. Foi numa dessas acordadas/dormidas que vi que havíamos chegado em Curitiba, "pelo menos era o que dizia a placa verde que passamos há 10 minutos atrás", dizia eu. Porém só havia mato e ruralisses a nossa volta. Que estranho. Comecei a ficar angustiado, 20 minutos depois ainda nada de vestígios de civilização. 30 nada. 45 e finalmente algo que poderia lembrar um prédio. Chegamos na rodoviária de Curitiba, cerca de 14h, completamente sujos, suados, cansados, nojentos, maloqueiros e tudo mais, ou seja, no clima mais perfeito de uma rodoviária de capital, onde se encontra todo o tipo bizarro de gente vinda diretamente das barbas do lugar algum ou indo com muitas escalas rumo ao inferno mais longínquo já imaginado por um cartógrafo de Star Trek.
Fomos até o segundo andar da rodoviária, era onde ficavam as lojas e afins. Queríamos um pouco de comida e também um telefone público. Ligamos pra algum dos diretores e organizadores da House de Curitiba, nos descrevemos, pois nunca havíamos sido vistos um pelo outro e fomos comer algo na rodoviária.
Ao entrar em uma das "lancherias" encontramos alguns poucos corajosos "degustando" as "especiarias" rodovientas: o velho Xis Salada mofado com MUITO, mas MUITO demais pra caralho mesmo, milho.
Cada um fez o seu pedido, evitando obviamente a combinação venenosa de toda rodoviária: o "especial" ou "à moda da casa". JAMAIS, peça esse tipo de coisa em uma rodoviária, a não ser que esteja pensando em se matar de uma forma dantesca e emocionante, esvaindo todo o seu sangue, e sabe-se lá mais qual substâncias que DEVERIAM ser mantidas dentro do corpo, dramaticamente pela cavidade anal e cuspindo por entre os dentes todas as tripas do intestino grosso por dias a fio, não sem antes se submeter a rituais constrangedores como o do copinho com fezes, que vai parecer mais mousse de abacate, e a tão sádica lavagem gastro-intestinal. E, sinceramente, enfiar mangueiras esguichantes pra dentro do corpo via qualquer buraco me parece um pouco gay demais.
Comemos e fomos esperar o Edufa na frente de uma LOJA DE MÁGICAS que tinha na rodoviária, não sem antes fazer uma incursão emocionante pelo banheiro gratuito. Fico imaginando que tipo de pessoa vai até uma rodoviária para comprar objetos de mágica barata. Seriam mágicos de ônibus?
Esperamos por quase uma hora, quando de repente uma menina de uns 25 anos nos perguntou se éramos de Canoas. Imediatamente pensei "meu Deus, o Edufa é transformista!". Mas não era bem assim, esta era outra diretora de Curitiba, a Déia, uma pessoinha muito simpática, descobriríamos depois.
Juntamos nossas MUITAS e PESADAS malas e começamos a saga da exploração da dita "cidade modelo". Andamos mais de 20 minutos, completamente guenzos, até uma loja de RPG onde os hereges e errepegístas em geral costumavam comprar seus livros "sagrados". Mofamos lá, morrendo de vontade de tomar banho, por mais umas 2h, mas era preciso fazer a social, mesmo que nosso futum de gambá que acabou de brigar com uma dúzia de porcos selvagens no lixão de Cubatão não fosse muito "social".
A esta altura já estávamos descontraídos, já que além das pessoas novas, dentre eles, e principalmente elAS, curitibanos, paulistas, cariocas, VARGINENSES, SOTEROPOLITANOS e toda sorte de cidades com nome de remédio tarja preta, tinha também os, já conhecidos anteriormente, barrigas verdes de Floripa e os gaúchos de Pelotas e Rio Grande. Estávamos longe de casa, mas com pessoas o suficiente para promover o caos sulista.
Capítulo 4: o DCE de Dante
Finalmente decidiram nos "levar" até o nosso alojamento, onde poderíamos guardar nossas coisas em "segurança", tomar um bom banho quente (já que era inverno ou outono – sei lá) e descansar um pouco antes da função noturna. "Levar" está entre aspas porque fomos ANDANDO até lá, "segurança", bem, isto você descobre mais adiante. Mais uns 15min de andança, abarrotados de malas, nós, os patos sulistas, incluindo aí o pessoal de Rio Grande, Pelotas e Florianópolis, chegamos ao tão esperado abrigo, um DCE de uma universidade. Pelo estado precário do prédio, desconfio, de uma universidade pública.
A visão era aterradora. Um prédio velho, grafitado toscamente por pichadores provavelmente em estado avançado de mal de Parkinson e Vaca-louca, com os vidros quebrados e um elevador minúsculo, para umas duas pessoas, que dava MUITO medo.
Decidimos de comum acordo que subiríamos os três ou quatro andares de escada até chegar ao abrigo, um ou dois corajosos usaram o elevador, de qualquer forma era o máximo que cabia no elevador e eu não estava nem um pouco a fim de ficar preso em um prédio estranho, de uma faculdade estranha e, pra completar, em uma cidade tão estranha que parecia piada chamá-la de "modelo" para qualquer coisa boa.
Subimos os lances de escada observando o "ambiente" do prédio: portas semiderrubadas e quebradas, pedaços de vidro, sujeira, papel higiênico USADO e outros dejetos não identificados no chão, portas de compensado seguradas por maciças correntes fechadas por cadeados, enfim, era praticamente uma masmorra medieval, bem pitoresco para um bando de rpgistas, mas não parecia muito apropriado, mesmo pra nós.
Quando chegamos no lugar que dormiríamos, duvidei seriamente das boas intenções dos diretores de Curitiba e comecei a olhar pros lados esperando uma cilada vinda de algum lugar para pregar uma peça na gente. Não podia ser verdade. O chão do lugar era de concreto puro misturado a pequenas e pouco generosas doses de parquê, MUITO sujo. A porta, se é que podia ser chamado disso, era uma grade de correr, fechada por um cadeado chinfrim, desconfio, feito de chocolate. Os "colchões" eram espumas velhas e detonadas, muito piores do que aqueles colchonetes de viagem. As janelas ao menos tinham vidros, nem todos, mas a maioria e, obviamente, não tinha nenhuma cortina pra nos proteger do sol da manhã, que quando se vira a noite acordado não é nada bom para o humor. Pelo menos o meu.
Demoramos quase 15 minutos para acreditar que aquilo realmente era onde dormiríamos, se os proprietários, os ratos, baratas, morcegos e, possivelmente, DINOSSAUROS, permitissem. Depois de telefonemas de indignação e até uma sugestão de passar a noite na prisão, já que deveria ser menos insalubre que aquele lugar, decidimos aceitar a nossa sina e começar a LIMPAR o lugar. Claro que não fizemos milagres, apenas limpamos. Para o lugar ficar habitável precisaria de no mínimo uma retroescavadeira. Mas o mais inteligente seria demolir o prédio e construí-lo de novo.
Enquanto a galera limpava, eu decidi tomar um banho. Ninguém ainda havia provado esta experiência antes. Antes de entrar no banheiro observei um cartazete escrito exatamente assim:
“Cuidado! Não deixe o chuveiro tremer, senão ele explode. É sério”.
Chamei todo mundo pra olhar aquilo, não podia ser verdade. Bom, eu breve eu descobriria. Tentei desistir do banho convencendo os outros que tinha descendência francesa em algum antepassado bastardo da família Schüler, mas não colou. Não tinha mais jeito. Eu ia ter que ser o primeiro a utilizar o chuveiro. Com ou sem explosões.
Abri a porta do banheiro e me apavorei. Imagine um banheiro público no centro de São Paulo que acaba de sediar uma briga entre torcedores punks de futebol. Agora imagine uma coisa pior que isso e você tem a descrição da saleta que eu estava pra entrar. Primeiro, não havia sequer um lugar que não estivesse completamente sujo de materiais totalmente estranhos pra ciência moderna para largar as roupas e toalha. Eu estava sujo, mas aquilo era ridículo. Saí e arranjei, sei lá onde, uma sacola plástica pra colocar minhas coisas. Então foi isso, Estava lá peladão, apesar do FRIO CONGELANTE, com tudo balançando, e com os pés em cima do chinelo, já que o chão estava muito mais sujo que a calçada do Mercado Público. Fiquei parado por quase 5 minutos rezando para que, em caso de explosão, o chuveiro não me matasse ou quem sabe decepasse a minha cabeça. Qualquer uma delas.
Olhei para o chuveiro e me preocupei seriamente com a minha integridade física. Era a fiação elétrica mais enjambrada desde a época do McGyver. E o pior, eu não tinha garantia nenhuma que o sujeito que fez ela tinha a capacidade do McGyver, pra falar a verdade, duvidava muito que sequer soubesse o que é um curto-circuito na teoria, pois, na prática, devia ser expert.
Abri o chuveiro. A água fria "jorrava" em "generosas" gotículas d’água. O suficiente para encher menos de meio copo d’água em alguns bons 5 minutos catando os pingos que caíam. Bem, ao menos o chuveiro não estava tremendo. Mas também não estava esquentando. Comecei a me molhar a medida que meu queixo tremia e minha pele entrava em algum tipo de colapso congelante.
Tentei fazer o chuveiro esquentar.Quando ele começou a esboçar alguma reação de que PODIA esquentar um pouquinho, começou a tremer FEROZMENTE, dando um barulho terrível de *tum tum tum*. Desliguei imediatamente. Impossível descrever o quando o chuveiro tremia, era praticamente uma máquina de lavar ligada dentro da caçamba de um caminhão andando a 100 km/h em uma estrada com mais crateras que a Lua. Sacudia tanto que molhava toda a extensão do banheiro. Tentei de novo e de cara ele começou o seu tremelique desvairado.
Então era isso, eu tinha um cabelo cheio de xampu, um corpo congelado e QUASE molhado, um vento dos infernos que insistia em invadir a janela quebrada do banheiro dos infernos e um chuveiro que não esquentava a não ser que entrasse em combustão e explodisse nas minhas fuças. Eu estava bem arranjado mesmo. Liguei de novo tirei o xampu como dava, ensaboei as partes baixas e fim. "Chega de banho", como diria aquele mongol do filme.
Saí do banheiro com uma cara não muito satisfeita e adverti sobre o tremelique do chuveiro. Mas não disse nada sobre a água ser fria. O Mateus seria o próximo a descobrir o poder da água gelada no inverno.
Ele entra no banheiro e alguns segundos depois todos ouvimos um grito. Perguntei-me se o chuveiro havia explodido, mas não, ele *apenas* entrou com tudo na água sem ver que ela estava totalmente fria. He he.
Depois que todos havíamos passado pelo ritual de congelamento sanguíneo no chuveiro infernal e "limpado" o lugar para tornar-se QUASE habitável para um favelado. Era hora de começar a reclamar durante uma ou duas horas e começar a se arrumar pro que nos esperava à noite: o jogo.
Capítulo 5: Noite I: descobrindo o significado de TRÊS QUADRAS CURITIBANAS
No primeiro dia, ou melhor, noite, o primeiro jogo, de uma série de 3 noites de jogatina, seria em separado. Cada família, ou o que chamávamos de Clãs, reunir-se-ia em locais diferenciados, de acordo com a "personalidade" de cada família. Seria muito estranho punks em um restaurante chic ou engravatados de terno em um Xis na rodoviária. Bem, eu, desta vez, fazia parte da turma dos almofadinhas engravatados e chics do último. Aliás, era o chefe deles, o mais engomadinho de todos. Pena que minha personalidade, digamos explosiva, não combinava muito bem com essa função.
Todos nos vestimos com as roupas mais estranhas. Eu de sobretudo e gravata, o Rafa de mano de Niterói, acompanhado fielmente pelo Mateus no mesmo estilo, o Maurício Tremere estava como um DUENDE DOENTE VERDE DE DOIS METROS DE ALTURA, o Marcos de Joinville e a sua namorada, acho, estavam vestidos como artistas homossexuais novos-ricos da renascença, o Marcos de Floripa estava vestido de POMBA-GIRA COM CAPA VERMELHA E PANTUFAS DE TIGRE, o sujeito de VARGINHA estava de engomadinho e ia pro mesmo lugar que eu, o André estava vestido como astro gótico do pop punk poser rock, a Bárbara, namorada de um dos 500 Marcos presentes, estava de projeto de punk metida a gordinha sexy e se tinha mais alguém vestido de forma maluca, sinceramente não lembro. Um dos diretores não mencionados, Jimmy, nos disse que iríamos até o centro da cidade, segundo ele TRÊS QUADRAS (guarde essa palavra) dali, para depois nos dividirmos. Agora imagina esse grupo ímpar andando por uma CAPITAL MALUCA, à noite, dirigindo-se até o centro guiados por um sujeito de camiseta e CHAPÉU de feltro.
Saímos, usando obviamente as escadas, e deixando nossas coisas na "segurança" da grande porta de grades e do seu cadeado que devia ser sagrado para ser considerado seguro. Após MEIA HORA de andança, chegamos no centro e descobrimos finalmente o significado tênue, e aparentemente quântico, da palavra "três quadras" em Curitiba.
Nos dividimos e andamos, cada grupo, mais ou menos TRÊS QUADRAS CURITIBANAS até chegar ao nosso destino, no caso de nós engomados, um pequeno pub PORTUGUÊS em uma ruazinha meio morta. O lugar era simpático, nenhum The Cave, mas não tão ruim quanto o Xis do Gato e o DCE que nos abrigava.
Estávamos confinados no mezanino, lugar que a diretoria de Curitiba escolheu pros engomados, abaixo do mezanino jazia um PALCO e na frente do PALCO uma série de mesinhas de madeira apertadas em pouco espaço.
Subimos e, em uma união de mesas, começamos a reunião do Clã. Uns 15 negos de terno e gravata espremendo-se em um espaço de uns 3x6 metros, onde no centro repousava uma GRANDE mesa. Uns 10 minutos depois de começar a falação, um barulho ENSURDECEDOR começa a vir do PALCO. Uma gorda doida, vestida de algo parecido como "a tia gorda e bêbada do casamento", sentada em um banquinho e espancando um pandeiro, cantava sambas de antigamente, desferindo golpes de voz contra os pobres e embriagados clientes do pub PORTUGUÊS.
Não conseguimos mais ouvir uns aos outros, esse foi o tom da noite inteira, até umas três da manhã quando decidimos de comum acordo (?) que a reunião estava encerrada e nós havíamos nos entendido (?!). O que era uma grande balela, os caras apenas balançavam a cabeça enquanto uns falavam e na hora da resposta, que não tinha nada a ver com a pergunta, os outros que tinham de balançar. Ninguém ouvia nada, mas estávamos todos felizes depois que começou rolar uma cervejinha amiga – esse é o pretexto de quase todos os jogos de rpg em cidades distantes: beber umas e outras, andar fantasiado e tocar o horror longe de casa. Quase invadimos o palco, mas decidimos que era muito pequeno para 15.
Capítulo 6: reggae night
Saímos do pub bacalhau e andamos mais uns 30min, umas três quadras CURITIBANAS, até um barzinho apontado por um dos diretores da house de Curitiba. Todo mundo ia pra lá depois de seus respectivos jogos, isso se tivesse humor suficiente e chinelagem o bastante no sangue.
Enquanto andávamos pela rua dos barzinhos, toda capital tem pelo menos uma, vemos sair, de uma casa noturna vistosa, um boy carregado por seguranças. Ah, um típico exemplo de Pity-boy. Brigão, bêbado, rico e de pau fino.
Chegamos até o barzinho que procurávamos e invadimos o lugar. Era um reduto maconho-reggae-surfista de dois andares. Simpático. Música em volume médio, posters do Bob pendurados nas paredes, mesinhas vazias, boinas amarelas, vermelhas e verdes na cabeça dos malucos, fumaça com cheiro de ervas "medicinais" e cerveja relativamente gelada, o que também não era tão importante estando no inverno.
Causamos um pequeno desconforto ao chegar no local, afinal, uns quinze ou vinte sujeitos engravatados chegando em um lugar desses poderia muito bem significar o FBI ou sei lá o quê. Mas tudo ficou calmo quando nos aproximamos da mesa dos outros jogadores que já haviam invadido o local, vestidos de formas ainda mais estranhas, como já descrito anteriormente.
Bebemos e continuamos a beber enquanto outros doidos se aproximavam, vestidos cada vez mais estranhamente. Tiramos fotos. E lá pelas tantas eu estava com sono. Cabe dizer que eu com sono sou a pessoa MAIS anti-social, chata, murrinha, reclamona e resmungona, não que seja muito diferente de quando não estou com sono.
Comecei a resmungar e reclamar. Aos que perguntavam o que eu tinha, eu quase mordia. Dormi cerca de uma hora na mesa até que, finalmente, eles se enchessem de beber e rumassem pra casa. E lá vamos nós, mais três quadras Curitibanas que levam mais de meia hora pra serem percorridas por passadas rápidas gaúchas.
Capítulo 7: O primeiro dia passou
Voltamos pro DCE, subimos as escadas, cambaleando de sono, ou cerveja, e começamos a nos "aconchegar" nos inconfortáveis pedaços de esponja pura que alguém, em um remoto passado, havia chamado de colchão certa vez e, hoje, chamaria de "cama pro cachorro vira-lata". Sentia a irregularidade do chão nas minhas costas. Cobri-me até a cabeça com um cobertor, que havia trazido de casa, já que a falta de cortinas, o sono, o sol raiando, o "colchão" e o excesso de homens fedorentos e roncadores não compunha um bom ambiente para um tranqüilo e, depois de tantos contratempos, necessário sono.
Tive sonhos estranhos e psicodélicos. Provavelmente proporcionados pela extensa fauna de fungos, certamente alucinógenos, presentes no pedaço de esponja onde despejei meu corpo cansado. Era algo com bandas de rock e jogadores de RPG assassinos, não entendi, mas, descobriria depois, era uma premonição.
Fui acordado a chutes. Resmunguei. Todos estavam de pé. Assim seria pelo resto dos dias em Curitiba: eu seria sempre o último a acordar, aliás, a ser acordado. Quando todos já estavam melhores do mau humor, o meu tinha recém começado.
Fui avisado que íamos pro café da manhã. Ao menos avisaram, agradeceria depois.
Capítulo 8: Saco vazio não pára em pé
Andamos mais meia hora pra chegar no lugar onde tomaríamos café da manhã. Na frente do local já havia alguns malucos esperando para atacar com vontade voraz cada um dos itens. Não me lembro ao certo o que tinha pra comer, mas nós mandamos MUITO ver.
Parecíamos todos mendigos mortos de fome, o que, na realidade, não estava muito longe disso, já que tínhamos caras mal dormidas, mal humor, banho frio, roupas amassadas e, claro, toda a estranheza que qualquer rpgista carrega consigo, mesmo nos momentos mais normais (?) do cotidiano.
Lembro-me que havia um bolo de cenoura que degluti, sozinho, umas 5 fatias. Nós acabamos com o lugar, mas o pior de tudo foi o banheiro depois. Todo mundo, impelido pela sujeira extrema dos banheiros do DCE, em que nem as baratas e ratos tinham estômago suficiente para transitar, decidiu usar o banheiro do BANDEJÃO CAFÉ DA MANHÃ e para o tão conhecido NÚMERO 2 from outter space. Detalhe: havia 1 privada para mais de 20 pessoas com fortes dores intestinais. Fomos obrigados a organizar uma fila, que, enquanto a porta estava fechada, se espremia em cólicas fedorentas na altura do estômago e, quando a porta era aberta por um sujeito feliz e aliviado, respirava um ar pior que o de Cubatão, totalmente envenenado pelos piores e mais alienígenas cheiros de podridão fecal.
Após longa e quase infinita espera, finalmente chegou a minha vez, infelizmente, depois do Maurício Tremere, como já dito em outras histórias, um gordão de 2 metros de altura e beirando seus 200kg, - óh não - pensei. Adentrei o recinto fechado e o bafo de urubu suado era intenso. As paredes pareciam transpirar com o ar pesado e difícil de respirar. - É agora ou nunca - pensei.
Sentei no vaso sanitário, quente, e desferi diversas rajadas com minha metralhadora analógica. Temi pela saúde da fossa. Por sorte, ao menos comigo, não transbordou. Lavei as mãos, já quase sem oxigênio, e abri rapidamente a porta. - Ahhhhhhhh , ar novamente! Liberdade! Liberdade!
Capítulo 9: Turismo com Dante
Não contentes com tudo que já haviam feito a gente andar, os diretores Curitibanos, em especial a Déia, decidiram nos levar, a pé, pra dar uma PEQUENA volta pela cidade.
Vimos coisas TÃO interessantes, como um mercadinho idiota, que mais parecia a versão Moinhos de Vento do Brique da Redenção, vendendo inutilidades e artigos decorativos, principalmente pra crianças e um "monumento" babaca, que lembrava MUITO um simples retângulo liso na altura do saco, o que era sugestivo, ao centro da cidade ou à mãos ou algo assim que não me lembro ao certo e, claro, a primeira faculdade, não universidade, do Brasil.
Sinceramente, não lembro de ter visto nada de interessante, mas quando falaram em visitar a tal Ópera de Arame, quase que em coro, a cambada sulista, acabada, disse "não, nós vamos é pro DCE da wyrm", convencidos de que a Ópera valia a pena, mas não para nós, tristes andarilhos, patos que não sabiam voar. Principalmente depois do pessoal de Curitiba ter dito que a Ópera era LONGE, ou seja, MAIS longe do que as tradicionais TRÊS QUADRAS - logo ali - de meia hora - CURITIBANAS.
E fomos pro DCE. Não sem antes passar em um supermercado, de nome improvável, e comprar muitos pacotes de bisnaguinhas 7 Boys, uma faca, de ponta, e diversos tipos de acepipes pastosos, a.k.a. PATÊ.
Capítulo 10: Sexo, RPG e rock´n roll
Nós, os patos sulistas, jogávamos um RPG amigo, esparramados no chão, por sobre as esponjas, que um dia foram colchões, do DCE do inferno. Quando eu estava com mais de meia bisnaguinha com PATÊ enfiada na goela, apareceram, do nada, uns 3 ou 4 cabeludos vestidos de preto. Inicialmente achei tratar-se de um assalto ou algo assim, mas os caras entraram no DCE, passando pela grade, sem dizer nada e rumo a outra sala do DCE: a sala onde ficavam alguns instrumentos.
- Grunchquêmsã gucêsh? - eu tento falar com a boca cheia.
- É, quem são vocês? - algum dos meus solícitos colegas traduz.
- Somos da banda Fuck & Kill the Doomed Hell's Demon or Die in Bloody Pain.
- Olhem, rpgistas. - Deprecia um dos integrantes da banda.
Engulo o pão e digo: - Olhem, uma banda. - Devolvendo a depreciação.
- Vocês não vão tocar, vão? - Algum dos rpgistas, quer dizer, um de nós, reclama.
- Não, não, só viemos buscar os instrumentos. Temos um show hoje de noite. - Falou o terceiro cabeludo vestido de preto.
- Tá, mas, e se não tivesse ninguém aqui? Como vocês pegariam os instrumentos? - Um de nós retrucou.
- Nós temos a chave. - Falou um dos "músicos", dirigindo-se finalmente a sala onde estavam guardados os instrumentos.
Ficamos todos mudos por alguns segundos. Começamos a entender que nossas malas, cheias de pertences, estavam expostas à toda sorte de maluco que poderia nos roubar se não estivéssemos ali naquele instante, ou até mesmo à noite, quando estaríamos em mais um jogo. Meu Deus, nossa paciência não estava mais suportando tanta coisa.
Continuamos a jogar por mais uns 5 minutos, quando de repente a porta onde estava a banda se abre e um dos sujeitos diz:
- Poxa, não mexam nos instrumentos, né?
- Ninguém mexeu em nada. - Mentimos.
O sujeito voltou pra dentro e fechou a porta.
Dois ponto cinco segundos depois, ele sai, com uma CAMISINHA USADA na mão e diz:
- Pô, a noite foi boa, podiam ao menos colocar no lixo.
A única menina que dormiu naquele quarto, namorada do Marcos, fica vermelha, enquanto o sujeito volta pra toca.
Depois de 5 minutos de risadas, voltamos a jogar, quando, mais uma interrupção aconteceu. Mas desta vez ninguém abriu a porta, o que acontece é que a banda começou a TOCAR com todos os instrumentos PLUGADOS. Um de nós que estava com a faca, comprada no supermercado de nome improvável para cortar as bisnaguinhas e passar o PATÊ, segurou-a bem firme e disse:
- Vou matá-los agora mesmo.
- Não, não, espera aí. Depois vão dizer que somos rpgistas satânicos. Vou ali embaixo ligar pra algum diretor de Curitiba. - Eu disse, acalmando os ânimos, apesar da minha fúria.
- Boa idéia, chame alguém com uma faca melhor, porque esta não deve nem cortar os cabelos sujos deles. - Retrucou o sulista à beira de um ataque de nervos.
Desci e me lembrei que não estava de posse de nenhum cartão telefônico, por isso, liguei a cobrar pro Edufa.
- Alô, Edufa?
- Eu mesmo, quem fala?
- É o Sérgio, de Patópolis.
- Heim?
- Schüler, coordenador dos Ventrue.
- Ah, fala.
- Ahn, como direi? – perco a elegância e grito: - ROQUEIROS CABELUDOS ROUBARAM TODAS NOSSAS COISAS E NOS AMARRARAM COM AS CORDAS DA GUITARRA!
- MEU DEUS!
- Vem pra cá, nós precisamos trocar de “moradia”.
- Ok, ok, já tô chegando aí, vou chamar mais alguém de carro, fica calmo.
Finalmente tinha feito a primeira coisa esperta desde que comprei a passagem de ônibus pra Curitiba. Iríamos pra outro lugar e ainda por cima de carro. Ponto. Subi e esperei, observando, minutos depois, a banda levando seus instrumentos pra mais um estrondoso show.
Capítulo 11: a nova esperança da aliança rebelde
Quando ouvimos o barulho de escadas, nos posicionados, de posse das facas de patê e pistolas de brinquedo, de modo que lembrasse um movimento de uma tosca emboscada ninja. Nota-se aí que não perdiamos o senso de humor, nem nas horas mais impróprias, adversas e absurdas. Quando o Edufa colocou o primeiro pé na porta, já tínhamos pulado, gritando, para mostrar bem como estavam os ânimos do bando sulista. Podíamos, tranqüilamente, neste estado, planejar um atentado terrorista. E seria, com certeza, contra Curitiba.
Explicamos, desta vez, a realidade e o, maldito encolhido, Edufa ofereceu sua CASA para hospedar nosso bando. Exatamente o lugar onde já se encontravam todos os SUDESTANOS do Rio e São Paulo. Maldito cão curitibano Edufa.
Nos deslocamos até lá, desta vez e pela única vez, de carro. Um pouco apertados, é verdade, mas felizmente poupamos boas 3 quadras Curitibanas de andança. Ao chegar, percebemos que a casa não era nenhum palácio, mas, comparada ao DCE, era o próprio paraíso. Nos “aconchegaríamos” na sala, porém, desta vez, com COLCHÕES, o que era um verdadeiro progresso. Sem banda, sem ratos, sem chuveiro que explode.
Capítulo 12: momento de fé
Como o número de pessoas que congestionavam a casa, em especial o banheiro, do Edufa, alguns outros solícitos curitibanos resolveram nos oferecer suas dependências para que todos conseguissem tomar banho – antes do final do feriado. Uns 10 do nosso bando sulista foi até a casa da Fernanda, jogadora de Curitiba, sob a promessa de que os que ficaram com o Edufa nos esperariam para o jantar.
Ao descobrirmos que a Fernanda nos ofereceu um – o primeiro – chuveiro quente desde que chegamos, incluindo aí o direito de sentar em um sofá enquanto esperávamos, começamos a chamá-la, e assim foi até anos depois, de Santa Fernanda da Água Quente.
Após todos limpos e até de barba feita, voltamos pra casa do Edufa. Descobrimos que eles tinham saído para jantar, sem a gente, em uma pizzaria ali perto. Desconfiamos do “perto”, mas era, de fato, próximo ou então nós já estávamos nos acostumando as peregrinações, não sei ao certo.
Capítulo 13: saturday night fever
Com as pizzas ainda pesando no estômago, fomos nos preparar para a próxima rodada de jogos malucos, com todas aquelas fantasias e essa coisa toda, porém desta vez o ambiente era mais condizente com a histeria supersônica dos esquisitóides jogadores: era uma danceteria bastante tosca, com alguns tijolos a mostra, iluminação precária e aparelhagem duvidosa. Obviamente fechada para somente nós malucos, sabe como é, as pessoas costumam estranhar bastante um sujeito metido num pijama, com capa vermelha e pantufas de tigre no lugar que não é destinado a festa à fantasia. Mas o bar estaria funcionando, o que contribuiria bastante para melhorar as interpretações de personagens ou, melhor, afrouxar a nossa crítica e, principalmente, autocrítica.
Lembre-me que tudo ocorreu na normalidade, conceito quase abstrato para rpgistas, com exceção de algumas alterações causadas pelo excesso de substâncias alucinógenas e música repetitiva, da qual fui um pouco responsável. Dentre uma das alterações, um mané subiu no palco e começou um striptease VERDADEIRO. Após algumas risadas, percebi quem estava lá em cima, de cuecas e sem encolher a barriga, desconsiderando o senso do ridículo: era o Rafa, integrante da comitiva canoense.
Sim, ninguém mais poderia ser tão saliente e, por que não, corajoso como o Rafa. Depois reclamam da fama, propagada principalmente pelo Casseta e Planeta, sobre as preferências sexuais pouco ortodoxas dos gaúchos.
Inquirido sobre o assunto, o Rafa respondeu que o strip foi MARKETING. No momento não entendemos se foi positivo ou negativo, mas desconsideramos e fomos obrigados a ir embora, não pela gerência da casa, mas pelo pouco de consciência que ainda incidia em nossas mentes.
Capítulo 14: o bem vence o mal
Na próxima noite, a mesma coisa, 30 minutos de caminhada, já fardados como habitantes do hospício em uma festa à fantasia, chegamos no próximo local de jogo, o último por sinal. Era um prédio residencial, desses que tem piscina e um grande pátio/salão de festas no térreo.
Com a algazarra promovido normalmente, apesar de todos os organizadores implorarem silêncio, o que não faz muito sentido em uma espécie de teatro, um dos moradores do prédio resolveu jogar um balde d’água em alguém. Aí começou o terror, pessoas correram, gritaram, quebraram vazos e, creio, alguém caiu na piscina. O Rafa que havia sumido, apareceu todo despenteado ao lado de uma menina, igualmente despenteada e sem maquiagem, que era namorada de um dos sujeitos. Neste momento eu entendi que a propaganda funcionou.
Saímos do prédio, ainda na metade da noite, vagando em busca de outro lugar pra continuar o jogo. Paramos em uma praça pública, prontamente fomos repelidos por integrantes da polícia militar. Procuramos outra e simplesmente recontinuamos. Até que, finalmente, uma notícia boa:
Havia um antiqüíssimo desafeto gaúcho, morador de Florianópolis, um sujeitinho escroque e temeroso por diversas vezes da selvageria e terror gaudéria, o Hederson, era o único “sulista” – desconfio que tenha nascido em outro lugar que não o Sul – que estava passando bem desde o início: estava de carro, ficando num hotel e era amigo dos organizadores de Curitiba. Pois que recebemos a aguardada notícia de que ele havia BATIDO O CARRO.
O que se seguiu foi uma comemoração, com gritos e pulos, da comitiva sulista, incluindo aí aqueles de Florianópolis que haviam vindo de carona com o imprudente rapaz.
Então tudo parou, simplesmente sentamos e ficamos contando piadas, rindo da própria desgraça e rindo muito mais da desgraça alheia. Decidimos peregrinar pras nossas “camas”. No caminho, lembro-me que alguém olhou pro lado e disse:
- Bah, mas essa Déia tem uns peitões maiores que melancias geneticamente modificadas, tu não acha?
- É, ela é minha irmã.
- Com todo o respeito é claro. – calou-se o sulista que não abriu a boca pelo resto do trajeto.
Capítulo 15: hora de dar tchau
Acordo sob o açoite dos chutes de alguém, desconfio que era o Teto, que me diz que é hora de ir embora. Começamos a socar nossas coisas na mala, demos tchau a todo mundo, brincando, porém falando a verdade, de que tudo foi um inferno e jamais voltaríamos. Colocamos as pesadas bagagens nas costas e caminhamos rumo a rodoviária. Por sinal, bastante longe da casa do Edufa.
No caminho, olhamos pra cima, os habitantes dos fios de alta tensão nos observam, as pombas. Em um número elevadamente perigoso para nossas cabeças, elas, a medida que andamos, trocam de poste, nos seguindo. E assim foi durante umas 4 ou 5 quadras, quando decidimos sair correndo.
Chegamos na rodoviária, embarcamos no ônibus da mesma companhia e sem muitos percalços acordo já em Canoas, na famigerada praça do avião. Fim.
A Saga de Curitiba
Prefácio.
O bardo das letras que humildemente vos narra esta história participou dos eventos pré-Era de Aquarius de Curitiba. Tudo que se sucedeu depois da Saga de Curitiba mudou as vidas dos nossos heróis, vilões e até mesmo desconhecidos. A mais histórica aventura já contada de uma manada de patos sulistas nas bandas do Sul-Sudeste (porque Curitiba não é NEM A PAU parte do Sul) desde a super expedição a Pelotas no Fucão da Wyrm.
Capítulo 1: A Decisão.
Como já mencionado em narrativas passadas, Mateus "Teto", Maurício "Guri" (ou seria Guri "Maurício"?), Rafael "Cacetinho" e eu (Sérgio "Schüler") eram grandes amigos e jogares assíduos de RPG lá pelos idos de 1999/2000.
Então, certa vez, o Edufa, um dos diretores da House de Curitiba propôs um live (um jogo) NACIONAL em sua cidade. Um super evento nos mesmos moldes que já haviam ocorrido em São Paulo, Rio e também em Curitiba em algum passado distante. Megaeventos desses, com cerca de uma centena de alucinados por RPG, devem ser muito bem planejados e estruturados. Afinal, se uma centena de pessoas juntas já causam a maior quantidade de problemas improvavelmente absurdos, imagine os malucos RPGistas que são improváveis, absurdos e problemáticos em sua natureza. Com certeza isso exigiria muito esforço e planejamento ou então muita irresponsabilidade, resultando em perigo letal para qualquer morador, caminhoneiros e outros seres vivos dos arredores. Para o jogo, Edufa marcou a data em um feriadão, desses que caem na quinta e ninguém trabalha sexta. Obviamente eu ainda não trabalhava com propaganda, então teria o feriadão e, pasmem, sábado livre. Decidi ir, não sem arrastar alguém comigo para essa desgraça toda.
Teto e Rafa concordaram em ir, Guri queria, porém foi barrado por sua futura-ex-mulher, a ex-Guria. A comitiva estava incompleta, porém os três irmãos nada temeram. Embarcaram no ônibus mais barato e, conseqüentemente, mais baleado, fubango e desconhecido rumo a Curitiba. Doze horas de viagem os aguardavam, pelo menos em teoria.
Capítulo 2: A Viagem.
Na primeira hora dentro ônibus, falávamos muito, estávamos muito empolgados, apesar do sádico motorista ter decidido usar o enjoativo, rodopiante e penhascoso caminho da serra.
Começamos a nos distrair com as coisas que trouxemos: diversos embolachados e águas gasosas embebidos em todo tipo de químico conservante, odorizante e saborizante. E, claro, música de walkman, para aqueles que tinham a sorte de ter trazido pilhas para alimentar o comedor de energia. O que não era o meu caso. Percebi que minhas pilhas haviam acabado antes da primeira hora de viagem.
Depois de algumas horas, o Rafa disse que ia dormir, cabe aqui dizer que quando ele fala que vai dormir ela já dormiu. Pois tem um botão, não me pergunte onde, que se desliga da realidade mundana em menos de 1 minuto, na verdade é uma coisa meio contagem regressiva "5... 4... 3...". Certa vez estávamos conversando, eu e o Mateus, com ele quando de repente ele não respondeu nada, a não ser que um RONCO fosse a resposta. Havia dormido no meio de um intervalo de 2 minutos de uma conversa e outra. Bizarro.
Bom, ele dormiu, e eu, já sem pilhas, tinha consumido todas as bolachas que conseguia comer. Só me restava tentar dormir, já que o Mateus já estava aderindo ao movimento também.
Quase na metade do percurso, paramos. - Hora do rango - Pensei. Pensei errado, pois estávamos perdidos no meio do nada, em uma destas cidadezinhas sem nome, na porta de um MECÂNICO, o que me fez pensar alto:
- Ônibus têm bobina? Não sabia...
Todo mundo desceu do busão. Havia algo errado com os amortecedores ou coisa assim, felizmente a bobina estava intacta – ou era Bosh? - e o mecânico não parecia expedir nenhum tipo de VEREDITO. Eu, o Rafa e o Mateus decidimos explorar um pouco as redondezas. Descobrimos a uma quadra de distância um orelhão e um boteco dos mais chinelos.
Adentramos o recinto e a primeira coisa que percebi foram aqueles pastéis frios parados no balcão desde épocas imemoráveis, provavelmente antes mesmo de o atendente estar empregado ali, ou quem sabe antes mesmo do cara ter nascido.
Arriscamos, cada um, um misto-quente (putz, isso é uma torrada, pô!) e um refrigerante desses de garrafinhas de vidro. A esta altura outras pessoas do bus aventuravam-se pelas imediações do pequeno boteco sem nome, frustrados por causa da parada não prevista.
Depois de comer e telefonar pra casa, exploramos um pouquinho mais as redondezas, até perceber que não tinha nenhuma caipira tarada metida a Lolita ou Engraçadinha perdida por aí dando sopa.
Fomos até o mecânico e observamos aquela cena crássica: tiozão, com a bunda pra cima, consertando o ônibus com metade do FIOFÓ sujo de graxa aparecendo. Quase 1h depois o ônibus estava pronto (não se sabe sob qual ponto de vista, mas nós também não ousamos questionar) pra seguir viagem. E assim foi: mais algumas horas da incrível visão mato/poste de luz/penhasco mortal, até eu cair (essa não é uma palavra apropriada quando se fala em penhasco mortal) no sono novamente.
Capítulo 3: chegando ao Dr. Destino.
Acordei diversas vezes, mas logo depois dormia. Foi numa dessas acordadas/dormidas que vi que havíamos chegado em Curitiba, "pelo menos era o que dizia a placa verde que passamos há 10 minutos atrás", dizia eu. Porém só havia mato e ruralisses a nossa volta. Que estranho. Comecei a ficar angustiado, 20 minutos depois ainda nada de vestígios de civilização. 30 nada. 45 e finalmente algo que poderia lembrar um prédio. Chegamos na rodoviária de Curitiba, cerca de 14h, completamente sujos, suados, cansados, nojentos, maloqueiros e tudo mais, ou seja, no clima mais perfeito de uma rodoviária de capital, onde se encontra todo o tipo bizarro de gente vinda diretamente das barbas do lugar algum ou indo com muitas escalas rumo ao inferno mais longínquo já imaginado por um cartógrafo de Star Trek.
Fomos até o segundo andar da rodoviária, era onde ficavam as lojas e afins. Queríamos um pouco de comida e também um telefone público. Ligamos pra algum dos diretores e organizadores da House de Curitiba, nos descrevemos, pois nunca havíamos sido vistos um pelo outro e fomos comer algo na rodoviária.
Ao entrar em uma das "lancherias" encontramos alguns poucos corajosos "degustando" as "especiarias" rodovientas: o velho Xis Salada mofado com MUITO, mas MUITO demais pra caralho mesmo, milho.
Cada um fez o seu pedido, evitando obviamente a combinação venenosa de toda rodoviária: o "especial" ou "à moda da casa". JAMAIS, peça esse tipo de coisa em uma rodoviária, a não ser que esteja pensando em se matar de uma forma dantesca e emocionante, esvaindo todo o seu sangue, e sabe-se lá mais qual substâncias que DEVERIAM ser mantidas dentro do corpo, dramaticamente pela cavidade anal e cuspindo por entre os dentes todas as tripas do intestino grosso por dias a fio, não sem antes se submeter a rituais constrangedores como o do copinho com fezes, que vai parecer mais mousse de abacate, e a tão sádica lavagem gastro-intestinal. E, sinceramente, enfiar mangueiras esguichantes pra dentro do corpo via qualquer buraco me parece um pouco gay demais.
Comemos e fomos esperar o Edufa na frente de uma LOJA DE MÁGICAS que tinha na rodoviária, não sem antes fazer uma incursão emocionante pelo banheiro gratuito. Fico imaginando que tipo de pessoa vai até uma rodoviária para comprar objetos de mágica barata. Seriam mágicos de ônibus?
Esperamos por quase uma hora, quando de repente uma menina de uns 25 anos nos perguntou se éramos de Canoas. Imediatamente pensei "meu Deus, o Edufa é transformista!". Mas não era bem assim, esta era outra diretora de Curitiba, a Déia, uma pessoinha muito simpática, descobriríamos depois.
Juntamos nossas MUITAS e PESADAS malas e começamos a saga da exploração da dita "cidade modelo". Andamos mais de 20 minutos, completamente guenzos, até uma loja de RPG onde os hereges e errepegístas em geral costumavam comprar seus livros "sagrados". Mofamos lá, morrendo de vontade de tomar banho, por mais umas 2h, mas era preciso fazer a social, mesmo que nosso futum de gambá que acabou de brigar com uma dúzia de porcos selvagens no lixão de Cubatão não fosse muito "social".
A esta altura já estávamos descontraídos, já que além das pessoas novas, dentre eles, e principalmente elAS, curitibanos, paulistas, cariocas, VARGINENSES, SOTEROPOLITANOS e toda sorte de cidades com nome de remédio tarja preta, tinha também os, já conhecidos anteriormente, barrigas verdes de Floripa e os gaúchos de Pelotas e Rio Grande. Estávamos longe de casa, mas com pessoas o suficiente para promover o caos sulista.
Capítulo 4: o DCE de Dante
Finalmente decidiram nos "levar" até o nosso alojamento, onde poderíamos guardar nossas coisas em "segurança", tomar um bom banho quente (já que era inverno ou outono – sei lá) e descansar um pouco antes da função noturna. "Levar" está entre aspas porque fomos ANDANDO até lá, "segurança", bem, isto você descobre mais adiante. Mais uns 15min de andança, abarrotados de malas, nós, os patos sulistas, incluindo aí o pessoal de Rio Grande, Pelotas e Florianópolis, chegamos ao tão esperado abrigo, um DCE de uma universidade. Pelo estado precário do prédio, desconfio, de uma universidade pública.
A visão era aterradora. Um prédio velho, grafitado toscamente por pichadores provavelmente em estado avançado de mal de Parkinson e Vaca-louca, com os vidros quebrados e um elevador minúsculo, para umas duas pessoas, que dava MUITO medo.
Decidimos de comum acordo que subiríamos os três ou quatro andares de escada até chegar ao abrigo, um ou dois corajosos usaram o elevador, de qualquer forma era o máximo que cabia no elevador e eu não estava nem um pouco a fim de ficar preso em um prédio estranho, de uma faculdade estranha e, pra completar, em uma cidade tão estranha que parecia piada chamá-la de "modelo" para qualquer coisa boa.
Subimos os lances de escada observando o "ambiente" do prédio: portas semiderrubadas e quebradas, pedaços de vidro, sujeira, papel higiênico USADO e outros dejetos não identificados no chão, portas de compensado seguradas por maciças correntes fechadas por cadeados, enfim, era praticamente uma masmorra medieval, bem pitoresco para um bando de rpgistas, mas não parecia muito apropriado, mesmo pra nós.
Quando chegamos no lugar que dormiríamos, duvidei seriamente das boas intenções dos diretores de Curitiba e comecei a olhar pros lados esperando uma cilada vinda de algum lugar para pregar uma peça na gente. Não podia ser verdade. O chão do lugar era de concreto puro misturado a pequenas e pouco generosas doses de parquê, MUITO sujo. A porta, se é que podia ser chamado disso, era uma grade de correr, fechada por um cadeado chinfrim, desconfio, feito de chocolate. Os "colchões" eram espumas velhas e detonadas, muito piores do que aqueles colchonetes de viagem. As janelas ao menos tinham vidros, nem todos, mas a maioria e, obviamente, não tinha nenhuma cortina pra nos proteger do sol da manhã, que quando se vira a noite acordado não é nada bom para o humor. Pelo menos o meu.
Demoramos quase 15 minutos para acreditar que aquilo realmente era onde dormiríamos, se os proprietários, os ratos, baratas, morcegos e, possivelmente, DINOSSAUROS, permitissem. Depois de telefonemas de indignação e até uma sugestão de passar a noite na prisão, já que deveria ser menos insalubre que aquele lugar, decidimos aceitar a nossa sina e começar a LIMPAR o lugar. Claro que não fizemos milagres, apenas limpamos. Para o lugar ficar habitável precisaria de no mínimo uma retroescavadeira. Mas o mais inteligente seria demolir o prédio e construí-lo de novo.
Enquanto a galera limpava, eu decidi tomar um banho. Ninguém ainda havia provado esta experiência antes. Antes de entrar no banheiro observei um cartazete escrito exatamente assim:
“Cuidado! Não deixe o chuveiro tremer, senão ele explode. É sério”.
Chamei todo mundo pra olhar aquilo, não podia ser verdade. Bom, eu breve eu descobriria. Tentei desistir do banho convencendo os outros que tinha descendência francesa em algum antepassado bastardo da família Schüler, mas não colou. Não tinha mais jeito. Eu ia ter que ser o primeiro a utilizar o chuveiro. Com ou sem explosões.
Abri a porta do banheiro e me apavorei. Imagine um banheiro público no centro de São Paulo que acaba de sediar uma briga entre torcedores punks de futebol. Agora imagine uma coisa pior que isso e você tem a descrição da saleta que eu estava pra entrar. Primeiro, não havia sequer um lugar que não estivesse completamente sujo de materiais totalmente estranhos pra ciência moderna para largar as roupas e toalha. Eu estava sujo, mas aquilo era ridículo. Saí e arranjei, sei lá onde, uma sacola plástica pra colocar minhas coisas. Então foi isso, Estava lá peladão, apesar do FRIO CONGELANTE, com tudo balançando, e com os pés em cima do chinelo, já que o chão estava muito mais sujo que a calçada do Mercado Público. Fiquei parado por quase 5 minutos rezando para que, em caso de explosão, o chuveiro não me matasse ou quem sabe decepasse a minha cabeça. Qualquer uma delas.
Olhei para o chuveiro e me preocupei seriamente com a minha integridade física. Era a fiação elétrica mais enjambrada desde a época do McGyver. E o pior, eu não tinha garantia nenhuma que o sujeito que fez ela tinha a capacidade do McGyver, pra falar a verdade, duvidava muito que sequer soubesse o que é um curto-circuito na teoria, pois, na prática, devia ser expert.
Abri o chuveiro. A água fria "jorrava" em "generosas" gotículas d’água. O suficiente para encher menos de meio copo d’água em alguns bons 5 minutos catando os pingos que caíam. Bem, ao menos o chuveiro não estava tremendo. Mas também não estava esquentando. Comecei a me molhar a medida que meu queixo tremia e minha pele entrava em algum tipo de colapso congelante.
Tentei fazer o chuveiro esquentar.Quando ele começou a esboçar alguma reação de que PODIA esquentar um pouquinho, começou a tremer FEROZMENTE, dando um barulho terrível de *tum tum tum*. Desliguei imediatamente. Impossível descrever o quando o chuveiro tremia, era praticamente uma máquina de lavar ligada dentro da caçamba de um caminhão andando a 100 km/h em uma estrada com mais crateras que a Lua. Sacudia tanto que molhava toda a extensão do banheiro. Tentei de novo e de cara ele começou o seu tremelique desvairado.
Então era isso, eu tinha um cabelo cheio de xampu, um corpo congelado e QUASE molhado, um vento dos infernos que insistia em invadir a janela quebrada do banheiro dos infernos e um chuveiro que não esquentava a não ser que entrasse em combustão e explodisse nas minhas fuças. Eu estava bem arranjado mesmo. Liguei de novo tirei o xampu como dava, ensaboei as partes baixas e fim. "Chega de banho", como diria aquele mongol do filme.
Saí do banheiro com uma cara não muito satisfeita e adverti sobre o tremelique do chuveiro. Mas não disse nada sobre a água ser fria. O Mateus seria o próximo a descobrir o poder da água gelada no inverno.
Ele entra no banheiro e alguns segundos depois todos ouvimos um grito. Perguntei-me se o chuveiro havia explodido, mas não, ele *apenas* entrou com tudo na água sem ver que ela estava totalmente fria. He he.
Depois que todos havíamos passado pelo ritual de congelamento sanguíneo no chuveiro infernal e "limpado" o lugar para tornar-se QUASE habitável para um favelado. Era hora de começar a reclamar durante uma ou duas horas e começar a se arrumar pro que nos esperava à noite: o jogo.
Capítulo 5: Noite I: descobrindo o significado de TRÊS QUADRAS CURITIBANAS
No primeiro dia, ou melhor, noite, o primeiro jogo, de uma série de 3 noites de jogatina, seria em separado. Cada família, ou o que chamávamos de Clãs, reunir-se-ia em locais diferenciados, de acordo com a "personalidade" de cada família. Seria muito estranho punks em um restaurante chic ou engravatados de terno em um Xis na rodoviária. Bem, eu, desta vez, fazia parte da turma dos almofadinhas engravatados e chics do último. Aliás, era o chefe deles, o mais engomadinho de todos. Pena que minha personalidade, digamos explosiva, não combinava muito bem com essa função.
Todos nos vestimos com as roupas mais estranhas. Eu de sobretudo e gravata, o Rafa de mano de Niterói, acompanhado fielmente pelo Mateus no mesmo estilo, o Maurício Tremere estava como um DUENDE DOENTE VERDE DE DOIS METROS DE ALTURA, o Marcos de Joinville e a sua namorada, acho, estavam vestidos como artistas homossexuais novos-ricos da renascença, o Marcos de Floripa estava vestido de POMBA-GIRA COM CAPA VERMELHA E PANTUFAS DE TIGRE, o sujeito de VARGINHA estava de engomadinho e ia pro mesmo lugar que eu, o André estava vestido como astro gótico do pop punk poser rock, a Bárbara, namorada de um dos 500 Marcos presentes, estava de projeto de punk metida a gordinha sexy e se tinha mais alguém vestido de forma maluca, sinceramente não lembro. Um dos diretores não mencionados, Jimmy, nos disse que iríamos até o centro da cidade, segundo ele TRÊS QUADRAS (guarde essa palavra) dali, para depois nos dividirmos. Agora imagina esse grupo ímpar andando por uma CAPITAL MALUCA, à noite, dirigindo-se até o centro guiados por um sujeito de camiseta e CHAPÉU de feltro.
Saímos, usando obviamente as escadas, e deixando nossas coisas na "segurança" da grande porta de grades e do seu cadeado que devia ser sagrado para ser considerado seguro. Após MEIA HORA de andança, chegamos no centro e descobrimos finalmente o significado tênue, e aparentemente quântico, da palavra "três quadras" em Curitiba.
Nos dividimos e andamos, cada grupo, mais ou menos TRÊS QUADRAS CURITIBANAS até chegar ao nosso destino, no caso de nós engomados, um pequeno pub PORTUGUÊS em uma ruazinha meio morta. O lugar era simpático, nenhum The Cave, mas não tão ruim quanto o Xis do Gato e o DCE que nos abrigava.
Estávamos confinados no mezanino, lugar que a diretoria de Curitiba escolheu pros engomados, abaixo do mezanino jazia um PALCO e na frente do PALCO uma série de mesinhas de madeira apertadas em pouco espaço.
Subimos e, em uma união de mesas, começamos a reunião do Clã. Uns 15 negos de terno e gravata espremendo-se em um espaço de uns 3x6 metros, onde no centro repousava uma GRANDE mesa. Uns 10 minutos depois de começar a falação, um barulho ENSURDECEDOR começa a vir do PALCO. Uma gorda doida, vestida de algo parecido como "a tia gorda e bêbada do casamento", sentada em um banquinho e espancando um pandeiro, cantava sambas de antigamente, desferindo golpes de voz contra os pobres e embriagados clientes do pub PORTUGUÊS.
Não conseguimos mais ouvir uns aos outros, esse foi o tom da noite inteira, até umas três da manhã quando decidimos de comum acordo (?) que a reunião estava encerrada e nós havíamos nos entendido (?!). O que era uma grande balela, os caras apenas balançavam a cabeça enquanto uns falavam e na hora da resposta, que não tinha nada a ver com a pergunta, os outros que tinham de balançar. Ninguém ouvia nada, mas estávamos todos felizes depois que começou rolar uma cervejinha amiga – esse é o pretexto de quase todos os jogos de rpg em cidades distantes: beber umas e outras, andar fantasiado e tocar o horror longe de casa. Quase invadimos o palco, mas decidimos que era muito pequeno para 15.
Capítulo 6: reggae night
Saímos do pub bacalhau e andamos mais uns 30min, umas três quadras CURITIBANAS, até um barzinho apontado por um dos diretores da house de Curitiba. Todo mundo ia pra lá depois de seus respectivos jogos, isso se tivesse humor suficiente e chinelagem o bastante no sangue.
Enquanto andávamos pela rua dos barzinhos, toda capital tem pelo menos uma, vemos sair, de uma casa noturna vistosa, um boy carregado por seguranças. Ah, um típico exemplo de Pity-boy. Brigão, bêbado, rico e de pau fino.
Chegamos até o barzinho que procurávamos e invadimos o lugar. Era um reduto maconho-reggae-surfista de dois andares. Simpático. Música em volume médio, posters do Bob pendurados nas paredes, mesinhas vazias, boinas amarelas, vermelhas e verdes na cabeça dos malucos, fumaça com cheiro de ervas "medicinais" e cerveja relativamente gelada, o que também não era tão importante estando no inverno.
Causamos um pequeno desconforto ao chegar no local, afinal, uns quinze ou vinte sujeitos engravatados chegando em um lugar desses poderia muito bem significar o FBI ou sei lá o quê. Mas tudo ficou calmo quando nos aproximamos da mesa dos outros jogadores que já haviam invadido o local, vestidos de formas ainda mais estranhas, como já descrito anteriormente.
Bebemos e continuamos a beber enquanto outros doidos se aproximavam, vestidos cada vez mais estranhamente. Tiramos fotos. E lá pelas tantas eu estava com sono. Cabe dizer que eu com sono sou a pessoa MAIS anti-social, chata, murrinha, reclamona e resmungona, não que seja muito diferente de quando não estou com sono.
Comecei a resmungar e reclamar. Aos que perguntavam o que eu tinha, eu quase mordia. Dormi cerca de uma hora na mesa até que, finalmente, eles se enchessem de beber e rumassem pra casa. E lá vamos nós, mais três quadras Curitibanas que levam mais de meia hora pra serem percorridas por passadas rápidas gaúchas.
Capítulo 7: O primeiro dia passou
Voltamos pro DCE, subimos as escadas, cambaleando de sono, ou cerveja, e começamos a nos "aconchegar" nos inconfortáveis pedaços de esponja pura que alguém, em um remoto passado, havia chamado de colchão certa vez e, hoje, chamaria de "cama pro cachorro vira-lata". Sentia a irregularidade do chão nas minhas costas. Cobri-me até a cabeça com um cobertor, que havia trazido de casa, já que a falta de cortinas, o sono, o sol raiando, o "colchão" e o excesso de homens fedorentos e roncadores não compunha um bom ambiente para um tranqüilo e, depois de tantos contratempos, necessário sono.
Tive sonhos estranhos e psicodélicos. Provavelmente proporcionados pela extensa fauna de fungos, certamente alucinógenos, presentes no pedaço de esponja onde despejei meu corpo cansado. Era algo com bandas de rock e jogadores de RPG assassinos, não entendi, mas, descobriria depois, era uma premonição.
Fui acordado a chutes. Resmunguei. Todos estavam de pé. Assim seria pelo resto dos dias em Curitiba: eu seria sempre o último a acordar, aliás, a ser acordado. Quando todos já estavam melhores do mau humor, o meu tinha recém começado.
Fui avisado que íamos pro café da manhã. Ao menos avisaram, agradeceria depois.
Capítulo 8: Saco vazio não pára em pé
Andamos mais meia hora pra chegar no lugar onde tomaríamos café da manhã. Na frente do local já havia alguns malucos esperando para atacar com vontade voraz cada um dos itens. Não me lembro ao certo o que tinha pra comer, mas nós mandamos MUITO ver.
Parecíamos todos mendigos mortos de fome, o que, na realidade, não estava muito longe disso, já que tínhamos caras mal dormidas, mal humor, banho frio, roupas amassadas e, claro, toda a estranheza que qualquer rpgista carrega consigo, mesmo nos momentos mais normais (?) do cotidiano.
Lembro-me que havia um bolo de cenoura que degluti, sozinho, umas 5 fatias. Nós acabamos com o lugar, mas o pior de tudo foi o banheiro depois. Todo mundo, impelido pela sujeira extrema dos banheiros do DCE, em que nem as baratas e ratos tinham estômago suficiente para transitar, decidiu usar o banheiro do BANDEJÃO CAFÉ DA MANHÃ e para o tão conhecido NÚMERO 2 from outter space. Detalhe: havia 1 privada para mais de 20 pessoas com fortes dores intestinais. Fomos obrigados a organizar uma fila, que, enquanto a porta estava fechada, se espremia em cólicas fedorentas na altura do estômago e, quando a porta era aberta por um sujeito feliz e aliviado, respirava um ar pior que o de Cubatão, totalmente envenenado pelos piores e mais alienígenas cheiros de podridão fecal.
Após longa e quase infinita espera, finalmente chegou a minha vez, infelizmente, depois do Maurício Tremere, como já dito em outras histórias, um gordão de 2 metros de altura e beirando seus 200kg, - óh não - pensei. Adentrei o recinto fechado e o bafo de urubu suado era intenso. As paredes pareciam transpirar com o ar pesado e difícil de respirar. - É agora ou nunca - pensei.
Sentei no vaso sanitário, quente, e desferi diversas rajadas com minha metralhadora analógica. Temi pela saúde da fossa. Por sorte, ao menos comigo, não transbordou. Lavei as mãos, já quase sem oxigênio, e abri rapidamente a porta. - Ahhhhhhhh , ar novamente! Liberdade! Liberdade!
Capítulo 9: Turismo com Dante
Não contentes com tudo que já haviam feito a gente andar, os diretores Curitibanos, em especial a Déia, decidiram nos levar, a pé, pra dar uma PEQUENA volta pela cidade.
Vimos coisas TÃO interessantes, como um mercadinho idiota, que mais parecia a versão Moinhos de Vento do Brique da Redenção, vendendo inutilidades e artigos decorativos, principalmente pra crianças e um "monumento" babaca, que lembrava MUITO um simples retângulo liso na altura do saco, o que era sugestivo, ao centro da cidade ou à mãos ou algo assim que não me lembro ao certo e, claro, a primeira faculdade, não universidade, do Brasil.
Sinceramente, não lembro de ter visto nada de interessante, mas quando falaram em visitar a tal Ópera de Arame, quase que em coro, a cambada sulista, acabada, disse "não, nós vamos é pro DCE da wyrm", convencidos de que a Ópera valia a pena, mas não para nós, tristes andarilhos, patos que não sabiam voar. Principalmente depois do pessoal de Curitiba ter dito que a Ópera era LONGE, ou seja, MAIS longe do que as tradicionais TRÊS QUADRAS - logo ali - de meia hora - CURITIBANAS.
E fomos pro DCE. Não sem antes passar em um supermercado, de nome improvável, e comprar muitos pacotes de bisnaguinhas 7 Boys, uma faca, de ponta, e diversos tipos de acepipes pastosos, a.k.a. PATÊ.
Capítulo 10: Sexo, RPG e rock´n roll
Nós, os patos sulistas, jogávamos um RPG amigo, esparramados no chão, por sobre as esponjas, que um dia foram colchões, do DCE do inferno. Quando eu estava com mais de meia bisnaguinha com PATÊ enfiada na goela, apareceram, do nada, uns 3 ou 4 cabeludos vestidos de preto. Inicialmente achei tratar-se de um assalto ou algo assim, mas os caras entraram no DCE, passando pela grade, sem dizer nada e rumo a outra sala do DCE: a sala onde ficavam alguns instrumentos.
- Grunchquêmsã gucêsh? - eu tento falar com a boca cheia.
- É, quem são vocês? - algum dos meus solícitos colegas traduz.
- Somos da banda Fuck & Kill the Doomed Hell's Demon or Die in Bloody Pain.
- Olhem, rpgistas. - Deprecia um dos integrantes da banda.
Engulo o pão e digo: - Olhem, uma banda. - Devolvendo a depreciação.
- Vocês não vão tocar, vão? - Algum dos rpgistas, quer dizer, um de nós, reclama.
- Não, não, só viemos buscar os instrumentos. Temos um show hoje de noite. - Falou o terceiro cabeludo vestido de preto.
- Tá, mas, e se não tivesse ninguém aqui? Como vocês pegariam os instrumentos? - Um de nós retrucou.
- Nós temos a chave. - Falou um dos "músicos", dirigindo-se finalmente a sala onde estavam guardados os instrumentos.
Ficamos todos mudos por alguns segundos. Começamos a entender que nossas malas, cheias de pertences, estavam expostas à toda sorte de maluco que poderia nos roubar se não estivéssemos ali naquele instante, ou até mesmo à noite, quando estaríamos em mais um jogo. Meu Deus, nossa paciência não estava mais suportando tanta coisa.
Continuamos a jogar por mais uns 5 minutos, quando de repente a porta onde estava a banda se abre e um dos sujeitos diz:
- Poxa, não mexam nos instrumentos, né?
- Ninguém mexeu em nada. - Mentimos.
O sujeito voltou pra dentro e fechou a porta.
Dois ponto cinco segundos depois, ele sai, com uma CAMISINHA USADA na mão e diz:
- Pô, a noite foi boa, podiam ao menos colocar no lixo.
A única menina que dormiu naquele quarto, namorada do Marcos, fica vermelha, enquanto o sujeito volta pra toca.
Depois de 5 minutos de risadas, voltamos a jogar, quando, mais uma interrupção aconteceu. Mas desta vez ninguém abriu a porta, o que acontece é que a banda começou a TOCAR com todos os instrumentos PLUGADOS. Um de nós que estava com a faca, comprada no supermercado de nome improvável para cortar as bisnaguinhas e passar o PATÊ, segurou-a bem firme e disse:
- Vou matá-los agora mesmo.
- Não, não, espera aí. Depois vão dizer que somos rpgistas satânicos. Vou ali embaixo ligar pra algum diretor de Curitiba. - Eu disse, acalmando os ânimos, apesar da minha fúria.
- Boa idéia, chame alguém com uma faca melhor, porque esta não deve nem cortar os cabelos sujos deles. - Retrucou o sulista à beira de um ataque de nervos.
Desci e me lembrei que não estava de posse de nenhum cartão telefônico, por isso, liguei a cobrar pro Edufa.
- Alô, Edufa?
- Eu mesmo, quem fala?
- É o Sérgio, de Patópolis.
- Heim?
- Schüler, coordenador dos Ventrue.
- Ah, fala.
- Ahn, como direi? – perco a elegância e grito: - ROQUEIROS CABELUDOS ROUBARAM TODAS NOSSAS COISAS E NOS AMARRARAM COM AS CORDAS DA GUITARRA!
- MEU DEUS!
- Vem pra cá, nós precisamos trocar de “moradia”.
- Ok, ok, já tô chegando aí, vou chamar mais alguém de carro, fica calmo.
Finalmente tinha feito a primeira coisa esperta desde que comprei a passagem de ônibus pra Curitiba. Iríamos pra outro lugar e ainda por cima de carro. Ponto. Subi e esperei, observando, minutos depois, a banda levando seus instrumentos pra mais um estrondoso show.
Capítulo 11: a nova esperança da aliança rebelde
Quando ouvimos o barulho de escadas, nos posicionados, de posse das facas de patê e pistolas de brinquedo, de modo que lembrasse um movimento de uma tosca emboscada ninja. Nota-se aí que não perdiamos o senso de humor, nem nas horas mais impróprias, adversas e absurdas. Quando o Edufa colocou o primeiro pé na porta, já tínhamos pulado, gritando, para mostrar bem como estavam os ânimos do bando sulista. Podíamos, tranqüilamente, neste estado, planejar um atentado terrorista. E seria, com certeza, contra Curitiba.
Explicamos, desta vez, a realidade e o, maldito encolhido, Edufa ofereceu sua CASA para hospedar nosso bando. Exatamente o lugar onde já se encontravam todos os SUDESTANOS do Rio e São Paulo. Maldito cão curitibano Edufa.
Nos deslocamos até lá, desta vez e pela única vez, de carro. Um pouco apertados, é verdade, mas felizmente poupamos boas 3 quadras Curitibanas de andança. Ao chegar, percebemos que a casa não era nenhum palácio, mas, comparada ao DCE, era o próprio paraíso. Nos “aconchegaríamos” na sala, porém, desta vez, com COLCHÕES, o que era um verdadeiro progresso. Sem banda, sem ratos, sem chuveiro que explode.
Capítulo 12: momento de fé
Como o número de pessoas que congestionavam a casa, em especial o banheiro, do Edufa, alguns outros solícitos curitibanos resolveram nos oferecer suas dependências para que todos conseguissem tomar banho – antes do final do feriado. Uns 10 do nosso bando sulista foi até a casa da Fernanda, jogadora de Curitiba, sob a promessa de que os que ficaram com o Edufa nos esperariam para o jantar.
Ao descobrirmos que a Fernanda nos ofereceu um – o primeiro – chuveiro quente desde que chegamos, incluindo aí o direito de sentar em um sofá enquanto esperávamos, começamos a chamá-la, e assim foi até anos depois, de Santa Fernanda da Água Quente.
Após todos limpos e até de barba feita, voltamos pra casa do Edufa. Descobrimos que eles tinham saído para jantar, sem a gente, em uma pizzaria ali perto. Desconfiamos do “perto”, mas era, de fato, próximo ou então nós já estávamos nos acostumando as peregrinações, não sei ao certo.
Capítulo 13: saturday night fever
Com as pizzas ainda pesando no estômago, fomos nos preparar para a próxima rodada de jogos malucos, com todas aquelas fantasias e essa coisa toda, porém desta vez o ambiente era mais condizente com a histeria supersônica dos esquisitóides jogadores: era uma danceteria bastante tosca, com alguns tijolos a mostra, iluminação precária e aparelhagem duvidosa. Obviamente fechada para somente nós malucos, sabe como é, as pessoas costumam estranhar bastante um sujeito metido num pijama, com capa vermelha e pantufas de tigre no lugar que não é destinado a festa à fantasia. Mas o bar estaria funcionando, o que contribuiria bastante para melhorar as interpretações de personagens ou, melhor, afrouxar a nossa crítica e, principalmente, autocrítica.
Lembre-me que tudo ocorreu na normalidade, conceito quase abstrato para rpgistas, com exceção de algumas alterações causadas pelo excesso de substâncias alucinógenas e música repetitiva, da qual fui um pouco responsável. Dentre uma das alterações, um mané subiu no palco e começou um striptease VERDADEIRO. Após algumas risadas, percebi quem estava lá em cima, de cuecas e sem encolher a barriga, desconsiderando o senso do ridículo: era o Rafa, integrante da comitiva canoense.
Sim, ninguém mais poderia ser tão saliente e, por que não, corajoso como o Rafa. Depois reclamam da fama, propagada principalmente pelo Casseta e Planeta, sobre as preferências sexuais pouco ortodoxas dos gaúchos.
Inquirido sobre o assunto, o Rafa respondeu que o strip foi MARKETING. No momento não entendemos se foi positivo ou negativo, mas desconsideramos e fomos obrigados a ir embora, não pela gerência da casa, mas pelo pouco de consciência que ainda incidia em nossas mentes.
Capítulo 14: o bem vence o mal
Na próxima noite, a mesma coisa, 30 minutos de caminhada, já fardados como habitantes do hospício em uma festa à fantasia, chegamos no próximo local de jogo, o último por sinal. Era um prédio residencial, desses que tem piscina e um grande pátio/salão de festas no térreo.
Com a algazarra promovido normalmente, apesar de todos os organizadores implorarem silêncio, o que não faz muito sentido em uma espécie de teatro, um dos moradores do prédio resolveu jogar um balde d’água em alguém. Aí começou o terror, pessoas correram, gritaram, quebraram vazos e, creio, alguém caiu na piscina. O Rafa que havia sumido, apareceu todo despenteado ao lado de uma menina, igualmente despenteada e sem maquiagem, que era namorada de um dos sujeitos. Neste momento eu entendi que a propaganda funcionou.
Saímos do prédio, ainda na metade da noite, vagando em busca de outro lugar pra continuar o jogo. Paramos em uma praça pública, prontamente fomos repelidos por integrantes da polícia militar. Procuramos outra e simplesmente recontinuamos. Até que, finalmente, uma notícia boa:
Havia um antiqüíssimo desafeto gaúcho, morador de Florianópolis, um sujeitinho escroque e temeroso por diversas vezes da selvageria e terror gaudéria, o Hederson, era o único “sulista” – desconfio que tenha nascido em outro lugar que não o Sul – que estava passando bem desde o início: estava de carro, ficando num hotel e era amigo dos organizadores de Curitiba. Pois que recebemos a aguardada notícia de que ele havia BATIDO O CARRO.
O que se seguiu foi uma comemoração, com gritos e pulos, da comitiva sulista, incluindo aí aqueles de Florianópolis que haviam vindo de carona com o imprudente rapaz.
Então tudo parou, simplesmente sentamos e ficamos contando piadas, rindo da própria desgraça e rindo muito mais da desgraça alheia. Decidimos peregrinar pras nossas “camas”. No caminho, lembro-me que alguém olhou pro lado e disse:
- Bah, mas essa Déia tem uns peitões maiores que melancias geneticamente modificadas, tu não acha?
- É, ela é minha irmã.
- Com todo o respeito é claro. – calou-se o sulista que não abriu a boca pelo resto do trajeto.
Capítulo 15: hora de dar tchau
Acordo sob o açoite dos chutes de alguém, desconfio que era o Teto, que me diz que é hora de ir embora. Começamos a socar nossas coisas na mala, demos tchau a todo mundo, brincando, porém falando a verdade, de que tudo foi um inferno e jamais voltaríamos. Colocamos as pesadas bagagens nas costas e caminhamos rumo a rodoviária. Por sinal, bastante longe da casa do Edufa.
No caminho, olhamos pra cima, os habitantes dos fios de alta tensão nos observam, as pombas. Em um número elevadamente perigoso para nossas cabeças, elas, a medida que andamos, trocam de poste, nos seguindo. E assim foi durante umas 4 ou 5 quadras, quando decidimos sair correndo.
Chegamos na rodoviária, embarcamos no ônibus da mesma companhia e sem muitos percalços acordo já em Canoas, na famigerada praça do avião. Fim.
março 31, 2009
fevereiro 22, 2008
Operação Janeiro

“Tudo que aqui está escrito é mentira. Inclusive isto.
“Algumas pessoas acreditam em coincidências, destino, intervenção divina e tudo mais. Nós não acreditamos em nada disso, somos loucos. Os loucos por viver, por chorar, por rir, os loucos pedindo ajuda e salvando o mundo. Somos os loucos zen-lunáticos de mochilas nas costas. Loucos incrédulos e ao mesmo tempo cheios de fé num bando de coisas extravagantes e insólitas, ainda que muito divertidas”.
XX-I-XX
Porto Alegre - 25/janeiro/2008 - sexta-feira - noite
Um aviso de mensagem de celular interrompeu o sono leve do Aluno. Ele esticou o braço para fora do colchão, tateando no escuro até finalmente colocar a mão sobre o objeto que piscava e emitia a única luz do quarto. Apertou o dedo contra o maior botão do aparelho e leu:
“FO-DEUS. VEM COM TUDO.”
O aluno levantou-se de um impulso para sentar na cama, releu a mensagem para ter certeza de que tinha lido certo. A mensagem em código era clara, algo tinha dado muito errado no Rio e agora o Aluno e o resto do bando tinham que aparecer por lá para consertar o que fosse possível consertar. Imediatamente vestiu suas calças, as mesmas calças jeans surradas e largas, e ligou o monitor do computador, que baixava a última moda em putaria hardcore. Abriu o Firefox, digitou na barra de endereços “orkut.com” e digitou rapidamente o login e senha de seu perfil fake, Chacrinha 23. Sabia que era arriscado comunicar-se por ali, ainda mais da própria casa, mas não tinha dúvidas, o tempo não estava do seu lado.
Abriu o perfil de nome Acadimia São João e deixou um scrap que, para os olhos certos, indicavam o grau da emergência: “Quem não se comunica se trumbica... sigam a rita cadillac até ruffus park (de porche, pq o trânsito tá foda)”. Deixou o mesmo recado para “Lula-lá e nós aqui” e “Miss Moinhos de Vento 2003”, aí desligou o computador no dedo e deixou o quarto carregando apenas sua mochila e uma pressa que mal cabiam em seu físico não tão em forma.
Porto Alegre - 25/janeiro/2008 - sexta-feira - noite
Quando Steroid Freak chegou ao prédio abandonado, olhou para os dois lados antes de entrar - nunca é demais ter cuidado numa situação dessas. Ele subiu as escadas pulando os degraus de três em três, articulando seus músculos superdesenvolvidos. Ao abrir a porta da sala de reuniões do grupo, se é que podemos chamar um compensado com uma corrente de porta, o Aluno e Ana Terra estavam em posição de ataque. Ao verem que era ele, abaixaram a guarda.
- Então, estamos os 3 aqui, podemos começar. - Disse o Aluno.
- Mas e a Alquemiss?
O Aluno sacudiu a cabeça, em um movimento de negação. Foi Ana Terra, de baixo do seu chapéu de palha e com o lenço cobrindo a parte inferir do rosto, que falou: - Alquemiss foi para o Rio junto com a Ema.
- E o que aconteceu com elas? - perguntou o musculoso de tanga azul.
O aluno foi quem respondeu, andando de um lado para o outro e movendo os braços enquanto falava: - Aí está, eu não sei! A Ema me mandou a mensagem com o código de que tinham se fodido bonito, algo sério. Não sei se a Alquemiss também dançou, mas eu tentei entrar em contato com ela e não tive resposta. Ao que tudo indica, deu muita merda por lá.
- E o que a gente faz? - interpelou Ana Terra.
- Bom, a mensagem era clara, era pra nós 3 irmos ao Rio pra tentar salvá-las.
- A gente vai precisar de um líder... - sugeriu Steroid Freak.
- Com certeza. - era a vez de Ana Terra.
- Vamos usar as bolas para definir nossos elementos temporariamente.
- Quem bom, eu estou cheia de ser ar, quem sabe agora eu não consigo água ou terra. - Disse Ana Terra.
- Eu gosto de ser terra... - disse Steroid Freak.
O Aluno interrompeu os devaneios das outras duas figuras, insatisfeitas com suas funções - Não, nós não vamos mudar nossos elementos. Só podemos fazer isso com os 5 aqui.
- E então? - Disseram ambos.
- Eu continuo sendo água, Ana continua sendo ar, Steroid é terra - este último interrompeu o Aluno com um breve “aeee” - dois de nós vão acumular seu elemento e espírito ou fogo.
- Ta bom, são as regras... que droga. - disse Ana.
- Traga as bolinhas.
O Aluno pegou um pequeno saquinho de veludo preto e colocou três bolinhas um pouco menores que bolas de ping-pong, uma branca, uma vermelha e outra rosa, respectivamente:
- Nada. - Steroid disse com a bola branca na mão.
- Fogo! - Ana Terra exclamou.
- Espírito. - O Aluno disse, meio impassível, com a bola rosa entre os dedos.
Ana Terra e Steroid Freak olharam para o Aluno, como se esperando que ele exercesse seu papel de líder, já que simbolizava o elemento espírito. Este disse: - Rumo ao Rio!
Rio de Janeiro - 24/janeiro/2008 - quinta-feira – meio-dia
- Você quer mesmo fazer isso? - Disse Alquemiss, vestida em um biquíni mínimo que chamava a atenção dos homens (e mulheres) que passeavam por Ipanema.
- Qual o problema? - Respondeu Ema, usando uma saia azul até o joelho e a parte de cima de um biquíni preto. As duas caminhavam pela orla, calmamente.
- Eu quero dizer, é perigoso, principalmente sem todo o grupo.
Ema parou, olhou nos olhos de Alquemiss e aproximou sua boca da dela - Se você pedir, eu desisto da idéia, gata.
- Tá brincando? Não é meu papel ser cautelosa. Lembre-se, eu sou o fogo. Alquemiss virou o rosto, deu alguns passos a frente e Ema a seguiu.
- É, eu tenho um fogo por você...
E as duas riram e continuaram andando.
Rio de Janeiro - 26/janeiro/2008 - sábado - manhã
- Por onde começamos? - falou Ana Terra.
- Bom, a Ema me falou de umas amigas Lésbicas em Ipanema, acho que é por ali que devemos começar.
- Tô com fome. - reclamou o musculoso Steroid Freak.
- Podemos almoçar lá por perto, agora não Steroid. -
- Além disso, não vai fazer mal a gente visitar a praia. - completou Ana Terra.
- Táxi!
Rio de Janeiro - 24/janeiro/2008 - quinta-feira – tarde
Ema pichava algo em uma parede, um emaranhado de letras esquisitas, quase ininteligíveis.
- Escuta, Ema, nós nunca vamos achar desse jeito o carregamento. É inútil, já reviramos a cidade. Por que a gente não chama o pessoal e eles nós ajudam? Além disso, chegamos no fundo do poço. Pichação? Isso é pra ralé!
- Alquemiss, você é um pecado de mulher, mas às vezes me surpreende. Eu tô usando a rede.
- Rede?
- Olha só, gracinha, você nunca foi espírito, portanto nunca foi líder de uma célula invisível. Eu sei como entrar em contato com as células locais. - Ao dizer isso, Ema terminou sua pichação. - Voilá! Agora é só esperar o contato das outras células invisíveis amanhã à noite, naquele beco ali.
- Você está sempre me surpreendendo.
- Se você me deixasse tocar nesses peitos, você veria o quanto eu poderia te surpreender, Alquemiss.
Rio de Janeiro - 26/janeiro/2008 - sábado - manhã
Dentro do Táxi, o Aluno e Ana Terra estavam confortáveis. O único desconfortável era Steroid Freak, que, graças a seu tamanho fenomenal, ocupava mais da metade da frente do carro e precisava ficar corcunda com o teto lhe prensando as costas e o pescoço.
- Pare o táxi! - disse o Aluno, sobressaltado.
- Mas aqui não é Ipanema.
- Aqui tá bom! Aqui tá bom, obrigado!
Eles desceram do carro, que teve o lado direito nivelado novamente com o esquerdo quando Steroid Freak pisou no lado de fora. O Aluno dirigiu-se à parede pichada e disse: - Vejam, uma mensagem da Ema. Ela estava tentando achar outras células por aqui. Ela combinou o ponto de encontro pra ontem, naquele beco.
- Ontem à noite. - Disse Ana Terra, que completou: - um pouco antes de você receber a mensagem de socorro dela.
- Então vamos quebrar tudo! - Disse Freak, flexionando seus músculos como se tivesse finalmente ficado feliz.
- Talvez sim, Steroid, mas por enquanto não. Vamos ao beco pra ver que diabos aconteceu por lá.
As 3 figuras insólitas caminharam até o beco, que nada mais era do que uma pequena rua sem saída que dava para o fundo de um pequeno morro. Casas antigas adornavam ambos lados da rua. Havia um pouco de sujeira, uns sacos de lixo e uma caixa de madeira quebrada.
- Consegue ler alguma coisa no ar? Alguma impressão, Ana? - inquiriu o Aluno.
Ana colocou as mãos na testa e fechou os olhos. Ela tentou concentrar-se além do cheiro de urina exalado pelo beco sem saída. Havia algo ali. Havia o cheiro de uma imagem no ar. Ela exalou fundo, buscando trazer para si o cheiro das memórias do beco, tentando encontrar algo. De repente um perfume. Alquemiss. O perfume francês dela. Misturado com adrenalina. Adrenalina não de excitação, mas de medo. O medo misturado com cheiro de fogo. Ela botou a mão direita no lóbulo frontal correspondente, seus joelhos fraquejaram um pouco, dor, havia dor. Alquemiss com muita dor. Mais adrenalina e suor, era Ema. Estava fugindo. Tinha a atenção dirigida a algo - o seu celular. Estava fugindo e mandando a mensagem para o Aluno. Mais dor. Um novo cheiro: óleo, graxa, piche, benzina... algo químico e forte. Dor aguda. Escuridão.
Ana Terra fraquejou: - não dá mais, tem algo bloqueando. Foi intenso. Seja o que for, não é natural e pegou as duas.
- Elas morreram? - perguntou o Aluno.
- Acho que não. Acho que apagaram com a dor.
- Quem foi? Pra onde as levaram?
- Não sei, é como se fosse uma cortina preta, feita de gordura ou piche, não consigo ver, sei lá.
- Nada mais?
- Nada mais.
- Maldito beco sem saída. - concluiu Steroid Freak da conversa dos outros dois, porém estes não sabiam se ele tinha falado daquele beco em específico ou do beco sem saída da falta de pistas.
Eles olharam em volta, procurando algo que pudesse ajudá-los, quando de repente o Aluno notou um mendigo, sentado no chão, tão próximo do lixo que parecia um dos sacos jogados na beira da rua. O mendigo olhou nos seus olhos e disse: - tem um cigarro?
- Eu não fumo.
- Sabe, você deveria ser legal com a gente da rua.
- POR QUE, VAI ENCARAR? - Ameaçou com os punhos em riste, Steroid Freak.
- Calma, calma, grandão, deixa eu falar com esse cara. - Disse o Aluno, que dirigiu-se novamente ao mendigo: - escuta, você mora aqui?
- Se você está procurando seus amigos, eles foram pegos pelo Preto da Noite.
- Que Preto da Noite? Que merda é essa? - Ana avançou um passo para perto do mendigo.
- Bom, eu não sei, mas posso levá-los a quem sabe... - confidenciou em mistério o mendigo, que mudou de posição no chão, provavelmente porque sua bunda estava doendo pelo tempo em que estava pressionada no chão de basalto.
- E o que você quer em troca? - Perguntou o Aluno.
- Ora, o que todos nós queremos: um cigarro.
Rio de Janeiro - 26/janeiro/2008 - sábado - tarde
- Como você disse que era seu nome mesmo?
- Cigarrijo. Lorde Cigarrijo.
O mendigo os estava guiando há cerca de 30 minutos. Ele tinha uma tocha na mão e andava decidido por entre as galerias de esgoto sob a cidade. Segurava na mão direita uma tocha e não parecia consultar nenhum tipo de mapa, apenas parava de quando em vez para olhar alguns símbolos riscados nas paredes do esgoto e andava decidido, sem falar muito. De quando em vez resmungava quando alguns ratos passavam. Steroid Freak era o que mais se sentia desconfortável, porque tinha que andar como corcunda por alguns corredores com teto baixo.
- Chegamos. - O mendigo parou na frente de uma porta de metal.
- Aonde? - inquiriu alguém, ou os três, do grupo.
- Ao Rei.
- Belo palácio tem esse rei. - disse Ana Terra.
- Não é um Rei comum, é o Rei-Mago do Submundo, aquele que levará a água suja quando o momento do Messias chegar.
- Julgando pelo “palácio”, deve ser um sujeito simpático. - disse o Aluno.
- Silêncio. Fiquem calados, não falem porra nenhuma, deixem que eu negocio - e bateu 3 vezes na porta de metal enferrujada com um anel soldado a ela, do mesmo material.
A porta se abriu. Os 4 entraram. Lá dentro, uma galeria de cerca de 50 metros quadrados. Apesar da iluminação fraca, eles podiam divisar ao fundo alguém sentado sobre uma espécie de cadeira. Chegando mais perto, o fedor tornava-se ainda mais intenso, mas finalmente podiam ver que quem estava sentado na cadeira com braços largos era um homem com uma coroa de papel laminado e que segurava um cetro feito com um osso longo, talvez um fêmur. O homem falou, e sua voz era cortante, acusativa:
- Porque traz estrangeiros aos domínios do submundo? Exijo uma explicação, Lorde Cigarrijo!
Foi o mendigo quem respondeu: - Majestade, esses 3 procuram por duas amigas desaparecidas.
- Estás me acusando de ter raptado essas pessoas, insolente?
- Jamais, Majestade! Jamais! - Cigarrijo fez uma mesura - Eu vi quem as levou e vi que não era da gente do submundo.
- Hm, então?
- Bom, esse pessoal me deu um presente especial, então, como seu nobre súdito, honrando as regras ancestrais, eu venho a Vossa presença para pedir que os ajude a localizá-las, usando a rede de informações do reino do submundo.
- Entendo... - o homem mexeu-se em seu trono, parecendo impaciente.
- E então?
- Bom, regras são regras, afinal. Me dêem algumas horas.
Eles saíram da sala, todos eles fazendo mesuras. A porta cerrou-se logo após eles saíram.
- Agora é esperar. - Sorriu satisfeito Lorde Cigarrijo.
- Que rede é essa? É magia? - Perguntou o Aluno, curioso.
- Não. É uma coisa muito simples, uma espécie de wiki onde nós, do reino do submundo, trocamos informações. Não há um lugar em qualquer cidade grande em que não estejamos presentes.
- E nós que achamos nossos sistemas de comunicação muito avançados... - falou Ana Terra.
- Esses caras são os verdadeiros invisíveis. - Sentenciou Steroid Freak, em um momento de lucidez filosófica.
Rio de Janeiro - 29/janeiro/2008 - terça - noite
O Aluno olhava pelo binóculo para uma espécie de depósito na área portuária.
- Escuta, se elas estão em Macaé, porque a gente tá perdendo tempo aqui? Vamos logo lá e quebrar tudo! - Disse Steroid Freak, cheio de impaciência no auge do seu desequilíbrio hormonal.
- Não seja burro, Steroid, nem você conseguiria passar. Os caras estão protegidos, não lembra o que o Rei falou? Eles não são amadores, estão raptando todas as células invisíveis por aí. Devem estar tramando algo muito grande e não querem surpresas. - Disse Ana Terra, doutrinando-o. Ela prosseguiu, desta vez dirigindo-se ao concentrado Aluno, que continuava olhando pelo binóculo - Mas eu também não entendi porque a gente está aqui. Pode acabar com o mistério?
O Aluno largou o binóculo e entregou pra Ana terra: - Olha lá, tá vendo aqueles containers?
- Sim. - Ela respondeu.
- Pois aquelas belezinhas têm informação confidencial sobre algo importante, segundo o Rei do Submundo.
- Você acha que tem algo sobre o plano d’Eles?
- Se tivermos sorte, sim.
- E ESTAMOS NOS ARRISCANDO POR SORTE? VAMOS LOGO QUEBRAR ESSA MERDA EM MACAÉ E SALVAR A EMA E A ALQUEMISS!
- Calma, grandão, calma. Acontece que essas informações confidenciais, seja lá o que forem, estão sendo transportadas para a base em Macaé. - O Aluno fez uma pausa contemplativa ou dramática, não se sabe. - Vejo que não está acompanhando meu raciocínio, Steroid Freak, mas olhe só, se eles vão levar aqueles containers para lá onde estão Ema e Alquemiss e, possivelmente, mais alguns membros de células invisíveis capturadas, porque a gente não se aproveita disso e entra pelo portão da frente?
- Cavalo de Tróia, genial! - exclamou Ana Terra.
O Globo: Petrobras e PF decidem calar sobre roubo de notebooks - O furto de quatro notebooks com dados confidenciais sobre áreas petrolíferas da Petrobras -que pode ter sido uma ação de espionagem industrial- está sob investigação da Polícia Federal diante do risco à segurança nacional. Leia mais em O Globo de 15/02/2008.
fevereiro 14, 2008
From your Valentine - um cartão-história de dia dos namorados euro-americano que fiz para a minha

Texto:
Valentine was a guy who helped Christians when nearly not even god helped them. For such undesirable act, he was arrested and kept in jail. But as Miss Fortune and Lady Luck played a big cruel game at that time, in jail he met his love: the blind daughter of the jail guard. People say that his love was so big that a miracle happened; the girl Valentine loved was cured and was not blind anymore. But, as said earlier, Lady Luck and Miss Fortune were playful cruel goddesses, and the poor Valentine’s lover began to see again just to look him being killed by his crimes in February 14th, 269. People say that before the guards killed Valentine, he sent a letter to her, a very lovely letter, saying how much he loved that girl and would love until the end of times. In the end of it, he signed that letter in a very special way, so special that people still use it, to praise that old miraculous love:
- From your Valentine.
dezembro 21, 2007
Malas e aviação
Já no aeroporto de Porto Alegre, olhava para a esteira que traz nossas malas e via uma quantidade grande de pessoas com aquelas malas “envelopadas”. Mais ou menos como pegar um daqueles rolos de filme plástico transparente que se usa na cozinha e usá-lo como um maníaco para cobrir sua mala. Imaginava que tipo de experiência, ou que tipo de coisa carregaria, uma pessoa que se presta a pagar pra envolver sua mala em um filme plástico.
Logo depois de chegar em casa com minha mala descobri que tipo de pessoa faria isso: as que já foram roubadas, como foi o meu caso.
Chegando em casa, percebi que não estava mais na minha mala meu barbeador elétrico. Imediatamente descartei a hipótese de tê-lo esquecido porque simplesmente lembro-me perfeitamente de tê-lo botado (por último) na mala e fechado o ziper.
Fico imaginando que tipo de pobre coitado carregador de malas rouba um barbeador elétrico (que eu havia ganhado da minha vó há pelo menos 10 anos). Certamente deve ser um discidente do PT que, servindo de chacota para seus confrades, decidiu finalmente agir:
- Ô, Barba, pega essas malas aí, só não leva junto esse gambá que tu tem na cara porque é proibido levar no compartimento animais silvestres.
“Ahahahaha”, todos riam. Menos Barba.
- Ô, Barba, o chefe decidiu dar um dia de folga pra ti. O Lula tá vindo no avião e ele quer trocar uma idéia contigo.
“Ahahahaha”, todos riam. Menos Barba.
Tendo a oportunidade a sua frente, finalmente ele decidiu roubar meu barbeador elétrico. No outro dia, nunca mais seria chamado de “Barba”. Nunca mais. Tudo graças a esse pobre viajante da Gol Linhas Aéreas que decidu serviu de Papai Noel, mesmo que contra a vontade.
--
É, eu sei que é só um carregador de malas filha da puta que atira nossa bagagem com mais força quando está escrito “frágil” só pra tirar uma onda. O caso é que pensar nessa história me deixa menos puto da vida.
Logo depois de chegar em casa com minha mala descobri que tipo de pessoa faria isso: as que já foram roubadas, como foi o meu caso.
Chegando em casa, percebi que não estava mais na minha mala meu barbeador elétrico. Imediatamente descartei a hipótese de tê-lo esquecido porque simplesmente lembro-me perfeitamente de tê-lo botado (por último) na mala e fechado o ziper.
Fico imaginando que tipo de pobre coitado carregador de malas rouba um barbeador elétrico (que eu havia ganhado da minha vó há pelo menos 10 anos). Certamente deve ser um discidente do PT que, servindo de chacota para seus confrades, decidiu finalmente agir:
- Ô, Barba, pega essas malas aí, só não leva junto esse gambá que tu tem na cara porque é proibido levar no compartimento animais silvestres.
“Ahahahaha”, todos riam. Menos Barba.
- Ô, Barba, o chefe decidiu dar um dia de folga pra ti. O Lula tá vindo no avião e ele quer trocar uma idéia contigo.
“Ahahahaha”, todos riam. Menos Barba.
Tendo a oportunidade a sua frente, finalmente ele decidiu roubar meu barbeador elétrico. No outro dia, nunca mais seria chamado de “Barba”. Nunca mais. Tudo graças a esse pobre viajante da Gol Linhas Aéreas que decidu serviu de Papai Noel, mesmo que contra a vontade.
--
É, eu sei que é só um carregador de malas filha da puta que atira nossa bagagem com mais força quando está escrito “frágil” só pra tirar uma onda. O caso é que pensar nessa história me deixa menos puto da vida.
outubro 25, 2007
Percepções aleatórias de uma mente randômica
Em linhas gerais, existem dois tipos de pessoa no que tange a falar e pensar: um tipo precisa verbalizar pra processar as informações (ou seja, fala para pensar) e outro tipo precisa pensar para falar (ou seja, processa tudo e, se der tempo, fala). Eu pertenço ao grupo que pensa pra depois falar. Não é presunção, nenhum é melhor que outro, há uma série de maldições para ambos os tipos, mas no nosso caso (eu e os outros que pensam antes de falar) acho que o principal esquema é: a cabeça não pára nunca de fazer associações, são tantas que a maioria é simplesmente lixo.
Pois é isso aí, este post é o lixo aleatória que eu um dia gostaria de desenvolver, mas nunca tive capacidade, vontade ou seriedade para tal:
- Todas as pessoas que usam som absurdamente alto no carro (significa que você ouve muito bem o som do lado de fora, mesmo com as janelas do carro fechadas) têm mau gosto. Garanto que você já notou, todos escutam músicas muito ruins, tipo funk, pagode e axé. Obviamente são homens. Pensando por que isso, matei a charada: mulheres que são atraídas por esse tipo de coisa, carros com som potente, gostam dessas músicas bagaceiras, porque, obviamente, são bagaceiras.
- Escritores não são astros, isso prova que a mídia livro é bem menos “santificadora” dos que a produzem. Prova? Basta ver o Luís Fernando Veríssimo andando tranqüilamente pela Feira do Livro sem ser interrompido. Se fosse a Syang, garanto que alguém pediria um autógrafo, ainda que nunca ninguém tenha ouvido uma música dela. Paulo Coelho não conta, ele não é um escritor, é um “MAGO”.
- Se John Lennon fosse vivo, ele certamente seria alguma espécie de ativista necrozoopedófilo. Primeiro porque era um mala sem alça e precisava subverter tudo e chinelear, segundo - e mais importante - sendo um Beatle e podendo escolher QUALQUER mulher no mundo, o cara escolheu a nipônica mais feia e mala que já pisou nesse planeta, isso com certeza significa que ele tinha fantasias sexuais com buldogues pintores ou algo assim.
- Se alguém escrevesse a bíblia hoje, ninguém acreditaria. Porque então acreditam, se ela sequer foi escrita durante o “mandato” do Cristo por aqui?
- Por que a minha família fala durante as refeições as mesmas coisas sempre? Não é a questão de usar o mesmo assunto, mas sim as mesmas frases, as mesmas entonações, as mesmas piadas usando as mesmas pausas estratégicas. Tenho duas possibilidades, a primeira é o que eu chamo mentalmente de “não-linguagem”: não quer dizer nada, é só pra passar o tempo, mais ou menos como a TV no domingo. A segunda é que as pessoas têm uma memória realmente ruim e só eu lembro que aquilo foi dito exatamente. Na real tem uma terceira, que gira em torno de eu estar preso em um looping na Matrix, mas na real não acredito muito nessa.
- Os cinemas de outrora, aquelas gigantões pra milhares de pessoas, todos eles viraram bingo ou igrejas. No fundo, continuam com o mesmo propósito: entretenimento para as massas.
É, é isso.
Pois é isso aí, este post é o lixo aleatória que eu um dia gostaria de desenvolver, mas nunca tive capacidade, vontade ou seriedade para tal:
- Todas as pessoas que usam som absurdamente alto no carro (significa que você ouve muito bem o som do lado de fora, mesmo com as janelas do carro fechadas) têm mau gosto. Garanto que você já notou, todos escutam músicas muito ruins, tipo funk, pagode e axé. Obviamente são homens. Pensando por que isso, matei a charada: mulheres que são atraídas por esse tipo de coisa, carros com som potente, gostam dessas músicas bagaceiras, porque, obviamente, são bagaceiras.
- Escritores não são astros, isso prova que a mídia livro é bem menos “santificadora” dos que a produzem. Prova? Basta ver o Luís Fernando Veríssimo andando tranqüilamente pela Feira do Livro sem ser interrompido. Se fosse a Syang, garanto que alguém pediria um autógrafo, ainda que nunca ninguém tenha ouvido uma música dela. Paulo Coelho não conta, ele não é um escritor, é um “MAGO”.
- Se John Lennon fosse vivo, ele certamente seria alguma espécie de ativista necrozoopedófilo. Primeiro porque era um mala sem alça e precisava subverter tudo e chinelear, segundo - e mais importante - sendo um Beatle e podendo escolher QUALQUER mulher no mundo, o cara escolheu a nipônica mais feia e mala que já pisou nesse planeta, isso com certeza significa que ele tinha fantasias sexuais com buldogues pintores ou algo assim.
- Se alguém escrevesse a bíblia hoje, ninguém acreditaria. Porque então acreditam, se ela sequer foi escrita durante o “mandato” do Cristo por aqui?
- Por que a minha família fala durante as refeições as mesmas coisas sempre? Não é a questão de usar o mesmo assunto, mas sim as mesmas frases, as mesmas entonações, as mesmas piadas usando as mesmas pausas estratégicas. Tenho duas possibilidades, a primeira é o que eu chamo mentalmente de “não-linguagem”: não quer dizer nada, é só pra passar o tempo, mais ou menos como a TV no domingo. A segunda é que as pessoas têm uma memória realmente ruim e só eu lembro que aquilo foi dito exatamente. Na real tem uma terceira, que gira em torno de eu estar preso em um looping na Matrix, mas na real não acredito muito nessa.
- Os cinemas de outrora, aquelas gigantões pra milhares de pessoas, todos eles viraram bingo ou igrejas. No fundo, continuam com o mesmo propósito: entretenimento para as massas.
É, é isso.
setembro 12, 2007
junho 12, 2007
Máfia da Cerveja
Ontem fui em um bar que não sei se tem nome, mas chamarei de "Máfia da Cerveja", porque é uma boa definição do que é e porque é um ótimo nome para um bar. Imagine um bar que lembra de alguma forma um antigo armazem de um boticário, armários de portas de madeira longas, garrafas de cerveja de todas as nacionalidades, formatos e tamanhos espalhadas por TODOS os lugares e uma incrível diferença de qualquer outro bar: ninguém te serve.
A coisa é simples, você vai até o armário dos copos, escolhe seu copo preferido, vai até o freezer, escolhe sua cerveja preferida. Repita o processo quantas vezes achar necessário até acabar. Ninguém anota nada, o dono do bar confia em você. Quando quiser ir embora, é só achá-lo em algum lugar (ele certamente estará conversando com alguém, bem longe da porta de saída).
Talvez você ache que não funcione, mas há um segredo aí: o bar sequer parece um bar do lado de fora. Não, nada disso. o Máfia da Cerveja fica com a porta fechada, trancada. Se você quiser entrar, deve tocar a campainha. Se o dono for com a sua cara, você entra, se não, não entra. Gosto de imaginar que assim eram os bares de ópio mais quentuxos de Londres.
Pode não ter ópio, mas tem muita cerveja. E cervejas realmente diferentes. Tomamos umas 4 ou 5 variedades que eu JAMAIS tinha sequer visto - a maioria em garrafas de 3 ou 5 litros com aquelas tampas maneiras de cerâmica. Luxo para o bom mafioso da maviosa cerveja.
É um lugar deveras simpático, bem como seu dono, patrão e único "staff" presente. Só o meu amigo Flávio para descobrer esses estranhos lugares. Acho que ele poderia escrever um guia sobre "bares bizarros de Porto Alegre". Ou talvez um blog. Eu acompanharia. Ele poderia até ganhar dinheiro com isso, fazendo com que os donos de boteco o pagassem por um review no blog.
Ah, onde fica este maravilhoso e simpático "Máfia da Cerveja" não revelarei - pra não estragar o lugar.
A coisa é simples, você vai até o armário dos copos, escolhe seu copo preferido, vai até o freezer, escolhe sua cerveja preferida. Repita o processo quantas vezes achar necessário até acabar. Ninguém anota nada, o dono do bar confia em você. Quando quiser ir embora, é só achá-lo em algum lugar (ele certamente estará conversando com alguém, bem longe da porta de saída).
Talvez você ache que não funcione, mas há um segredo aí: o bar sequer parece um bar do lado de fora. Não, nada disso. o Máfia da Cerveja fica com a porta fechada, trancada. Se você quiser entrar, deve tocar a campainha. Se o dono for com a sua cara, você entra, se não, não entra. Gosto de imaginar que assim eram os bares de ópio mais quentuxos de Londres.
Pode não ter ópio, mas tem muita cerveja. E cervejas realmente diferentes. Tomamos umas 4 ou 5 variedades que eu JAMAIS tinha sequer visto - a maioria em garrafas de 3 ou 5 litros com aquelas tampas maneiras de cerâmica. Luxo para o bom mafioso da maviosa cerveja.
É um lugar deveras simpático, bem como seu dono, patrão e único "staff" presente. Só o meu amigo Flávio para descobrer esses estranhos lugares. Acho que ele poderia escrever um guia sobre "bares bizarros de Porto Alegre". Ou talvez um blog. Eu acompanharia. Ele poderia até ganhar dinheiro com isso, fazendo com que os donos de boteco o pagassem por um review no blog.
Ah, onde fica este maravilhoso e simpático "Máfia da Cerveja" não revelarei - pra não estragar o lugar.
maio 14, 2007
Benfloginando.
Encher a raba de Benflogin e descrever seus efeitos medonhos não é novidade pra ninguém, mas na falta do que criar, vale tudo. Melhor isso do que ferver, em banho maria, FILMES FOTOGRÁFICOS em busca da produção de um CHÁ entorpecente para as mentes mais insanamente psicodélicas. Acredite, quando você acha que nunca houve alguém idiota o suficiente pra fazê-lo, sempre há.
Pra quem não conhece, Benflogin é um remédio pra renite, bronquite e toda sorte de "ites" que aflijam o primitivo sistema imunológico do homem moderno. Não se sabe se o efeito ESQUIZOFRÊNICO do medicamento foi descoberto graças a um médico que, em seus garranchos apressados, receitou uma dose cavalar a alguma criança que saiu dando piruetas ao ver gnomos vestidos de shortinho ou algum esperançoso suícida que buscava livrar-se de sua existência e o máximo que conseguiu foi uma grande viagem e uma puta caganeira, mas, indiferente do descobridor, o novo barato do momento passou de boca em boca a cada jovem junkie que ouvia, atrás da porta, os relatos das viagens dos seus pais ex-hippies.
Como bom jovem filho de ex-hippies, eu não fui diferente. Impulsionado pela bula que chorava "Altas doses podem causar alucinações visuais, auditivas, ......." e desconsiderando a parte que dizia "...perda de apetite, insônia, vômito, ataque epiléptico, coma e morte", decidi que esquecer minha filosofia de "nada de drogas", naquele momento, seria o apropriado a fazer. Afinal, eu estava bêbado com alguns litros de vinho tinto de boteco, junto com outros no mesmo ESTADINHO, e estava me dirigindo a uma rave. Rumo à farmácia, é isso que eu disse.
Não foi difícil comprar, sem levantar grandes suspeitas, TRÊS CAIXAS de Benflogin para ser partilhado com o pessoal, apesar de sua tarjinha vermelha e aquela crássica recomendação de vender somente com prescrição médica. Ah, que isso, todo mundo no Brasil é meio médico, sr. vendedor da farmácia.
DISCLAMER: Partindo do princípio politicamente correto: eu não tomo mais estas boletas desde 2001 e, mesmo assim, tomava no máximo de 3 em 3 meses, pois o negócio começa a perder o efeito e você tem que tomar cada vez mais, o que te intoxica e te deixa mais próximo da imprevisível DOSE LETAL, que, por sinal, pode ser até a PRIMEIRA, dependendo do organismo do rapeize. Além disso tem uma ressaca altamente fodida, já que proporciona aos intestinos a velha e boa caganeira desenfreada, azia infernal, incapacidade de dormir durante 1 dia e toda sorte de efeitos MUITO prolongados (mais de 10 horas). Sem contar a incrível possibilidade de você acabar num caixão ou no hospital público mais próximo (até hoje eu desconfio que minha apendicite veio daí). Então, não diga que eu incentivei, tome por sua conta e risco. Eu aconselho não.
Antes deste dia, eu anteriormente já tinha tomado as boletas, mas foi uma decepção total. Apesar das 8 boletas ingeridas – quantidade MUITO boa pra 1a vez -, não houve efeito algum, só insônia. Meu organismo é conhecido por agüentar uma boa série de tosqueiras químicas sem os efeitos que a maioria das pessoas conhecem – maconha nunca fez efeito algum, fora vômito desenfreado se eu estiver muito bêbado. Pra se ter uma idéia, eu tive ressaca apenas DUAS vezes na minha vida, pra quem me conhece, sabe que eu não brinco em serviço na hora de entornar o caneco.
Desta vez, decidi, embalado pelo excesso de vinho no sangue, tomar umas 15. Tinha de fazer efeito.
Umas duas horas depois, já na fila da rave, achei que o remédio começava a fazer efeito, vi pessoas com anteninhas na cabeça e olhos de cores inexistentes na natureza, mas eram só os habituès das raves. Algumas pessoas acham que pra ir numa rave você tem de se fantasiar de algo de outro planeta. Suspirei e continuei conversando com as pessoas da fila. Conversar com esse tipo de gente é sempre uma experiência enriquecedora para saber O QUE NÃO DIZER quando do lado de alguém inteligente. Sorrio pela imbecilidade alheia, concordo com seja lá o que for que está guria de cabelos cor de limão estragado está proferindo ao tocar a mão na bunda da sua amiga gordinha.
O efeito do vinho tinto, misturado com sabe-se lá qual germes e diversas outras susbstâncias insalubres e provavelmente tóxicas, parecia ter chegado ao seu ápice. Eu estava leve, a cabeça com um estranho zunido e com um pequeno peso pendendo para um dos lados e as pessoas todas pareciam falar mais alto que o normal, fazendo eu ter de gritar pra ser ouvido pela guria do cabelo limão, mesmo eu estando a uns cinco centímetros da orelha, cheia de piercings, dela.
- Sérgio. – ouvi a voz de um dos meus amigos me chamando, atrás de mim.
Virei-me e eles estavam conversando entre si, sem sequer olhar pra mim ou notar que eu estou olhando.
- Que que foi? – cutuquei as costas de um deles.
- Hm?
Virei-me e compreendi que o entorpecimento não foi em vão. Começava a fazer efeito. Percebi o segundo efeito com espanto e um pouco de admiração: o tão falado " efeito matrix", onde as coisas se movem devagar, quadro a quadro, deixando um RASTRO, possibilitanto assim que uma simples chacoalhada de cabeça, em um ambiente com algumas lâmpadas, se torne uma gigantesca onda de raios laser. Passei a brincar com efeito, balançando a mão em frente aos meus olhos, sem me tocar que devia estar parecendo um pinél, de cabelo raspado e tudo.
Ao finalmente entrar no galpão que transbordava graves fortíssimo, uma cena espantosa ao adentrar a pista de dança. Foi uma sensação maravilhosa, aquele galpão vazio, um som absurdamente alto, e milhares, não, milhões de luzes piscando e refletindo pela minha visão "quadro a quadro". Até hoje m lembro desta cena, foi uma beleza. Comecei a dançar, sem sentir direito os pés, mas não era importante, eu estava solteiro novamente e as chicas me esperavam ansiosas, com seus peitos suados e seu entre pernas ardendo, a vida foi boa comigo.
Umas duas horas de sacolejo incessante, gritaria esporádica e, com alguma sorte, uma ou outra troca de saliva, começo a sentir uma sensação desagradável no estômago. Algo como uma GRAN vontade de cagar que não faz nenhum sinal no FIOFÓ, como se algo dentro do ESTÔMBO fosse explodir. Em uma pequena vertigem, suo frio e então a explosão: ouço um grande "boom", o som fica completamente baixo, ouço meu coração batendo como num filme de suspense, tudo a minha volta fica lento, me assusto, dou uma respirada muito forte e barulhenta, como se estivesse em um lugar sem ar que de repente se enche de oxigênio. Tudo volta ao normal, na medida do possível, com a rapidez e indiferença com que houve o boom.
Como herança do BBBB, Big Bang By Benflogin, o suor frio na testa. Vejo um TRAVECÃO, de uns 2 metros de altura e azul de tão preto, me olhando de forma pouco amistosa, - que diabos estou fazendo? – eu penso. Ele, não, ela, ahn, aquilo vem em minha direção com cara de poucos amigos, afastando o povo aglomerado, que se interpunha no caminho entre o traveco e eu, com pouca feminilidade, na verdade, bastante macheza. Apertei o FURDUNÇO, de modo que sequer uma agulha passaria, e então o traveco passou por mim, não sem me dar um encontrão no braço direito. Um segundo depois, déjà vu, a mesma cena, o traveco me dando um ombraço novamente, na terceira vez que eu senti o encontrão, senti como se a bicha tivesse passado uma NAVALHA no braço. Me borrei todo e comecei a ficar frio, como se estivesse perdendo sangue, e aquele barulho de filme do coração parando de bater e os sons super abafados, tirei meu casaco de manga comprida e analisei meu braço, sem escapar da curiosidade das pessoas na minha volta pelo gesto estupidamente estranho. Tateei, sem sucesso, pra encontrar o ferimento. Graças aos céus foi só uma grande bad trip, meu braço tava inteiro e meu casaco também.
Depois dessa, decidi que seria mais prudente me sentar um pouco e tomar um pouco de água quem sabe. Comecei a sair da pista e avistei o Rafa, vestido de AZUL, um amigo que disse que não iria na rave. O Rafa é meio parecido comigo, cabelo curto e escuro, porém mais gordo e com o nariz vermelho como o bozo. Quando cheguei perto dele, já com a mão aproximando-se da barriga dele, para dar um pequeno soquinho como cumprimento, percebi que havia me enganado, não era o Rafa, mas sim uma LOIRA, magra, vestida de VERMELHO. Enfim, o terceiro efeito famoso, a transmutação de pessoas. Depois de me explicar pra loira, evitando obviamente dizer que a confundi com um homem, me desviei pras almofadas do lounge, sem grandes contratempos, se você não considerar tropeçar nos próprios pés um contratempo. Graças a Deus, pelo que pude constatar, a transmutação se desfaz quando se chega perto das pessoas, seria bastante vergonhoso pra minha reputação estar no mais ESFREGA com um TRAVECÃO ou assemelhado de genética masculina.
O lounge estava meio cheio, bêbados caídos dormindo com o rego pra fora, meninas que perderam a elegância, casais (de toda sorte de opções sexuais) se esfregando, uns mortos, enfim. Havia um pequeno espaço sobrando em uma almofada, parcialmente ocupada por um sujeito parcialmente morto. Me juntei a ele, porém sentado. Olhando para os lados e até me divertindo com uma cena ou outra.
Ouvi meu nome ser chamado, mas sabia que não havia conhecidos à minha volta, como um esquizofrênico que tenta ignorar sua doença, tentava não parecer perturbado. Apesar de ser bastante chato ver o que ninguém mais enxerga. Meu olhar oscilava pra um ou outro lado, até que meus olhos fixaram-se numa das luzes negras do teto. Um ou dois minutos depois, acho que foi isso, eu vi a lâmpada negra se transformando em nada mais nada menos que o PADRE QUEVEDO, apontando o DEDÃO pra mim e dizendo com aquele sotaque bastante singular:
- Vamos dobre este dedo, vamos, vamos, mate me! Não és o diabo? Pois mate me!
Comecei a rir sozinho, podia ignorar meu nome, mas ignorar o PADRE QUEVEDO seria muito pra mim. Acho que devo ter imitado a ação do padre, em clara achincalhação. Fodeu, havia me esquecido que eu era o único a ter tais delírios e, mesmo em uma rave, minhas ações se mostravam bastante incomuns.
Olhei pro lado e uma menina me observava, abaixei o dedo devagar, me toquei que estava sendo muito pateta. Ela me perguntou:
- Tu tá sozinho?
E eu, num acesso de ingenuídade TREMENDOUS, disse:
- Não, meu amigos tão por aí.
Ela puxou mais uma ou duas tentativas de diálogos. Eu não entendia o que ao certo ela queria, estava realmente TRANSTORNADO pelos entorpecentes, para não entender o que ela queria. Acho que depois ela me agarrou, mas não estou certo, podia ser uma ilusão ou uma peça pregada pela memória. Bem, não importa. Levantei-me e fui dançar. Sem parar, até às 8h30min. Cheguei em casa, deitei na cama e fiquei olhando teto, não conseguia dormir de jeito nenhum. Ao meio-dia me levantei, note que eu não acordei, apenas levantei, pois não durmi. O repé foi infernal: caganeira desenfreada, mal estar estomacal e os efeitos esquizóides até a OUTRA noite.
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Muitas drogas.
Pra quem não conhece, Benflogin é um remédio pra renite, bronquite e toda sorte de "ites" que aflijam o primitivo sistema imunológico do homem moderno. Não se sabe se o efeito ESQUIZOFRÊNICO do medicamento foi descoberto graças a um médico que, em seus garranchos apressados, receitou uma dose cavalar a alguma criança que saiu dando piruetas ao ver gnomos vestidos de shortinho ou algum esperançoso suícida que buscava livrar-se de sua existência e o máximo que conseguiu foi uma grande viagem e uma puta caganeira, mas, indiferente do descobridor, o novo barato do momento passou de boca em boca a cada jovem junkie que ouvia, atrás da porta, os relatos das viagens dos seus pais ex-hippies.
Como bom jovem filho de ex-hippies, eu não fui diferente. Impulsionado pela bula que chorava "Altas doses podem causar alucinações visuais, auditivas, ......." e desconsiderando a parte que dizia "...perda de apetite, insônia, vômito, ataque epiléptico, coma e morte", decidi que esquecer minha filosofia de "nada de drogas", naquele momento, seria o apropriado a fazer. Afinal, eu estava bêbado com alguns litros de vinho tinto de boteco, junto com outros no mesmo ESTADINHO, e estava me dirigindo a uma rave. Rumo à farmácia, é isso que eu disse.
Não foi difícil comprar, sem levantar grandes suspeitas, TRÊS CAIXAS de Benflogin para ser partilhado com o pessoal, apesar de sua tarjinha vermelha e aquela crássica recomendação de vender somente com prescrição médica. Ah, que isso, todo mundo no Brasil é meio médico, sr. vendedor da farmácia.
DISCLAMER: Partindo do princípio politicamente correto: eu não tomo mais estas boletas desde 2001 e, mesmo assim, tomava no máximo de 3 em 3 meses, pois o negócio começa a perder o efeito e você tem que tomar cada vez mais, o que te intoxica e te deixa mais próximo da imprevisível DOSE LETAL, que, por sinal, pode ser até a PRIMEIRA, dependendo do organismo do rapeize. Além disso tem uma ressaca altamente fodida, já que proporciona aos intestinos a velha e boa caganeira desenfreada, azia infernal, incapacidade de dormir durante 1 dia e toda sorte de efeitos MUITO prolongados (mais de 10 horas). Sem contar a incrível possibilidade de você acabar num caixão ou no hospital público mais próximo (até hoje eu desconfio que minha apendicite veio daí). Então, não diga que eu incentivei, tome por sua conta e risco. Eu aconselho não.
Antes deste dia, eu anteriormente já tinha tomado as boletas, mas foi uma decepção total. Apesar das 8 boletas ingeridas – quantidade MUITO boa pra 1a vez -, não houve efeito algum, só insônia. Meu organismo é conhecido por agüentar uma boa série de tosqueiras químicas sem os efeitos que a maioria das pessoas conhecem – maconha nunca fez efeito algum, fora vômito desenfreado se eu estiver muito bêbado. Pra se ter uma idéia, eu tive ressaca apenas DUAS vezes na minha vida, pra quem me conhece, sabe que eu não brinco em serviço na hora de entornar o caneco.
Desta vez, decidi, embalado pelo excesso de vinho no sangue, tomar umas 15. Tinha de fazer efeito.
Umas duas horas depois, já na fila da rave, achei que o remédio começava a fazer efeito, vi pessoas com anteninhas na cabeça e olhos de cores inexistentes na natureza, mas eram só os habituès das raves. Algumas pessoas acham que pra ir numa rave você tem de se fantasiar de algo de outro planeta. Suspirei e continuei conversando com as pessoas da fila. Conversar com esse tipo de gente é sempre uma experiência enriquecedora para saber O QUE NÃO DIZER quando do lado de alguém inteligente. Sorrio pela imbecilidade alheia, concordo com seja lá o que for que está guria de cabelos cor de limão estragado está proferindo ao tocar a mão na bunda da sua amiga gordinha.
O efeito do vinho tinto, misturado com sabe-se lá qual germes e diversas outras susbstâncias insalubres e provavelmente tóxicas, parecia ter chegado ao seu ápice. Eu estava leve, a cabeça com um estranho zunido e com um pequeno peso pendendo para um dos lados e as pessoas todas pareciam falar mais alto que o normal, fazendo eu ter de gritar pra ser ouvido pela guria do cabelo limão, mesmo eu estando a uns cinco centímetros da orelha, cheia de piercings, dela.
- Sérgio. – ouvi a voz de um dos meus amigos me chamando, atrás de mim.
Virei-me e eles estavam conversando entre si, sem sequer olhar pra mim ou notar que eu estou olhando.
- Que que foi? – cutuquei as costas de um deles.
- Hm?
Virei-me e compreendi que o entorpecimento não foi em vão. Começava a fazer efeito. Percebi o segundo efeito com espanto e um pouco de admiração: o tão falado " efeito matrix", onde as coisas se movem devagar, quadro a quadro, deixando um RASTRO, possibilitanto assim que uma simples chacoalhada de cabeça, em um ambiente com algumas lâmpadas, se torne uma gigantesca onda de raios laser. Passei a brincar com efeito, balançando a mão em frente aos meus olhos, sem me tocar que devia estar parecendo um pinél, de cabelo raspado e tudo.
Ao finalmente entrar no galpão que transbordava graves fortíssimo, uma cena espantosa ao adentrar a pista de dança. Foi uma sensação maravilhosa, aquele galpão vazio, um som absurdamente alto, e milhares, não, milhões de luzes piscando e refletindo pela minha visão "quadro a quadro". Até hoje m lembro desta cena, foi uma beleza. Comecei a dançar, sem sentir direito os pés, mas não era importante, eu estava solteiro novamente e as chicas me esperavam ansiosas, com seus peitos suados e seu entre pernas ardendo, a vida foi boa comigo.
Umas duas horas de sacolejo incessante, gritaria esporádica e, com alguma sorte, uma ou outra troca de saliva, começo a sentir uma sensação desagradável no estômago. Algo como uma GRAN vontade de cagar que não faz nenhum sinal no FIOFÓ, como se algo dentro do ESTÔMBO fosse explodir. Em uma pequena vertigem, suo frio e então a explosão: ouço um grande "boom", o som fica completamente baixo, ouço meu coração batendo como num filme de suspense, tudo a minha volta fica lento, me assusto, dou uma respirada muito forte e barulhenta, como se estivesse em um lugar sem ar que de repente se enche de oxigênio. Tudo volta ao normal, na medida do possível, com a rapidez e indiferença com que houve o boom.
Como herança do BBBB, Big Bang By Benflogin, o suor frio na testa. Vejo um TRAVECÃO, de uns 2 metros de altura e azul de tão preto, me olhando de forma pouco amistosa, - que diabos estou fazendo? – eu penso. Ele, não, ela, ahn, aquilo vem em minha direção com cara de poucos amigos, afastando o povo aglomerado, que se interpunha no caminho entre o traveco e eu, com pouca feminilidade, na verdade, bastante macheza. Apertei o FURDUNÇO, de modo que sequer uma agulha passaria, e então o traveco passou por mim, não sem me dar um encontrão no braço direito. Um segundo depois, déjà vu, a mesma cena, o traveco me dando um ombraço novamente, na terceira vez que eu senti o encontrão, senti como se a bicha tivesse passado uma NAVALHA no braço. Me borrei todo e comecei a ficar frio, como se estivesse perdendo sangue, e aquele barulho de filme do coração parando de bater e os sons super abafados, tirei meu casaco de manga comprida e analisei meu braço, sem escapar da curiosidade das pessoas na minha volta pelo gesto estupidamente estranho. Tateei, sem sucesso, pra encontrar o ferimento. Graças aos céus foi só uma grande bad trip, meu braço tava inteiro e meu casaco também.
Depois dessa, decidi que seria mais prudente me sentar um pouco e tomar um pouco de água quem sabe. Comecei a sair da pista e avistei o Rafa, vestido de AZUL, um amigo que disse que não iria na rave. O Rafa é meio parecido comigo, cabelo curto e escuro, porém mais gordo e com o nariz vermelho como o bozo. Quando cheguei perto dele, já com a mão aproximando-se da barriga dele, para dar um pequeno soquinho como cumprimento, percebi que havia me enganado, não era o Rafa, mas sim uma LOIRA, magra, vestida de VERMELHO. Enfim, o terceiro efeito famoso, a transmutação de pessoas. Depois de me explicar pra loira, evitando obviamente dizer que a confundi com um homem, me desviei pras almofadas do lounge, sem grandes contratempos, se você não considerar tropeçar nos próprios pés um contratempo. Graças a Deus, pelo que pude constatar, a transmutação se desfaz quando se chega perto das pessoas, seria bastante vergonhoso pra minha reputação estar no mais ESFREGA com um TRAVECÃO ou assemelhado de genética masculina.
O lounge estava meio cheio, bêbados caídos dormindo com o rego pra fora, meninas que perderam a elegância, casais (de toda sorte de opções sexuais) se esfregando, uns mortos, enfim. Havia um pequeno espaço sobrando em uma almofada, parcialmente ocupada por um sujeito parcialmente morto. Me juntei a ele, porém sentado. Olhando para os lados e até me divertindo com uma cena ou outra.
Ouvi meu nome ser chamado, mas sabia que não havia conhecidos à minha volta, como um esquizofrênico que tenta ignorar sua doença, tentava não parecer perturbado. Apesar de ser bastante chato ver o que ninguém mais enxerga. Meu olhar oscilava pra um ou outro lado, até que meus olhos fixaram-se numa das luzes negras do teto. Um ou dois minutos depois, acho que foi isso, eu vi a lâmpada negra se transformando em nada mais nada menos que o PADRE QUEVEDO, apontando o DEDÃO pra mim e dizendo com aquele sotaque bastante singular:
- Vamos dobre este dedo, vamos, vamos, mate me! Não és o diabo? Pois mate me!
Comecei a rir sozinho, podia ignorar meu nome, mas ignorar o PADRE QUEVEDO seria muito pra mim. Acho que devo ter imitado a ação do padre, em clara achincalhação. Fodeu, havia me esquecido que eu era o único a ter tais delírios e, mesmo em uma rave, minhas ações se mostravam bastante incomuns.
Olhei pro lado e uma menina me observava, abaixei o dedo devagar, me toquei que estava sendo muito pateta. Ela me perguntou:
- Tu tá sozinho?
E eu, num acesso de ingenuídade TREMENDOUS, disse:
- Não, meu amigos tão por aí.
Ela puxou mais uma ou duas tentativas de diálogos. Eu não entendia o que ao certo ela queria, estava realmente TRANSTORNADO pelos entorpecentes, para não entender o que ela queria. Acho que depois ela me agarrou, mas não estou certo, podia ser uma ilusão ou uma peça pregada pela memória. Bem, não importa. Levantei-me e fui dançar. Sem parar, até às 8h30min. Cheguei em casa, deitei na cama e fiquei olhando teto, não conseguia dormir de jeito nenhum. Ao meio-dia me levantei, note que eu não acordei, apenas levantei, pois não durmi. O repé foi infernal: caganeira desenfreada, mal estar estomacal e os efeitos esquizóides até a OUTRA noite.
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Muitas drogas.
maio 09, 2007
Confissões de um comedor de sementes
Um texto que escrevi faz bastante tempo, publicado originalmente aqui.
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Certa vez HERBERTS GONZALES, meu amigo LATINO, escreveu em seu diário, ali pela página 2243, algo bastante interessante sobre umas SEMENTES que ele sempre ouvia um amigo falar lá no MÉXICO (não colocarei o texto em itálico em respeito aos OLHOS do que aqui lerá este relato, levemente alterado por minha própria experiência, não mexicana, mas sim LITERÁRIA):
“Era DOMINGAITE, dia internacional do NOTHING TO DO - principalmente para moradores de NOTHING HILL, como é conhecida CANOAS CITY TOWN por todas as pessoas que vivem dentro da minha cabeça - e eu, seguindo a risca a RELIGIÃO do dia, jazia no computador, do meu PAI, conversando com uma SUECA DOIDA. Então o telefone, como é do COSTUME dos telefones nessa época do ano devido a sua natureza mais primitiva, RINGOU o tema de MISSÃO IMPOSSÍVEL, o que claramente indicava que, se não estavam presentes na minha casa as 3 bilhões de pessoas com esse toque de celular, o que estava tocando era o MEU celular. Atendi-lho, como todo bom CRISTÃO deveria fazer quanto o PRÓXIMO o procura.
Era MANU FERNANDEZ que, com seu TIJUANÊS de PORTUGAL, típico dos mais clássicos filmes como UP IN SMOKE, cultuadamente nomeados como CHEEK E CHONG, falou:
- Ei, MANO.
- Não, “MANU” é você, FERNANDEZ, eu sou o HERBERTS. - Respondi eu.
- Não, MANO, estou falando pra dizer que a PATA botou um OVO. - Contra-argumentou MANU FERNANDEZ.
- Que porra de pata é essa, MANU?
- Não, MANO, eu falei em código, lembra?
- Sinceramente?
- É.
- Não lembro.
- Porra, o código que eu te disse pra dizer que disesse quando as SEMENTES estivessem aqui. - Disse FERNANDEZ impaciente.
- Ah, mas pra que código?
- Pra POLÍCIA não me rastrear, né? Não se fala no celular essas coisas.
- Mas tu disse que não era ILEGAL.
- ILEGAL não é, mas se os HOMI descobrirem qual é a dessa SEMENTINHA, podes crer que, em vez de ficarmos ALTOS, ficaremos PROIBIDOS.
- Ah. - Disse eu.
- Então, captou?
- Sim.
- Então, vamos?
- Aonde?
- PORRA, comer a droga da SEMENTE. A HAWAIAN BABE WOODROSE. Ficarmos ALTOS.
- Isso é que eu chamo de falar em código. Bom, é domingo, então sim.
- Quem tem a ver o domingo com a semente, MANO. - Quase soçobrou MANU.
- É que domingo não tem o que fazer, então vamos nessa. Onde?
- Parque Farroupilha.
- Feito. Tô lá. - Disse eu.
- Mas já, HERBERTS? Eu tenho que tomar banho ainda.
- Não, MANU, eu quis dizer que vou estar lá.
- Mas tu não disse.
- Ok, ESTAREI LÁ.
- Feito.
HOOKEOU o telefone, desligando-o, portanto.
Dei a última olhada no SITE que revela os poderes científicos da SEMENTE da planta conhecida como HAWAIIAN BABE WOODROSE, porém, mais conhecida entre os CHICANOS como uma espécie de LSD, só que muito mais fraco, geralmente sem ALUCINAÇÕES, mas sim SENSAÇÕES. Nunca tinha provado o tal troço, ainda que FERNANDEZ MANJAVA MASTER PLUS, precisava ter garantias de que não iria querer derrubar muros às DENTADAS ou tão pouco FORNECER O VÁ-DE-RETRO por ENGANOSO acontecimento. É, todos os relatos e experiências dizem que é “ok”. A exceção da Austrália, não é proibida. Só diziam que dava um pouco de enjôo, principalmente nos ESTOMBOS mais MARIQUINHAS. Eu, como verdadeiro MARIACHI que soy, acostumada as mais variadas PIMENTAS e TECALINOSAS em geral, decidi que era melhor PREVENIR do que REMEDIAR. Então, chamei no DUPLO SHOT de um REMEDINHO contra dores ESTOMBAIS, prevenindo eventual REBORDOZA nos intestinos da NAÇÃO.
Dirigi até o PARQUE e estacionei com algum CUSTO por entre um FUSCA e uma BRASÍLIA, visto que sou um descoordenado. Lá chegando, me dirigi até o ponto de encontro mais tradicional e provavelmente única referência do PARQUE FARROUPILHA: um arco do TRIUNFO em homenagem a DERROTA (?) dos líderes da Revolução Farroupilha. Digo único ponto de encontro porque, em geral, é bem difícil achar alguém em um parque onde, afora você seja um BIÓLOGO, todas as ÁRVORES que o compõe são essencialmente parecidas: tronco e folhas verdes.
E, mesmo que tu REALMENTE seja um biólogo, seria MUITO GAY DEMAIS PRA CARALHO MESMO tu dizer que vai se encontrar com outro MACHO atrás do “carvalho retorcido”. Pra não dizer estúpido, porque há ali justamente um ARCO DA DERROTA para isso - já que não faz nenhum sentido comemorar, de fato, uma derrota.
A não ser que seja para o seu chefe, mas isso é outra história e deixa pra lá.
Chegando no DEPRIMENTE arco da VITÓRIA DERROTADA, havia um monte de gente vestida de preto, conhecidos como PGSdB - PUNKS (ou PÛNKS como diria CHARLES BROWNSON), GÓTICOS e SIMPATIZANTES de BUTUQUE (ainda que não sejam MUITO simpáticos, a maioria é deste último grupo altamente organizado em sua caótica desordem, com reuniões semanais no mesmo horário e no mesmo dia ali, coincidentemente, no Parque Farroupilha). Em meio a tanta gente de BLACK TIE com o TIE totalmente opcional, foi muito fácil achar MANU FERNANDEZ com suas roupas VERMELHAS e AMARELAS, honrando a pátria amada.
- Hei, MANO! - Disse ele ao me ver.
- Não, cara, eu já disse, “MANU” é você.
- Ok, toma aí as sementes. - Disse ele estendendo e balançamdo um pequeno saquinho plástico transparente, muito parecido com aqueles que vem com parafusos em gabinetes de computador, repleto de SEMENTES.
- Porra, abaixo isso aí, MANU. - Disse eu, pegando rápido o saquinho de sementes da mão de FERNANDEZ e olhando para os lados para ver se não havia nenhum TIRA na área.
- Mas é legal, não podem te prender por isso.
- É, vai explicar isso pra TIRAS trabalhando mal-humorados num DOMINGO FRIO. Eles tem um LABORATÓRIO a tira colo pra saber que isso não é algum tipo de TÓXICO ou outra coisa MUITO LOUCA?
- Mas é tóxico, MANO. - Disse MANU FERNANDEZ a mim.
- Eu to falando dos PROIBIDÕES.
- Que tem o FUNK a ver com o assunto, MANO?
Assumi aquela cara de desprezo e silêncio que só eu sei fazer, enquanto olhava pro lado para uma pessoa imaginária e a cutucava, APONTANDO DESAPONTADAMENTE para a negligente burrice de FERNANDEZ.
Ele entendeu o recado e ENGANCHOU como DIRETO no queixo:
- E aí, vamos mastigar logo essas sementes?
- Claro, quantas eu tomo? - disse eu.
- Depende, tu quer uma dose pra bebê, normal, forte ou CHILI com comida BAIANA misturado com TEQUILA e CHUCRUTE?
- Normal.
- De 5 a 8 sementes então.
- Feito, vou no SETE que é meu número de SORTE.
- Por que é o número de sorte?
- Porque foi o número de vezes que eu caí num bar uma noite dessas. - Disse eu.
- E como diabos isso pode ser considerado SORTE?
- No meu estado, podia ter sido BEM MAIS.
- Ah.
Cortamos o papo-furado e logo estávamos mascando umas sementinhas muito engraçadas. Pra mim pareciam com gosto de amendoim, só que com um gosto mais de TERRA do que de AMENDOIM propriamente dito. Mas a textura era, definitivamente, de amendoim, só que em vez de amendoim, parecia PEDRA, só que em vez de PEDRA, quebrava como AMENDOIM.
Acho que era isso.
Terminamos de engolir as sementes, FERNANDEZ fez uma cara de quem tava comendo PEDRA com MERDA. Perguntei-lhe:
- Que há? O gosto não é ruim.
- Isso é porque é a primeira vez.
- Como assim?
- É que cada vez que tu come fica PIOR. Parece que desperta um troço adormecido na língua.
- Hm, ok, vou me lembrar disso nas próximas vezes, daqui uns meses.
- Isso aí.
Lavamos a boca ambos com suco de laranja para não ficar nenhuma casquinha e porque, AMENDOIM com PEDRA ou PEDRA com MERDA, ambos são gostos xaropes de ficar na boca.
Segundo todos os sites e sabedoria POPULAR mexicana, as sementes demorariam cerca de 2 ou 3 horas pra BATEREM afu. Depois ainda rolaria uma viagenzinha de 4 a 6 horas. Perfeito. Já que era 17h e eu tinha um churras às 18h (brazilian time, o que significava que podia chegar às 19h30).
Andamos pelo parque e sentamos, observando uma espécie de CONVENÇÃO destes ignóbeis MALABARISTAS de sinal de trânsito que praticavam sua “arte” num verdejante gramado. Esperemos o tempo passar e conversamos amenidades eu e FERNANDEZ, que compartilhava comigo o ódio por malabares e seus praticantes - principalmente aqueles que, por algum motivo jamais apurado, levam seus APETRECHOS para festas e começam a MALABARIAR em meio a todo tipo de gente dançando, bebendo e perdendo a noção de espaço.
O primeiro efeito, adverso, começou como FERNANDEZ e os fórums de internet haviam me avisado: um pouco de náusea, nada demais. Comi até um pedaço de um churros engordurado e não deu nada, até passou um pouco. Mas logo voltou de novo.
Meu celular avisou-me que às 18h havia chegado, era hora de cruzar o parque, achar meu carro, driblar o flanelinha e, finalmente, dirigir-me à casa de todos os caroneiros que acharam no Guia do Mochileiro dos Churrascos o meu nome como a melhor opção custo/benefício para chegar no churrasco - era como um táxi, só que não pagava, mas também era como um ônibus, só que não precisava ir até a parada.
Não entendeu?
Entenda:
Tenho um PEQUENO carro, uma espécie de evolução de um FUSCA, só que, por ser um carro projetado aparentemente para PIGMEUS, a tarefa de colocar 5 pessoas neste carro é deveras árdua e extremamente desconfortável, mais ou menos como dobrar um mapa rodoviário.
E se com 5 pessoas já é difícil, imagine com SEIS.
Não foi fácil. Recorremos a todo tipo de ESTRATAGEMA para preencher o veículo, mas a solução mais coerente que encontramos foi bastante SIMPLES, se compararmos à física quântica: três atrás, três na frente. Para que isso pudesse ser feito sem prejudicar a NAVEGAÇÃO do veículo, estabelecemos as seguintes regras: Alguém no banco de TRÁS trocaria as marchas ao meu sinal (que deveria acontecer quando eu pressionasse a embreagem). Ao dobrar a direita, as DUAS pessoas que estavam em UM banco da frente deveriam checar o espelho e dizer se a barra tava limpa gritando “já chegou o disco voador”. E, principalmente, era proibido peidar.
Ao pegar o último integrante da TRUPE que formou o CIRCO do meu carro, olhei, como de costume, para o ODÔMETRO que, apesar do nome, não calcula os ODORES do carro, mas sim quantos quilômetros esta belezinha já havia percorrido desde o seu nascimento.
Não acreditei no que vi.
Olhei de novo.
Confirmei, dizia exatamente “10.666 km”. Até o carro sabia que aquela seria uma noite INFERNAL.
Os primeiros efeitos, além da ainda presente leve náusea, começaram a se apresentar. Eu tava meio cansado, com preguiça de me movimentar e com um sorriso MAROTO que eu tinha que me concentrar pra tirar do rosto, como estes malditos EMACONHADOS, pode-se dizer. Um dos presentes no carro comentou que eu parecia cansado. Respondia quase tudo em monossílabos - nada de muito diferente do normal quando me sinto cansado, é verdade.
Ao chegar no local do CHURRASCAITE, precisamente num destes condomínios meio fechados meio abertos onde há uma série de prédios e tudo mais, expulsei a CANAILLE do carro e procurei um lugar pra estacionar. Fiz-o com MESTRIDÃO.
Cheguei na churrasqueira e já sentia uma vontade incontrolável de sorrir. Abri a porta já abanando as mãos e sorrindo, os presentes comemoraram minha chegada com toda aquela coisa de “JOTA QUEEEEEST” já tradicional quando eu apareço. Deve ser algum sinal em código para que os presentes agarrem suas bebidas e tomem tudo logo, antes que eu acabe com o álcool da festa. Talvez não seja, mas, na hora, foi divertido pensar isso e, claro, SORRIR.
Mas, hoje eles teriam uma surpresa.
Havia decidido não beber. Primeiro porque eu nunca tinha provado a SEMENTE e, portanto, não sabia que efeitos poderiam dar no meu organismo, queria ver o que exatamente havia de efeitos. Segundo que dirigir bêbado eu já me tornei um expert, porém BEBAITE e DROGADITO PLUS eu não posso dizer o mesmo e não quero nem TENTAR.
Mais e mais pessoas começaram a chegar e logo o meu sorriso era INCONTROLÁVEL. Enquanto as pessoas bebiam cerveja, enquanto sentadas nas mesas, eu me sentei na mesa, apoiei a mão no queixo, cobrindo levemente a boca, isso bastava para encobrir o meu sorriso boa parte do tempo.
Eu sentia uma calma EXTREMA. Se, de repente, a churrasqueira saísse do controle e o salão de festas pegasse fogo, provavelmente eu sairia calmamente - sorrindo - pela saída mais próxima e, provavelmente, assobiando “Lucy in the Sky with Diamonds” dos Beatles.
De repente eu senti que os meus sentidos estavam APURADÍSSIMOS. No meio de uma barulheira de gente conversando e som alto, eu ouvia perfeitamente o que as pessoas estavam conversando do outro lado da sala, no início até chamei na MONGOLISSE e tentei responder, só que, obviamente, ninguém prestou atenção. Não estou certo, mas acho que por ouvir muito melhor, creio que ainda dificultava pras pessoas a minha volta eu estar falando mais baixo que o normal, já que eu ouvia minha voz na mesma altura de sempre. ACHO que falava mais baixo, já que muita gente perguntava “o quê” quando eu falava, mas também pode ser um outro sintoma que eu senti: de tanto sorrir, a boca fica meio “travada”, é meio estranho de falar a primeira frase de uma conversa. Além disso, o cérebro parece funcionar muito mais rápido que a boca, e eu pulava de um assunto para o outro com uma desenvoltura que, em alguns casos, percebi claramente que desconjuntava alguns dos meus interlocutores.
A náusea começava a diminuir.
De repente dei uma risada e todos os sons, enquanto eu ria, pareciam estar sendo ouvidos por mim como se eu estivesse embaixo D´ÁGUA. Percebi que TODA vez que eu dava uma risada mais alta isso acontecia. Me diverti com isso.
Meus sentidos estavam ótimos, ampliadíssimos.
O tato e a visão estavam como nunca antes, ainda mais pra mim que sou um MONGOLÃO e derrubo TUDO que pode ser derrubado e, quiçá, até o que não é POSSÍVEL derrubar. Fui servir uma PEPSI num copo de PLÁSTICO (desses que SEMPRE viram quando tu, ou melhor, EU, vai servir) e, CARALHO, eu via cada gota do líquido da garrafa escorrendo perfeitamente para dentro do copo, sendo que este último sequer se moveu de tanta perfeição que havia no movimento. Servi o copo até a boca, como é de meu costume.
Notei que a cor da PEPSI estava mais viva, mais GOSTOSA.
Bebi o primeiro gole e senti que o meu paladar também estava ESTRATOSFÉRICO. Foi MUITO difícil engolir, passei o refri de um lado para outro da boca, meio que como um BOCHECHO de FLÚOR, tentando ao máximo não demonstrar que fazia isso aos meus CONFRADES. Finalmente consegui engolir, mas foi difícil, a sensação era de que eu tinha o MAR MEDITERRÂNEO inteiro na garganta. Entendi que tinha que tomar goles pequenos. O refri que servi até a boca DEMOROU pra ser consumido.
Uma das sensações mais presentes era na visão, era estranho, eu não tinha nenhuma alucinação nem nada, mas o mundo era diferente. Minha visão parecia que estava mais longa do que o normal, fazendo com que, quando eu olhasse pra baixo, eu parecia estar mais baixo do que a minha altura normal e, quando olhava pras pessoas, parecia que eu estava mais perto.
Respondi umas 32 vezes que estava tomando remédios e, por isso, não ia beber naquele dia. Todos estranharam mais aceitaram.
Logo os corações de galinha estavam prontos, botei o primeiro na boca e senti todos os temperos. A textura era esquisitona. E o coração subitamente era grande de mais pra minha boca, parecia que eu estava tentando mastigar uma galinha INTEIRA. Desta forma, eu tinha que mastigar muito mais vezes que o normal.
Entendi que essas SEMENTES seriam de grande ajuda pra quem faz dieta. Pense: o cara come em pedaços PEQUENOS, tem que mastigar BEM e, melhor ainda, sente o tempero das coisas ainda melhor do que já é. Comendo devagar, teu corpo digere melhor e tu tem a sensação de estar saciado mais cedo, comendo, portanto, menos - a não ser que tu seja um OLHUDO de marca maior.
A partir daí era só alegrias, fiquei sorrindo, transitando entre grupos, absorto com os detalhes que via as vezes, e irritando algumas pessoas que queria irritar sempre sorrindo. Usei como principal disfarce as mensagens de celular, aí sorria descaradamente mostrando que falava com uma PEQUENA NOTÁVEL (que gerou comoção interna entre algumas pessoas pra saber quem era), comia pedaços MUITO pequenos e policiava-me e olhava pros outros de longe pra saber se alguém estava notando algo estranho em mim. Mas as SEMENTES são da tranqüilidade, tu pode ir num jantar formal que ninguém vai perceber que tu tá levemente alterado - talvez alguém que te conheça demais, sei lá.
No fim da festa, perto das 23h, os efeitos já tinham diminuído bastante. As percepções continuavam afiadas, mas o mundo já não era tão diferente, eu já podia controlar meu sorriso e a carne já descia mais fácil. Peguei UMA ceva e senti que era amarga pra caralho. Mas boa. Demoraram pra notar que eu tinha uma nas mãos, quando me perguntaram desde quando eu estava bebendo eu simplesmente sorri e disse que “é segredo, só eu sei”. Aí o cara olhou pro meu sorriso e disse “é, pela tua carinha foi mais de uma, heheheh”. Apenas sorri em afirmação, ainda que fosse mentira, tinha tomado apenas meia lata.
Lembro-me de me pegar contantemente sorrindo, como se tivesse um pequeno segredo que ninguém soubesse, e tateava no bolso as outras sementes, como Bilbo fazia com o Um Anel. Quando percebi isso achei mais engraçado ainda.
No fim da festa, calminho como nunca, peguei o carro e fui embora sozinho. Impressionante como a minha visão estava boa de noite. Eu notava todos os detalhes da estrada, carros, placas, tudo. Nada escapava ao meu atento olhar. A calma atingiu até a forma com que eu dirijo. As curvas que eu costumava fazer a 60km/h eu fazia a 40km/h, os lugares que andava a 80km/h eu estava a 60km/h, porém, devido a minha grande percepção, a velocidade parecia alta de toda forma - o que é verdade, uma curva a 40km/h é rápida suficiente, não acha?
Cheguei em casa.
Meu pai estava pegando um refri e umas bolachas. Falei com ele pra ver se ele notava algo.
Nada.
Porém, minha cabeça estava a milhão e eu percebi que eu geral eu não falo com ele. Constatei que deveria falar mais com meu pai, até teria dado um abraço nele, mas aí ele teria CERTEZA que eu devia estar ON DRUGS e isso não seria bom, principalmente porque, quando olhei no espelho, minhas pupilas estavam GIGANTALHUSCAS. Aliás, foi bastante desagradável tirar as lentes do olho, porque eu senti meus dedos cutucando os olhos mais do que normalmente eu sentiria.
Deitei na minha cama, comi um BRIGADEIRO (porque se eu falasse que deitei na CAMA e comi um NEGRINHO ia soar meio VEADON) - caramba, cara, como BRIGADEIRO é bom demais pra caralho mesmo quando tu está com um SUPER paladar, heim?
Escrevi um pouco num caderno antigo antes de dormir enquanto via o final do jornal de domingo e cheguei a constatação “mas que jornal provinciano, heim? Noticiar os 100 anos do sr. XXXXXX? Fala sério”. Eu ouvia perfeitamente o barulho que a caneta fazia no papel. Ainda que minha coordenação estivesse melhor, minha letra continuava a mesma PORCARIA que sempre foi. Amaldiçoei não possuir um computador que funcionasse pela força do pensamento, já que já estava “escrevendo” mentalmente este texto desde que entrei no carro e vim pra casa.
Decidi largar o caderno e relaxar. Afinal, eram as últimas horas de viagem e eu não queria gastá-las fazendo qualquer outra coisa que não aproveitar. Amaldiçoei minha sorte por não ter nenhuma SUAVE me acompanhando, já que, se o TATO amplia PRA CARALHO, imagine o que o MEU sentiria na hora do RETUMBANTE VAI-E-VEM da PIROCA ENSANDECIDA.
Depois que escrevi tudo isso, percebo como é difícil descrever sensações e digo: só estando lá pra saber o que foi.”
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E assim acaba o relato do amigo HERBERTS GONZALES, como foi escrito na página 2243 de seu diário.
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Certa vez HERBERTS GONZALES, meu amigo LATINO, escreveu em seu diário, ali pela página 2243, algo bastante interessante sobre umas SEMENTES que ele sempre ouvia um amigo falar lá no MÉXICO (não colocarei o texto em itálico em respeito aos OLHOS do que aqui lerá este relato, levemente alterado por minha própria experiência, não mexicana, mas sim LITERÁRIA):
“Era DOMINGAITE, dia internacional do NOTHING TO DO - principalmente para moradores de NOTHING HILL, como é conhecida CANOAS CITY TOWN por todas as pessoas que vivem dentro da minha cabeça - e eu, seguindo a risca a RELIGIÃO do dia, jazia no computador, do meu PAI, conversando com uma SUECA DOIDA. Então o telefone, como é do COSTUME dos telefones nessa época do ano devido a sua natureza mais primitiva, RINGOU o tema de MISSÃO IMPOSSÍVEL, o que claramente indicava que, se não estavam presentes na minha casa as 3 bilhões de pessoas com esse toque de celular, o que estava tocando era o MEU celular. Atendi-lho, como todo bom CRISTÃO deveria fazer quanto o PRÓXIMO o procura.
Era MANU FERNANDEZ que, com seu TIJUANÊS de PORTUGAL, típico dos mais clássicos filmes como UP IN SMOKE, cultuadamente nomeados como CHEEK E CHONG, falou:
- Ei, MANO.
- Não, “MANU” é você, FERNANDEZ, eu sou o HERBERTS. - Respondi eu.
- Não, MANO, estou falando pra dizer que a PATA botou um OVO. - Contra-argumentou MANU FERNANDEZ.
- Que porra de pata é essa, MANU?
- Não, MANO, eu falei em código, lembra?
- Sinceramente?
- É.
- Não lembro.
- Porra, o código que eu te disse pra dizer que disesse quando as SEMENTES estivessem aqui. - Disse FERNANDEZ impaciente.
- Ah, mas pra que código?
- Pra POLÍCIA não me rastrear, né? Não se fala no celular essas coisas.
- Mas tu disse que não era ILEGAL.
- ILEGAL não é, mas se os HOMI descobrirem qual é a dessa SEMENTINHA, podes crer que, em vez de ficarmos ALTOS, ficaremos PROIBIDOS.
- Ah. - Disse eu.
- Então, captou?
- Sim.
- Então, vamos?
- Aonde?
- PORRA, comer a droga da SEMENTE. A HAWAIAN BABE WOODROSE. Ficarmos ALTOS.
- Isso é que eu chamo de falar em código. Bom, é domingo, então sim.
- Quem tem a ver o domingo com a semente, MANO. - Quase soçobrou MANU.
- É que domingo não tem o que fazer, então vamos nessa. Onde?
- Parque Farroupilha.
- Feito. Tô lá. - Disse eu.
- Mas já, HERBERTS? Eu tenho que tomar banho ainda.
- Não, MANU, eu quis dizer que vou estar lá.
- Mas tu não disse.
- Ok, ESTAREI LÁ.
- Feito.
HOOKEOU o telefone, desligando-o, portanto.
Dei a última olhada no SITE que revela os poderes científicos da SEMENTE da planta conhecida como HAWAIIAN BABE WOODROSE, porém, mais conhecida entre os CHICANOS como uma espécie de LSD, só que muito mais fraco, geralmente sem ALUCINAÇÕES, mas sim SENSAÇÕES. Nunca tinha provado o tal troço, ainda que FERNANDEZ MANJAVA MASTER PLUS, precisava ter garantias de que não iria querer derrubar muros às DENTADAS ou tão pouco FORNECER O VÁ-DE-RETRO por ENGANOSO acontecimento. É, todos os relatos e experiências dizem que é “ok”. A exceção da Austrália, não é proibida. Só diziam que dava um pouco de enjôo, principalmente nos ESTOMBOS mais MARIQUINHAS. Eu, como verdadeiro MARIACHI que soy, acostumada as mais variadas PIMENTAS e TECALINOSAS em geral, decidi que era melhor PREVENIR do que REMEDIAR. Então, chamei no DUPLO SHOT de um REMEDINHO contra dores ESTOMBAIS, prevenindo eventual REBORDOZA nos intestinos da NAÇÃO.
Dirigi até o PARQUE e estacionei com algum CUSTO por entre um FUSCA e uma BRASÍLIA, visto que sou um descoordenado. Lá chegando, me dirigi até o ponto de encontro mais tradicional e provavelmente única referência do PARQUE FARROUPILHA: um arco do TRIUNFO em homenagem a DERROTA (?) dos líderes da Revolução Farroupilha. Digo único ponto de encontro porque, em geral, é bem difícil achar alguém em um parque onde, afora você seja um BIÓLOGO, todas as ÁRVORES que o compõe são essencialmente parecidas: tronco e folhas verdes.
E, mesmo que tu REALMENTE seja um biólogo, seria MUITO GAY DEMAIS PRA CARALHO MESMO tu dizer que vai se encontrar com outro MACHO atrás do “carvalho retorcido”. Pra não dizer estúpido, porque há ali justamente um ARCO DA DERROTA para isso - já que não faz nenhum sentido comemorar, de fato, uma derrota.
A não ser que seja para o seu chefe, mas isso é outra história e deixa pra lá.
Chegando no DEPRIMENTE arco da VITÓRIA DERROTADA, havia um monte de gente vestida de preto, conhecidos como PGSdB - PUNKS (ou PÛNKS como diria CHARLES BROWNSON), GÓTICOS e SIMPATIZANTES de BUTUQUE (ainda que não sejam MUITO simpáticos, a maioria é deste último grupo altamente organizado em sua caótica desordem, com reuniões semanais no mesmo horário e no mesmo dia ali, coincidentemente, no Parque Farroupilha). Em meio a tanta gente de BLACK TIE com o TIE totalmente opcional, foi muito fácil achar MANU FERNANDEZ com suas roupas VERMELHAS e AMARELAS, honrando a pátria amada.
- Hei, MANO! - Disse ele ao me ver.
- Não, cara, eu já disse, “MANU” é você.
- Ok, toma aí as sementes. - Disse ele estendendo e balançamdo um pequeno saquinho plástico transparente, muito parecido com aqueles que vem com parafusos em gabinetes de computador, repleto de SEMENTES.
- Porra, abaixo isso aí, MANU. - Disse eu, pegando rápido o saquinho de sementes da mão de FERNANDEZ e olhando para os lados para ver se não havia nenhum TIRA na área.
- Mas é legal, não podem te prender por isso.
- É, vai explicar isso pra TIRAS trabalhando mal-humorados num DOMINGO FRIO. Eles tem um LABORATÓRIO a tira colo pra saber que isso não é algum tipo de TÓXICO ou outra coisa MUITO LOUCA?
- Mas é tóxico, MANO. - Disse MANU FERNANDEZ a mim.
- Eu to falando dos PROIBIDÕES.
- Que tem o FUNK a ver com o assunto, MANO?
Assumi aquela cara de desprezo e silêncio que só eu sei fazer, enquanto olhava pro lado para uma pessoa imaginária e a cutucava, APONTANDO DESAPONTADAMENTE para a negligente burrice de FERNANDEZ.
Ele entendeu o recado e ENGANCHOU como DIRETO no queixo:
- E aí, vamos mastigar logo essas sementes?
- Claro, quantas eu tomo? - disse eu.
- Depende, tu quer uma dose pra bebê, normal, forte ou CHILI com comida BAIANA misturado com TEQUILA e CHUCRUTE?
- Normal.
- De 5 a 8 sementes então.
- Feito, vou no SETE que é meu número de SORTE.
- Por que é o número de sorte?
- Porque foi o número de vezes que eu caí num bar uma noite dessas. - Disse eu.
- E como diabos isso pode ser considerado SORTE?
- No meu estado, podia ter sido BEM MAIS.
- Ah.
Cortamos o papo-furado e logo estávamos mascando umas sementinhas muito engraçadas. Pra mim pareciam com gosto de amendoim, só que com um gosto mais de TERRA do que de AMENDOIM propriamente dito. Mas a textura era, definitivamente, de amendoim, só que em vez de amendoim, parecia PEDRA, só que em vez de PEDRA, quebrava como AMENDOIM.
Acho que era isso.
Terminamos de engolir as sementes, FERNANDEZ fez uma cara de quem tava comendo PEDRA com MERDA. Perguntei-lhe:
- Que há? O gosto não é ruim.
- Isso é porque é a primeira vez.
- Como assim?
- É que cada vez que tu come fica PIOR. Parece que desperta um troço adormecido na língua.
- Hm, ok, vou me lembrar disso nas próximas vezes, daqui uns meses.
- Isso aí.
Lavamos a boca ambos com suco de laranja para não ficar nenhuma casquinha e porque, AMENDOIM com PEDRA ou PEDRA com MERDA, ambos são gostos xaropes de ficar na boca.
Segundo todos os sites e sabedoria POPULAR mexicana, as sementes demorariam cerca de 2 ou 3 horas pra BATEREM afu. Depois ainda rolaria uma viagenzinha de 4 a 6 horas. Perfeito. Já que era 17h e eu tinha um churras às 18h (brazilian time, o que significava que podia chegar às 19h30).
Andamos pelo parque e sentamos, observando uma espécie de CONVENÇÃO destes ignóbeis MALABARISTAS de sinal de trânsito que praticavam sua “arte” num verdejante gramado. Esperemos o tempo passar e conversamos amenidades eu e FERNANDEZ, que compartilhava comigo o ódio por malabares e seus praticantes - principalmente aqueles que, por algum motivo jamais apurado, levam seus APETRECHOS para festas e começam a MALABARIAR em meio a todo tipo de gente dançando, bebendo e perdendo a noção de espaço.
O primeiro efeito, adverso, começou como FERNANDEZ e os fórums de internet haviam me avisado: um pouco de náusea, nada demais. Comi até um pedaço de um churros engordurado e não deu nada, até passou um pouco. Mas logo voltou de novo.
Meu celular avisou-me que às 18h havia chegado, era hora de cruzar o parque, achar meu carro, driblar o flanelinha e, finalmente, dirigir-me à casa de todos os caroneiros que acharam no Guia do Mochileiro dos Churrascos o meu nome como a melhor opção custo/benefício para chegar no churrasco - era como um táxi, só que não pagava, mas também era como um ônibus, só que não precisava ir até a parada.
Não entendeu?
Entenda:
Tenho um PEQUENO carro, uma espécie de evolução de um FUSCA, só que, por ser um carro projetado aparentemente para PIGMEUS, a tarefa de colocar 5 pessoas neste carro é deveras árdua e extremamente desconfortável, mais ou menos como dobrar um mapa rodoviário.
E se com 5 pessoas já é difícil, imagine com SEIS.
Não foi fácil. Recorremos a todo tipo de ESTRATAGEMA para preencher o veículo, mas a solução mais coerente que encontramos foi bastante SIMPLES, se compararmos à física quântica: três atrás, três na frente. Para que isso pudesse ser feito sem prejudicar a NAVEGAÇÃO do veículo, estabelecemos as seguintes regras: Alguém no banco de TRÁS trocaria as marchas ao meu sinal (que deveria acontecer quando eu pressionasse a embreagem). Ao dobrar a direita, as DUAS pessoas que estavam em UM banco da frente deveriam checar o espelho e dizer se a barra tava limpa gritando “já chegou o disco voador”. E, principalmente, era proibido peidar.
Ao pegar o último integrante da TRUPE que formou o CIRCO do meu carro, olhei, como de costume, para o ODÔMETRO que, apesar do nome, não calcula os ODORES do carro, mas sim quantos quilômetros esta belezinha já havia percorrido desde o seu nascimento.
Não acreditei no que vi.
Olhei de novo.
Confirmei, dizia exatamente “10.666 km”. Até o carro sabia que aquela seria uma noite INFERNAL.
Os primeiros efeitos, além da ainda presente leve náusea, começaram a se apresentar. Eu tava meio cansado, com preguiça de me movimentar e com um sorriso MAROTO que eu tinha que me concentrar pra tirar do rosto, como estes malditos EMACONHADOS, pode-se dizer. Um dos presentes no carro comentou que eu parecia cansado. Respondia quase tudo em monossílabos - nada de muito diferente do normal quando me sinto cansado, é verdade.
Ao chegar no local do CHURRASCAITE, precisamente num destes condomínios meio fechados meio abertos onde há uma série de prédios e tudo mais, expulsei a CANAILLE do carro e procurei um lugar pra estacionar. Fiz-o com MESTRIDÃO.
Cheguei na churrasqueira e já sentia uma vontade incontrolável de sorrir. Abri a porta já abanando as mãos e sorrindo, os presentes comemoraram minha chegada com toda aquela coisa de “JOTA QUEEEEEST” já tradicional quando eu apareço. Deve ser algum sinal em código para que os presentes agarrem suas bebidas e tomem tudo logo, antes que eu acabe com o álcool da festa. Talvez não seja, mas, na hora, foi divertido pensar isso e, claro, SORRIR.
Mas, hoje eles teriam uma surpresa.
Havia decidido não beber. Primeiro porque eu nunca tinha provado a SEMENTE e, portanto, não sabia que efeitos poderiam dar no meu organismo, queria ver o que exatamente havia de efeitos. Segundo que dirigir bêbado eu já me tornei um expert, porém BEBAITE e DROGADITO PLUS eu não posso dizer o mesmo e não quero nem TENTAR.
Mais e mais pessoas começaram a chegar e logo o meu sorriso era INCONTROLÁVEL. Enquanto as pessoas bebiam cerveja, enquanto sentadas nas mesas, eu me sentei na mesa, apoiei a mão no queixo, cobrindo levemente a boca, isso bastava para encobrir o meu sorriso boa parte do tempo.
Eu sentia uma calma EXTREMA. Se, de repente, a churrasqueira saísse do controle e o salão de festas pegasse fogo, provavelmente eu sairia calmamente - sorrindo - pela saída mais próxima e, provavelmente, assobiando “Lucy in the Sky with Diamonds” dos Beatles.
De repente eu senti que os meus sentidos estavam APURADÍSSIMOS. No meio de uma barulheira de gente conversando e som alto, eu ouvia perfeitamente o que as pessoas estavam conversando do outro lado da sala, no início até chamei na MONGOLISSE e tentei responder, só que, obviamente, ninguém prestou atenção. Não estou certo, mas acho que por ouvir muito melhor, creio que ainda dificultava pras pessoas a minha volta eu estar falando mais baixo que o normal, já que eu ouvia minha voz na mesma altura de sempre. ACHO que falava mais baixo, já que muita gente perguntava “o quê” quando eu falava, mas também pode ser um outro sintoma que eu senti: de tanto sorrir, a boca fica meio “travada”, é meio estranho de falar a primeira frase de uma conversa. Além disso, o cérebro parece funcionar muito mais rápido que a boca, e eu pulava de um assunto para o outro com uma desenvoltura que, em alguns casos, percebi claramente que desconjuntava alguns dos meus interlocutores.
A náusea começava a diminuir.
De repente dei uma risada e todos os sons, enquanto eu ria, pareciam estar sendo ouvidos por mim como se eu estivesse embaixo D´ÁGUA. Percebi que TODA vez que eu dava uma risada mais alta isso acontecia. Me diverti com isso.
Meus sentidos estavam ótimos, ampliadíssimos.
O tato e a visão estavam como nunca antes, ainda mais pra mim que sou um MONGOLÃO e derrubo TUDO que pode ser derrubado e, quiçá, até o que não é POSSÍVEL derrubar. Fui servir uma PEPSI num copo de PLÁSTICO (desses que SEMPRE viram quando tu, ou melhor, EU, vai servir) e, CARALHO, eu via cada gota do líquido da garrafa escorrendo perfeitamente para dentro do copo, sendo que este último sequer se moveu de tanta perfeição que havia no movimento. Servi o copo até a boca, como é de meu costume.
Notei que a cor da PEPSI estava mais viva, mais GOSTOSA.
Bebi o primeiro gole e senti que o meu paladar também estava ESTRATOSFÉRICO. Foi MUITO difícil engolir, passei o refri de um lado para outro da boca, meio que como um BOCHECHO de FLÚOR, tentando ao máximo não demonstrar que fazia isso aos meus CONFRADES. Finalmente consegui engolir, mas foi difícil, a sensação era de que eu tinha o MAR MEDITERRÂNEO inteiro na garganta. Entendi que tinha que tomar goles pequenos. O refri que servi até a boca DEMOROU pra ser consumido.
Uma das sensações mais presentes era na visão, era estranho, eu não tinha nenhuma alucinação nem nada, mas o mundo era diferente. Minha visão parecia que estava mais longa do que o normal, fazendo com que, quando eu olhasse pra baixo, eu parecia estar mais baixo do que a minha altura normal e, quando olhava pras pessoas, parecia que eu estava mais perto.
Respondi umas 32 vezes que estava tomando remédios e, por isso, não ia beber naquele dia. Todos estranharam mais aceitaram.
Logo os corações de galinha estavam prontos, botei o primeiro na boca e senti todos os temperos. A textura era esquisitona. E o coração subitamente era grande de mais pra minha boca, parecia que eu estava tentando mastigar uma galinha INTEIRA. Desta forma, eu tinha que mastigar muito mais vezes que o normal.
Entendi que essas SEMENTES seriam de grande ajuda pra quem faz dieta. Pense: o cara come em pedaços PEQUENOS, tem que mastigar BEM e, melhor ainda, sente o tempero das coisas ainda melhor do que já é. Comendo devagar, teu corpo digere melhor e tu tem a sensação de estar saciado mais cedo, comendo, portanto, menos - a não ser que tu seja um OLHUDO de marca maior.
A partir daí era só alegrias, fiquei sorrindo, transitando entre grupos, absorto com os detalhes que via as vezes, e irritando algumas pessoas que queria irritar sempre sorrindo. Usei como principal disfarce as mensagens de celular, aí sorria descaradamente mostrando que falava com uma PEQUENA NOTÁVEL (que gerou comoção interna entre algumas pessoas pra saber quem era), comia pedaços MUITO pequenos e policiava-me e olhava pros outros de longe pra saber se alguém estava notando algo estranho em mim. Mas as SEMENTES são da tranqüilidade, tu pode ir num jantar formal que ninguém vai perceber que tu tá levemente alterado - talvez alguém que te conheça demais, sei lá.
No fim da festa, perto das 23h, os efeitos já tinham diminuído bastante. As percepções continuavam afiadas, mas o mundo já não era tão diferente, eu já podia controlar meu sorriso e a carne já descia mais fácil. Peguei UMA ceva e senti que era amarga pra caralho. Mas boa. Demoraram pra notar que eu tinha uma nas mãos, quando me perguntaram desde quando eu estava bebendo eu simplesmente sorri e disse que “é segredo, só eu sei”. Aí o cara olhou pro meu sorriso e disse “é, pela tua carinha foi mais de uma, heheheh”. Apenas sorri em afirmação, ainda que fosse mentira, tinha tomado apenas meia lata.
Lembro-me de me pegar contantemente sorrindo, como se tivesse um pequeno segredo que ninguém soubesse, e tateava no bolso as outras sementes, como Bilbo fazia com o Um Anel. Quando percebi isso achei mais engraçado ainda.
No fim da festa, calminho como nunca, peguei o carro e fui embora sozinho. Impressionante como a minha visão estava boa de noite. Eu notava todos os detalhes da estrada, carros, placas, tudo. Nada escapava ao meu atento olhar. A calma atingiu até a forma com que eu dirijo. As curvas que eu costumava fazer a 60km/h eu fazia a 40km/h, os lugares que andava a 80km/h eu estava a 60km/h, porém, devido a minha grande percepção, a velocidade parecia alta de toda forma - o que é verdade, uma curva a 40km/h é rápida suficiente, não acha?
Cheguei em casa.
Meu pai estava pegando um refri e umas bolachas. Falei com ele pra ver se ele notava algo.
Nada.
Porém, minha cabeça estava a milhão e eu percebi que eu geral eu não falo com ele. Constatei que deveria falar mais com meu pai, até teria dado um abraço nele, mas aí ele teria CERTEZA que eu devia estar ON DRUGS e isso não seria bom, principalmente porque, quando olhei no espelho, minhas pupilas estavam GIGANTALHUSCAS. Aliás, foi bastante desagradável tirar as lentes do olho, porque eu senti meus dedos cutucando os olhos mais do que normalmente eu sentiria.
Deitei na minha cama, comi um BRIGADEIRO (porque se eu falasse que deitei na CAMA e comi um NEGRINHO ia soar meio VEADON) - caramba, cara, como BRIGADEIRO é bom demais pra caralho mesmo quando tu está com um SUPER paladar, heim?
Escrevi um pouco num caderno antigo antes de dormir enquanto via o final do jornal de domingo e cheguei a constatação “mas que jornal provinciano, heim? Noticiar os 100 anos do sr. XXXXXX? Fala sério”. Eu ouvia perfeitamente o barulho que a caneta fazia no papel. Ainda que minha coordenação estivesse melhor, minha letra continuava a mesma PORCARIA que sempre foi. Amaldiçoei não possuir um computador que funcionasse pela força do pensamento, já que já estava “escrevendo” mentalmente este texto desde que entrei no carro e vim pra casa.
Decidi largar o caderno e relaxar. Afinal, eram as últimas horas de viagem e eu não queria gastá-las fazendo qualquer outra coisa que não aproveitar. Amaldiçoei minha sorte por não ter nenhuma SUAVE me acompanhando, já que, se o TATO amplia PRA CARALHO, imagine o que o MEU sentiria na hora do RETUMBANTE VAI-E-VEM da PIROCA ENSANDECIDA.
Depois que escrevi tudo isso, percebo como é difícil descrever sensações e digo: só estando lá pra saber o que foi.”
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E assim acaba o relato do amigo HERBERTS GONZALES, como foi escrito na página 2243 de seu diário.
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